Há gente que bebe cerveja, em excesso, e há muitos que em busca de um novo hobby estão produzindo a sua para consumo próprio
Uma garrafa de cerveja de trigo foi a senha para que Eduardo Passarelli, 31 anos, morador em São Paulo, descobrisse o fascinante mundo das cervejas e uma nova profissão, cervejólogo. Embora a denominação não tenha sido agregada ao dicionário, ela se refere ao especialista no estudo de cervejas, que surgiu junto com o crescente movimento das cervejas especiais. Ele fala como tudo começou: “Foi há oito anos. Um amigo me presenteou com uma cerveja de trigo. Fiquei fascinado com o novo sabor, e fui em busca de mais informações sobre as cervejas. Até esse momento eu acreditava que sabia tudo sobre o assunto, e que bebia a melhor cerveja do mundo. Quando comecei a ver a quantidade de informação sobre o tema, percebi que não sabia nada”, comenta.
Passarelli começou a produzir a bebida há pouco mais de um ano e ajudou a fundar a Associação dos Cervejeiros Artesanais Paulistas. Uma cerveja de qualidade necessita de matéria-prima de boa qualidade, técnica e higiene na produção e uma boa receita. O processo de degustação é semelhante ao do vinho. São analisados a aparência, o aroma e o paladar. Quem acredita que a cerveja artesanal e a industrializada são iguais, tem uma visão reducionista sobre o tema, segundo o cervejólogo. “As cervejas artesanais apresentam muito mais sabor e frescor. Porém, artesanal não é sinônimo de qualidade, pois temos alguns exemplos de cervejas artesanais que não são boas.”
Para evitar a ocorrência de “joio” no meio do malte, os produtores têm se reunindo em associações com o propósito de ampliarem os seus conhecimentos e, claro, melhorarem suas produções. “No Brasil temos a ACervA, que é a Associação de Cervejeiros Artesanais. Ela surgiu primeiro no Rio de Janeiro, depois foi criada em São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Está em andamento também a criação das ACervAs do Paraná e Espírito Santo. As associações promovem cursos, encontros de cervejeiros, compras coletivas de matéria-prima e incentivam e promovem a cultura cervejeira. Estamos no caminho Em inglês, cervejeiro caseiro é conhecido como homebrewer. Passarelli revela que a cultura de fazer a bebida em casa existe há bastante tempo, mas não era muito difundida. “O Orkut permitiu que diversos cervejeiros de várias localidades do País se conhecessem, e a partir daí, esta prática se difundiu mais.” De acordo com o cervejólogo, as pessoas ainda não entendem como uma cerveja pode ser preparada em casa, outras duvidam, mas a maioria gosta do sabor. “Esta é uma das portas para o desenvolvimento do paladar brasileiro para as boas cervejas. Hoje, o Brasil produz cervejas de grande qualidade. Temos microcervejarias conquistando prêmios importantes mundo afora. A lista é grande. Por exemplo, no Rio Grande do Sul, Schmitt e a Abadessae; em Santa Catarina, a Eisenbahn; em Minas Gerais, a Falke Bier; em Ribeirão Preto (SP), a Colorado.”
Em família Entre os cervejeiros artesanais, o advogado Leonardo Botto, 30 anos, da ACervA Carioca, é o que mais conquistou prêmios no Brasil. Ricardo Rosa, da mesma associação, sagrou-se campeão em um concurso em Indiana, nos Estados Unidos. “A competitividade lá fora aumenta muito, devido à quantidade de cervejeiros e cervejas participantes. Embora tenhamos excelentes cervejas e cervejeiros por aqui, ainda somos poucos, por vários motivos, principalmente pela falta de uma cultura cervejeira e empresas fornecedoras de equipamentos e insumos voltados ao cervejeiro artesanal caseiro”, relata Botto.
