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Educação


O primeiro curso de pós-graduação em Tai Chi Chuan no País pretende ser uma ferramenta de apoio na prevenção e no tratamento de doenças
Texto: Vera Cristofani

Um mestre na cura



Freqüentador assíduo de parques públicos e academias das grandes cidades brasileiras, o tai chi chuan agora chega aos bancos escolares. Numa iniciativa inédita da Sociedade Brasileira de Tai Chi Chuan (SBTCC), em parceria com a Faculdade de Ciências e Saúde de São Paulo (Facis), em maio terá início o primeiro curso de pós-graduação lato sensu de Tai Chi Chuan. Além de estimular a discussão teórica e científica, a propos­ta é formar especialistas na técnica para que possam utilizá-la em seus diversos campos de atividades. Fazem parte do público-alvo do curso, fisioterapeutas, psicólogos, professo­res de educação física, enfermeiros, médicos e educadores em geral. “Estamos passando por transformações positivas na mentalidade acadêmica e científica, com a adesão ao estudo em profundidade de matérias nunca antes abordadas”, reflete a professora Maria Angela Vieira Socci, presidente da SBTCC e uma das idealizadoras do curso.

A partir de agora, esses profissionais podem dar aulas em faculdades, realizar pesquisas ou utilizar-se da arte marcial em seus consultórios. Maria Angela comenta que eles poderão ser atuantes efetivos na prevenção de doenças, além de obterem acesso a um dos melhores métodos não-invasivos de sistema terapêutico. Aliás, o interesse crescente pela arte do tai chi chuan, inclusive o terapêutico, foi um dos motivadores do curso, segundo a professora. “Passamos a compreender os efeitos negativos que os exercícios extremos de alto impacto ou vida sedentária trazem à saúde. Hoje, a Organização Mundial da Saúde (OMS) incentiva programas para difundir práticas moderadas em todos os países, onde a obesidade e o sedentarismo tornaram-se uma verdadeira preocupação governamental.”

Pesquisas realizadas nos diversos campos da saúde têm demonstrado que a aplicação do tai chi chuan em consultórios, escolas, hospitais, empresas, clínicas de tratamento, campos desportivos e praças produzem resultados excelentes na melhoria da qualidade de vida e condições de saúde dos seus praticantes. “Fomos convidados recentemente pelo Hospital das Clínicas de São Paulo (HC) para desenvolver uma pesquisa sobre os benefícios do tai chi chuan na saúde humana. Iniciamos este projeto no ano passado, no Departamento de Memória de Idosos do hospital, onde ensinamos a técnica para mulheres com 60 anos de idade ou mais. Sem praticar nenhum exercício físico, elas ainda se queixavam de problemas de memória”, conta Maria Angela.

O projeto em andamento tem como foco, primeiramente, a correção da postura e o fortalecimento dos músculos da perna, exercício de alongamento para tornar o corpo mais flexível, e após, o trabalho com a melhora da memória e ganho de movimentos funcionais. “A ênfase está na saúde preventiva, já que o tai chi chuan abrange todo o corpo da pessoa sem qualquer risco de lesões. Além disso, promove a oxigenação profunda do organismo, equilibra as emoções, estimula o sistema nervoso e permite que as funções mentais se estabilizem e se ampliem”, afirma a professora.


Qualidade de vida
A SBTCC foi fundada em 1978 pelos professores Roque Enrique Severino e Maria Angela Socci. “Somos os pioneiros na difusão do tai chi chuan da família Yang aqui no Brasil. Recebemos instruções do grão-mestre Yang Zhenduo, que nasceu em Pequim, na China em 1924, bisneto do grão-mestre Yang Lu-Chan, criador do estilo Yang de Tai Chi”, conta a professora. O pai de Yang Zhenduo, Yang Cheng-Fu, foi quem estabeleceu as posturas que perduram até hoje. Sobre a Facis, Maria Angela revela que há mais de dez anos a escola concebe a educação não apenas como um processo de formação, mas como um importante veículo de interação social. Com isso, possibilita a participação plena e crítica das pessoas na sociedade. “A ênfase de seus cursos consiste numa concepção de saúde integrativa e preventiva visando a qualidade de vida.” A maioria dos professores da pós-graduação é aluno da SBTCC.

“Eles têm praticado conosco por muitos anos e possuem mestrado em suas especialidades. A professora responsável pela introdução à Medicina Tradicional Chinesa, por exemplo, tem mestrado em acupuntura e é médica também. Ela pratica tai chi chuan há muito tempo e pode relacionar a arte marcial com a acupuntura de forma muito clara,” explica Maria Angela. De acordo com as regras do Ministério da Educação, um curso de pós-graduação deve ter mais da metade do corpo docente com nível de mestrado. A maioria dos professores tem essa graduação, especialmente os que vão se dedicar ao ensino da área científica.

Com 450 horas de aula e duração de 18 meses, o programa possui três itens principais: história e filosofia, em que são ensinadas introdução à história da China, Taoísmo, Budismo, Confucionismo e I Ching, história do tai chi chuan e características do estilo Yang tradicional, psicologia e tai chi chuan, além de ética profissional. Na área científica, apresenta introdução à medicina tradicional chinesa, anatomia e fisiologia aplicadas ao tai chi chuan, cinesiologia e biomecânica aplicadas ao tai chi chuan e metodologia da pesquisa científica. Na área técnica, o aluno aprende Chi Kung desenvolvido pela SBTCC, a forma tradicional do estilo Yang com 108 movimentos, explicação específica da aplicação dos movimentos e a forma terapêutica das 13 posturas.

“É interessante, pois quando você tem pós-graduação numa especialidade é possível dar aulas em universidades. Pode, por exemplo, oferecer seus conhecimentos de tai chi numa faculdade de psicologia num curso de 100 horas. Nosso sonho é ter o tai chi em todas as universidades e, depois, escolas de segundo grau e até mesmo no jardim de infância para que possamos melhorar a saúde de todos,” avalia a professora.

Maria Angela explica que o tai chi chuan é uma arte milenar. Tem na sua origem uma arte marcial de grande excelência; enquanto em seu corpo de conhecimento estão inseridos itens de importância para os dias de hoje. Segundo ela, a formação de um guerreiro no passado, exigia grandes esforços, competência, estudo, sacrifícios e muita prática. Ele tinha que ser saudável, equilibrado e disposto a enfrentar mudanças, além de cultivar a integridade, a ética e os princípios elevados.

O candidato a guerreiro também tinha que ter por princípio ajudar os fracos e os enfermos, lutar por uma sociedade mais justa e sobretudo preservar a vida. Desta forma, segundo a professora, a aplicação desta arte milenar e seus princípios se fazem extremamente necessários em todas as áreas do saber humano. “Por tudo isso, é possível afirmar que os especialistas em tai chi chuan têm um campo infinito de atuação no mundo moderno,” finaliza.

Sociedade Brasileira de Tai Chi Chuan
e-mail sbtcc@dialdata.com.br
site www.sbtcc.org.br
Tel: (11) 3884-8943
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