Folclore I


Quem nos deu esta ciranda foi Lia, que mora na Ilha de Itamaracá, e continua divulgando esse ritmo não só no Brasil, mas em todo o mundo
Texto: Celso Sávio
Fotos: José Augusto Cíndio

Vamos todos cirandar


São 6h30 da manhã. Uma negra alta, esbelta, chegando quase aos 2 metros, passa pelo portão da Escola Estadual de Jaguaribe, na Ilha de Itamaracá (Grande Recife/PE), e se dirige à cozinha. Todos os dias, há 25 anos, essa é a rotina matinal da merendeira Maria Madalena Correia do Nascimento, a menos que ela esteja viajando pela Europa - França, Portugal, Itália, Espanha e outros países. À noite, invariavelmente, ela é encontrada na beira da praia cantando e dançando ciranda. Eu estava na beira da praia/Ouvindo as pancadas das ondas do mar.../Esta ciranda quem me deu foi Lia/Que mora na Ilha de Itamaracá...

Maria Madalena Correia do Nascimento, em um palco ou no chão de terra, transforma-se em Lia de Itamaracá. Descendente de congoleses, segundo afirma, ela dá um balanço todo especial à ciranda, uma dança de roda que aprendemos nos primeiros anos da escola. Sua música e entusiasmo envolvem a todos. A compositora e violonista Teca Calazans que o diga. Certo final de tarde, ela estava na praia de Itamaracá, observando o mar, quando ouviu uma jovem de corpo escultural cantarolando uma ciranda. Daí os versos acima que se tornaram de conhecimento de todo o Brasil e Europa.

É natural da ilha mesmo esta Lia, que, desde os 12 anos, pisava na areia branca de Itamaracá entoando suas cirandas e sonhando em um dia ser cirandeira. Aos 18, começou a viajar "pelo Brasil e o mundo", com músicas de Baracho, o cirandeiro que ela mais admira. Hoje, ao chegar à escola depara-se com a inscrição: "Pra se dançar ciranda, juntamos mão com mão, formando uma roda, cantando uma canção", numa homenagem à mais popular artista da ilha.

Enquanto prepara a merenda para 200 crianças, Lia de Itamaracá cantarola não muito alto para não atrapalhar as aulas. Mão na massa de um bolo ou cortando salsicha para o lanche, ela raramente sorri. É muito séria, porém, tem a docilidade de uma criança. Em seu local de trabalho, a roupa é comum; no palco, entretanto, ela se transforma na cirandeira reverenciada por muitos músicos e intérpretes. Caetano, Gil e até Chico Anísio já cantaram a ciranda feita em sua homenagem.

Se antes se apresentava em bares da orla de Itamaracá, agora, "depois de muito esforço e sacrifício", ela pode mostrar sua arte em seu próprio espaço. Uma cabana aberta ao público, cimentada para as rodas de ciranda. O local, onde apenas o consumo é pago, é aberto também para outros grupos musicais e folclóricos. Nos fins de semana, à noite, famílias inteiras se reúnem ali para, de mãos dadas, um passo para frente e dois para trás, se divertirem até o amanhecer.

Quem sobe ao palco primeiro é Célia do Coco, de Olinda, e as duas filhas de Baracho, de Paratibe, convidadas quase permanentes. Enquanto o show de Lia de Itamaracá não começa, sua cunhada e sócia no bar se esmera no atendimento dos clientes. Quando a cirandeira sobe, trajando um multicolorido vestido de chita e alguns colares, o público pára. Segundos depois, o salão está lotado de cirandeiros. É a Ciranda da Lia de Itamaracá.

Ciranda do Paulinho

Além do cirandeiro Baracho e outros compositores, um sambista, expoente da Música Popular brasileira, também homenageou Lia de Itamaracá. Paulinho da Viola, ao conhecer a obra dela, abriu mão de suas letras mais tradicionais e escreveu a "Ciranda de Lia":

Eu Sou Lia
Eu sou Lia da beira do mar
Morena queimada do sal e do sol
Da Ilha de Itamaracá

Quem conhece a Ilha de Itamaracá
Nas noites de lua
Prateando o mar
Eu me chamo Lia e vivo por lá

Cirandando a vida na beira do mar
Cirandando a vida na beira do mar

Vejo o firmamento, vejo o mar sem fim
E a natureza ao redor de mim

Me criei cantando
Entre o céu e o mar

Nas praias da Ilha de Itamaracá
Nas praias da Ilha de Itamaracá

Serviço
Espaço Ciranda da Lia
Bairro de Jaguaribe - Ilha de Itamaracá
Distância de Recife - 47 Km - pela BR-101,
depois PE-15
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