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Saúde


Não se fie muito nos rótulos das embalagens do tipo “não contém colesterol”. A maior parte dessa substância (também útil) é produzida em nosso próprio organismo

Mal necessário


Eu tenho, ele tem, nós temos, todas as pessoas têm. O que a maioria desconhece, entretanto, é o papel real do colesterol que corre por nossas artérias e veias, com a função imprescindível de manter a saúde do organismo. Outro fator nada desprezível, tachado de vilão e causador de muitas doenças cardio­vasculares que acometem os amantes das feijoadas, dos torres­minhos, dos nacos de gordura das carnes vermelhas, ele é absolutamente necessário na produção dos hor­mônios sexuais, os andrógenos (masculinos) e os estró­genos (femininos). Em outras palavras, desempenha papel biológico importante, ao contribuir na reprodução da espécie humana. Sem falar da importância na recuperação das membranas que envolvem as células; na composição do ácido biliar que regula a digestão dos alimentos; e na síntese da vitamina D, responsável pela recons­tituição do tecido ósseo do corpo humano.

Originário do grego, o termo colesterol significa “cálcu­lo biliar”. A explicação está no fato de ser o principal componente destes cálculos. “Foi batizado pelo químico francês Michel Eugene Chevreul, em 1815. Ele denominou a substância, ‘coles­terine’, mas um colega de profissão também francês, Pierre Berthelot, descobriu que o colesterol era um álcool e acrescentou o sufixo ‘OL’ à pala­vra”, explica a professora na área de Nutrição Humana da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/USP), Jocelem Mastroldi Salgado. Está no livro Previna doenças. Faça do alimento o seu medicamento, Editora Madras, da sua autoria.

Já o cardiologista e nutrólogo do Hospital do Coração (Hcor), Daniel Magnoni, tenta ser o mais didático pos­sível na sua explicação. “O coles­terol é um álcool produzido no organismo. Cerca de 80% de sua reserva orgânica se dá por produção endó­gena, ou seja, origina­do pelo próprio organismo; e 20% é proveniente da alimenta­ção.” Ele acrescenta que, por ser uma fonte energética, o coles­terol está relacionado com a atividade das células. Pode se ligar às proteínas e se chamar ‘co­les­terol bom’, em inglês, High Density Lipo­protein (HDL), e ‘colesterol ruim’ ou Low Den­sity Lipoprotein (LDL). O ‘colesterol bom’ diminui o risco de desenvolver doença cardio­vascular; en­quanto o ‘colesterol ruim’ está relacionado à origem dela.”

Segundo Ed­mar Santos, car­dio­­logista da Sociedade Brasileira de Cardio­logia (SBS), o coles­terol, em níveis muito acima do normal, pode oxi­dar. “Quando oxidado e associado aos radicais livres, ele adere às paredes arteriais e pode levar ao derrame, enfarto do miocárdio e ateros­clerose.” O colesterol está subdividido em três frações: HDL, LDL e VLDL (Very Low Density Lipoprotein), que é uma combinação dos dois anteriores. Diferem conforme a sua densidade e tamanho. Quanto maior o tamanho, menor a densidade. “O LDL tem uma densidade baixa e tamanho grande. O VLDL também é ruim. É uma fração do colesterol maior ainda que o LDL, e mantém uma relação forte com os triglicérides que são outro tipo de gordura”, compara.

A partir desses dados, quando há o desequilíbrio na produção têm início os problemas e os riscos de desenvolver doenças cardiovasculares, atualmente, a principal causa de morte em homens e mulheres no País. Essas alterações na fase inicial são silenciosas, não causam sintomas. “Quando as alterações (lesões) aumentam, provocam a angina, cujo principal sintoma é dor intensa no peito”, relata o cardiologista.

Estilo de vida
Como a maior parte do coles­terol é resultante da produção en­dógena, não é correto atribuir as alterações de seus níveis à alimentação ou ao estilo de vida da pessoa. “A obediência a uma dieta correta, por mui­to tempo, consegue reduzir o colesterol total e o LDL em no máximo 20% do seu índice”, afirma Santos. O mesmo não ocorre com o sedenta­rismo, segundo ele, que em combinação com outros fatores, como consumo de gordura saturada, fumo, estresse e obesidade, contribui para o aumento do LDL. A atividade física consegue aumentar de 10% a 15% do HDL, principalmente, se for associada ao consumo de azeite de oliva, soja, frutas e verduras.

