Psicanalista retrata em livro 67 seres imaginários do rico folclore brasileiro, fala da nossa obsessão por personagens alienígenas e traz à tona o saudável hábito de contar histórias
Texto: Margarete Azevedo
Haja imaginação!
Foi-se o tempo em que as famílias, após o jantar, continuavam à mesa ou mesmo ao redor do fogão de lenha para conversar. Falavam de tudo, inclusive, de histórias de fantasmas e assombração, além daqueles mitos que, desde o Brasil-Colônia, povoam o imaginário popular. Alguns deles, como o Saci-Pererê, a Cuca ou a Mula-Sem-Cabeça, ganharam vida na imaginação fértil do caboclo e se tornaram íntimos dos moradores da cidade nas obras de Monteiro Lobato. Naqueles instantes pós-refeição, os participantes se esmeravam em contar, cada um, o "causo" mais cabeludo, que tinha como cenário a floresta e como ingredientes a fantasia e os medos de uma dada realidade. Sobrava para as crianças que, embora excitadas, à espreita, iam para a cama imaginando os perfis desses monstros que ora botavam medo, ora encantavam.
Situações como essas demonstram claramente como é passada a tradição oral que, infelizmente, perdeu força com o advento da televisão. Mas, de outro lado, existem pessoas preocupadas em manter essa tradição, ao mesmo tempo em que procuram mostrar aos brasileiros que nosso mítico é variado e rico, com sínteses muito interessantes. Caso do psicanalista e folclorista amador, Mário Corso, que escreveu o livro Monstruário - Inventário de entidades imaginárias e mitos brasileiros, publicado pela Tomo Editorial. A obra ganhadora do prêmio Jabuti reúne 67 seres imaginários que povoaram a cabeça de nossos antepassados. Eles estão esquecidos, desprestigiados e muitos deles nem sequer são conhecidos.
O fato de o "Brasil não conhecer o Brasil", como dizia Tom Jobim, e saber, muitas vezes, mais da cultura de outros países que do nosso foi um dos motivos que levaram Corso a desenvolver esse trabalho. "O que nos faz ser brasileiros é algo que está em permanente construção. Nossos mitos fazem parte da nossa identidade nacional e reforçá-los é uma aposta em nós mesmos. Nada contra os Elfos, mas eu acredito mais no Saci", argumenta o autor. Ele acentua a força de histórias que são paramíticas e que fazem sucesso no mercado da ficção, como "O Senhor dos Anéis", de J. J. R. Tolkien; "Guerra nas Estrelas", de George Lucas; ou ainda "Harry Potter", de J.K. Rowlling, que também faz o leitor mergulhar num passado de lendas européias.
"Eles são consumidos porque precisamos de heróis, lendas e epopéias. Se não oferecermos aos jovens mitos autênticos, eles vão consumir versões ficcionais que recriam essa atmosfera mágica. Minha intenção é colaborar no processo de trazer à tona nossos mitos e mostrar que eles são tão interessantes como os de qualquer outra mitologia. Nada contra essas pseudomitologias, pois elas cumprem seu papel de nos ajudar a fantasiar", analisa.
Extraterrestres O psicanalista explica que a dificuldade na idealização de uma criatura imaginária está em acertar o ponto do personagem necessário àquela época, e também que as pessoas reconheçam que ele tem algo a dizer. Cita como exemplo Frankenstein, romance da autora inglesa Mary Shelley, "que nunca fez sucesso", mas que acertou o ponto. Transformou-se no mito do homem criado, não mais pelos deuses, mas pela ciência. "Nunca mais o esqueceremos, pois continuamos querendo imitar os deuses e fazer vida a partir do nada. É por isso que clones e transgênicos, além das questões éticas e científicas, causam tanto impacto, em função de que miticamente nos sentimos entrando no território dos deuses, interferindo na criação", afirma Corso.
Mesmo com essa dificuldade em conceber "mitos", o folclorista diz que sempre existirá a intenção de produzi-los, embora muitos só venham a ser compreendidos como tal depois de um tempo. "Provavelmente, no futuro, nossos descendentes vão achar graça de que nós imaginávamos os extraterrestres como seres verdes que vinham do espaço para nos espiar." Outro exemplo é o serial killer, que faz tanto sucesso em filmes. Antes do mito, o personagem é uma realidade clínica, que nos ajuda a entender o mal e o desejo de morte entre os seres humanos. "Existem assassinos em série, mas eles não são nada semelhantes aos dos romances e filmes. Esse super-herói do mal é um mito contemporâneo criado pela literatura", define.