O advogado começou a fazer cerveja em casa há cerca de três anos, mas, segundo ele, a vontade é antiga. “Minha bisavó, na década de 1960, já fazia cerveja no Rio de Janeiro. Na época, os insumos eram enviados para ela de São Leopoldo, Rio Grande do Sul”, diz. Talvez isso explique porque os seus amigos e familiares apoiaram a sua decisão. “São os ávidos destinatários. Minha mãe e tias adoram, pois remontam um pouco ao passado, quando viam a avó delas fazendo. Minha esposa também faz cerveja junto comigo, compartilha do gosto. E meus amigos só ficam chateados porque faço menos do que eles gostariam, ansiosos que são por disporem de Botto Bier em todas as celebrações e festividades”, brinca.
Na “empresa” de Botto, são produzidos cerca de 50 litros mensais, destinados a familiares, amigos e a confraternizações. Os materiais necessários são: duas panelas de 36 litros cada, um termômetro alimentício, uma colher de pau, um moedor de cereais, um fundo falso (pode ser uma forma de pizza no formato da panela, no mesmo diâmetro, toda furada, formando uma espécie de peneira), 10 metros de tubo de cobre (para fazer um chiller, serpentina trocadora de calor), um decímetro, uma proveta, um balde de plástico atóxico, alimentício de 24 litros (para fermentação), e uma máquina de colocar tampinhas, para o envase. “O material é encontrado em qualquer cidade e custa cerca de 700 reais”, calcula.
O volume de produção é de 20 litros por leva. O processo dura em média 8 horas, da moagem até a inoculação do fermento. Após, inicia-se a fermentação, que durará de 5 a 10 dias, depois, passará à fase de maturação, que varia de cerveja para cerveja, antes do envase. De acordo com o advogado, toda cerveja deve ser armazenada de pé, em local seco e fresco. A validade depende da sua estrutura, do corpo, do teor alcoólico. Quanto melhor estruturada, maior é o corpo, o teor alcoólico e a validade. Bem conservadas, podem durar anos.
Longe dos rótulos A procura pelo aperfeiçoamento é intensa. “Queremos sempre melhorar, e para isso, na maioria das vezes, contamos com a opinião de amigos com mais experiência. Não é raro uma característica passar despercebida por um ou outro, sendo cada um de nós mais suscetíveis a determinados atributos sensoriais. Para os cervejeiros, o Santo Graal é a cerveja perfeita”, declara Botto. Ele diz que não há duas cervejas iguais no mundo. Por maior que seja o aparato tecnológico, ela é diferente a cada nova leva “O grande diferencial da cerveja artesanal da industrial, é que ela é mais livre, não se prende tanto a aspectos mercadológicos. É feita com ingredientes selecionados e de acordo com a vontade do cervejeiro”, define.
Na opinião do advogado cervejeiro, a “descoberta” do universo das cervejas artesanais nem sempre é fácil de ser entendido. Quem se depara com cervejas mais estruturadas, mais complexas em aroma, sabor, corpo, às vezes, estranha. “Sempre é bom que um amigo chame a atenção para os detalhes, experiências que por vezes passam despercebidas por nós. Precisamos nos aculturar no quesito cerveja, ultrapassando falsos conceitos instituídos pela indústria. Mas 99% das pessoas que descobrem este universo vê que a bebida é muito mais do que os poucos estilos explorados pela macroindústria. Não querem saber de outra coisa se não intensificar as buscas por novos sabores e novos rótulos, aprimorando-se cada vez mais.”
Como é de se imaginar, bebericar uma cerveja artesanal exige o desembolso de mais reais. Os preços são de acordo com os estilos e insumos utilizados, variam de R$ 3,00 (long neck) até R$ 50,00 (garrafa arrolhada de 750 ml). Elas são mais caras por causa da qualidade dos produtos, muitos são importados. “Quase todas as cervejas das microscervejarias são puro malte. Utilizam apenas maltes de cevada ou trigo, enquanto nas industriais é comum o uso de milho ou arroz, cereais muito mais baratos que a cevada. Sem falar que a carga tributária é igual, tanto para mega servejaria, que produz e vende milhões de hectolitros, quanto para a micro, que produz mil litros”, encerra Botto.
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