Apesar dessa orientação, o nu­trólogo Magnoni conta que é freqüente a necessidade de medicamento. “Quan­do o paciente apresenta níveis de colesterol de 300, mesmo baixando 20%, o que chegaria a 240, só a dieta não resolve. É necessário mudança no estilo de vida consorciada com medicamentos”, sugere. Para o sucesso do tratamento, alimentos ricos em gordura saturada devem ser substituídos por outros, como a soja. Edmar Santos avisa que a pessoa não deve se limitar apenas ao remédio e exceder na alimentação. Assim, ela estará sujeita a usar doses maiores de medicação e correr riscos de efeitos colaterais.

Quando o nível de HDL está baixo, o organismo pode sofrer outras implicações. Cabe ao HDL a varredura do LDL, lembra o cardiologista da SBC. “O ideal é que o HDL esteja acima do nível do LDL e do VLDL.” Níveis altos de colesterol, além de contribuir para o aumento dos riscos de desenvolver doenças cerebro­vasculares e car­diovasculares, causam acúmulo de gordura no fígado, chamado de esteatose hepática. “É comum observarmos isso na ultra-sonografia abdominal das pessoas que têm colesterol elevado”, constata Santos

Segundo o médico-biomolecular Douglas Carignani Jr., titular da Associação Brasileira de Nutrologia, o mau funcionamento da tireóide também altera os níveis. “O hipoti­roidismo subclínico, que é a tireóide funcionando pouco, diminui o metabolismo e aumenta o colesterol. Não há queixa evidente do paciente. Isso é constatado somente por meio de exames.”

“É importante aumentar a ingestão de ácido graxo, encontrado, por exemplo, no azeite de oliva, no óleo de canola. A castanha-do-pará também é rica em ômega 3, 6 e 9” (Carignani Jr.)

Alimentação
A investigação da dislipidemia (alterações dos níveis das gorduras no sangue) tem se tornado nos últimos anos uma prática cada vez mais precoce. Ela pode se manifestar em adolescentes e até em crianças. “Quando a pessoa tem antecedentes familiares – parentes que morreram de doenças endovasculares ou antecedentes pessoais fortes, como obesidade, sedentarismo e hábitos alimentares inadequados – é ideal checar o mais precocemente possível”, revela Magnoni. Caso ela não apresente fatores de risco, a partir dos 30 anos, é aconselhável avaliar periodicamente os níveis de colesterol.

Carignani Jr. alerta sobre o consumo de gorduras, abundantes nas carnes bovina e suína e nos laticínios (manteiga, queijo e leite). Ele dispensa o leite e seus derivados por causa da sua proteína, a lactose. E indica, para quem pertence ao grupo de risco, uma alimentação saudável, com carnes magras, verduras e legumes, evitando carboidratos. Elas ajudam a impedir a absorção do colesterol. “É importante aumentar a ingestão de ácido graxo, encontrado, por exemplo, no azeite de oliva, no óleo de canola. A castanha-do-pará também é rica em ômega 3, 6 e 9.”

Os especialistas são unânimes a respeito da necessidade de reduzir ou substituir a carne vermelha. “A princípio, o homem precisa consumi-la porque é uma boa fonte de ferro e vitamina B. Mas a limitação fica em torno de 120 gramas por dia”, cita Magnoni. Para Carignani Jr., ela é suficiente três vezes por semana.

Edmar Santos, por sua vez, sugere carnes brancas, com moderação. “Os peixes estão intoxicados com mercúrio, por isso, não se pode abusar.” Já o consumo de flavo­nóide, encontrado no vinho, na casca da uva e em frutas vermelhas, além de grãos e vegetais, para ele, é positivo. “O fundamental é combinar uma die­ta saudável, a hábitos de vida saudáveis”, conclui. (M.A.).
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