Apesar de o folclore brasileiro ser muito rico, há interesse dos brasileiros por personagens, lendas ou histórias de outros países. Corso observa que o público geralmente não questiona a nacionalidade do mito. Segundo ele, o folclore brasileiro é subaproveitado pelos nossos escritores. "Creio que nos faz falta hoje um Monteiro Lobato, que tanto ajudou a manter vivas várias criaturas do folclore brasileiro e permitiu também que elas interagissem com a cultura de seu tempo."
Cultura oral Durante o processo de pesquisa para escrever seu livro, o autor constatou que são poucos os que se dedicam à investigação folclórica brasileira na atualidade. "Os bons trabalhos, embora magistrais, estão um pouco envelhecidos." Existe uma característica comum entre os 67 seres imaginários de sua obra. Barba-Ruiva, Boitatá, Boto, Bicho-do-Mato, Caipora, Iara, Lobisomem, Tupã, Velho-do-Saco e Zumbi. Corso comenta que, além de haver variações sobre um mesmo ser, eles apresentam uma certa indefinição de contornos. "Precisamos lembrar que estamos no território da cultura oral e não há uma fonte estabelecida. Por exemplo, podemos tanto considerar o personagem denominado Pé-de-Garrafa como uma espécie de Saci maior e malévolo, como poderíamos pensar nele apenas como uma versão do Berrador. Existem variantes regionais que se encaixam entre essas classificações. Às vezes, quando um folclorista ou um escritor nomeia e descreve um personagem, ele ajuda a fixar sua existência em uma determinada forma", explica o pesquisador.
No livro há também entidades imaginárias dos dias de hoje, como o Chupa-Cabra. Supõe-se que ele deva ter nascido na década de 1970 e não possua nenhuma ligação com o nosso passado remoto. Ao contrário, surgiu quase como uma epidemia, após suas aparições, primeiro na América Central, depois no interior do Brasil, especialmente em São Paulo. Destaca-se, porém, que o Brasil-Colônia também teve o seu "Chupa-Cabra" na figura do Capelobo, de raízes indígenas.
Corso diz que as histórias e lendas com conteúdo moral que tinham a finalidade de educar as crianças eram empregadas também na conduta dos adultos. Mas, na verdade, elas são ferramentas da cultura para relançar questões, ou seja, são boas para fazer pensar. "É difícil falar a uma criança pequena sobre um possível abuso que ela possa vir a sofrer por parte de um adulto - ela sempre vê todos os adultos como cuidadores. Mas se contarmos a história de Chapeuzinho Vermelho estaremos subliminarmente falando disso."
O mito é uma forma de pensar, um método, um elemento que faz gerar significações. "Quando não temos resposta para uma questão, ele entra para improvisar uma que, embora falsa do ponto de vista científico, é a possível verdade naquele momento." Segundo o psicanalista, como nunca vamos ter respostas para todas as questões, o pensamento mítico não tem um fim. "O ser humano não tolera a falta de respostas e se lhe falta uma, inventa", finaliza.
Hora do pesadelo
Eles chegaram mesmo para arrepiar. Zumbi, Capelobo, Jurupari, Alma de Gato e Tutu são alguns dos monstros da cultura popular brasileira que declararam guerra às criaturas importadas, como Freddy Krueger, vampiros e dragões, e estão ameaçando seus empregos. Esse é o divertido enredo do livro O mais assustador do folclore: monstros da mitologia brasileira, de autoria de Luciana Garcia, lançado pela Editora Caramelo. Só que eles, acostumados a assustar em carreira-solo, cometem um monte de estripulias em grupo. Para ajudá-los, surge o Negrinho do Pastoreio, que instala uma CPPI (Chamada Particular Para Investigação) e convida os leitores a deslindar o mistério. As ilustrações (belíssimas, por sinal) são de Roger Cruz, coloridas pela artista plástica Bruna Brito. Mais detalhes só mesmo no livro que está chegando a todas as livrarias...
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