O legado da cultura indígena pode ser encontrado em cada rua, em cada bairro ou quintal das cidades brasileiras
Sobrevivem pouco mais de 400 mil índios, dos milhões que viviam no Brasil à época da chegada dos portugueses. Longe dos grandes centros (uma vantagem deles, evidentemente) são lembrados apenas em nomes de frutas, animais e logradouros. Butantã, Sumaré, Maracanã, Ibirapuera, Itaberaba, Ipojuca; bexiga, goiaba, mandioca, pipoca, jacaré, piranha, sabiá e tanajura são algumas entre as milhares de referências dessa cultura ainda viva, mesmo contra a vontade de muitos. Ninguém tem a obrigação de saber exatamente o que esses termos significam, mas aos curiosos, a pesquisadora paulistana Vera Lúcia Dias preparou o livro O Tupi em São Paulo, Vocabulário de Nomes Tupis nos Bairros Paulistanos, publicado pela Editora Plêiade.
“Eu trabalho com turismo há 15 anos e faço receptivo em São Paulo há 10. Durante esse tempo, constatei que o público em geral, inclusive o morador da cidade, desconhecia o lugar onde vive. Invariavelmente, as pessoas me perguntavam se eu sabia o significado do nome de uma rua, fruta, bairro; nem sempre eu sabia de imediato. Pesquisava e depois encaminhava uma mensagem”, diz a pesquisadora. Para chegar ao significado das palavras, cujos sons ouvimos na cidade, ela pesquisou em livros, dicionários e consultou representantes dos povos Guarani. “É um tema de difícil pesquisa, já que existem divergências entre autores, tradutores e interpretações de palavras, ora Tupi, ora Guarani, ora as mudanças dos falantes.”
Vera ensina que existem quatro troncos lingüísticos conhecidos: Tupi, Jê, Aruaque e Caribe. O primeiro é falado na costa brasileira e regiões Sul e Sudeste; o Jê, na região central; o Aruaque, no Centro-Oeste e Norte; e o Caribe, ao Norte. O Tupi, que predominou durante muito tempo no litoral brasileiro e Região Sudeste, inclusive entre os primeiros paulistanos, ramifica-se também pelo Guarani. Segundo ela, o Guarani falado hoje tem diferença do Tupi antigo. Para o professor Eduardo de Almeida Navarro, da Universidade de São Paulo (USP), há diferenças nos sons, por exemplo, a palavra “kûarasy”, significa sol em tupi. No Guarani, a pronúncia é “kûarahy”.
Peixe seco Nem sempre as denominações de ruas e bairros têm relação direta com o fato ou coisa; elas podem ser homenagens a lugares de origem dos migrantes àquela região. Por isso existem termos de São Paulo em outras regiões do Brasil. “Pode ser também fruto da mesma forma de falar dos povos indígenas com vida nômade”, acrescenta a pesquisadora. Durante a elaboração do trabalho, que durou cinco anos, ela constatou que o tema já foi estudado no passado por figuras ilustres, como D. Pedro II, José Bonifácio e Teodoro Sampaio.
Vera descobriu, por exemplo, que até meados do século 18, em São Paulo e arredores, só se falava em tupi ou sua variação, o nheengatu. “Para falar do surgimento de São Paulo, é necessário falar da presença dos guaranis. São Paulo chamava-se Piratininga, que significa peixe seco. Os índios habitavam a parte alta e, à medida que a água baixava, formavam-se lagoas e os peixes secavam com o sol.” O costume indígena de nomear montanhas, rios e localidades foi detectado pelo engenheiro Teodoro Sampaio, quando mapeou a cidade pela primeira vez.
Hoje, os nomes de boa parte dos 2 mil microbairros paulistanos ou são de origem indígena ou portuguesa, em geral, ligados à religião. Daí, nomes como Santo Amaro, Sé, Freguesia do Ó, Penha e Santana. O assunto tem tanta abrangência que, na opinião da pesquisadora, deveria fazer parte do currículo escolar. Ela revela que algumas palavras lhe causaram surpresa, por exemplo, Sacomã e Nhocuné. “Acreditava que eram de origem indígena, mas Sacomã é derivado do sobrenome de uma família francesa, que povoou inicialmente o bairro da zona sudeste paulistana. Já Nhocuné é uma contração da expressão ‘sinhô coroné’, usada pelos escravos para se referir ao coronel Christalino Luiz da Silva, dono das terras na Zona Leste.
Com seu livro, a autora espera dar continuidade e inspirar outras obras do gênero. “Por exemplo, é necessário que alguém faça um levantamento sobre nomes dos rios e riachos da cidade. Não há placas que sinalizam onde se localiza o Rio Tamanduateí e o que a palavra significa. Estamos de costas para ele, inclusive, para os que já foram canalizados, como o Saracura, que corre abaixo da Avenida 9 de Julho e o Itororó, localizado também abaixo da Avenida 23 de Maio. Com isso, infelizmente, parte da memória da cidade está esquecida”, finaliza.
Abacaxi – “ibá-kating” (fruta) fruta com cheiro forte.
Termos mais comuns
Açaí ou assai – fruta da palmeira
Batuira – ou Batuvira, “m’ba-tuira”, o cinzento
Bexiga – mbaé (coisa) mais tica (líquido, do suor)
Butantã – “yby tãtã”, terra dura
Capivara – “capyi”, erva ou capim e “guará”, o que come; comedor de capim
Gambá – “gya-mbá”, raposa ventre aberto, barriga oca para filhotes
Goiaba – “acoyaba”, o agregado de caroços
Guaicurus – “guaicuru”, tribo, índios, cavaleiros, “guay curu”, o sarnento
Ibirapuera – “ybi-rá-puera”, mata em extinção, que foi mata, pau-podre
Itaberaba – “Ita-beraba”, pedra brilhante
Ipojuca – “yapo-yuca”, o riacho, o brejo
Itaim – “ytaim” ou “itá-im”, pedregulho, pedra pequena