A pergunta "Mamãe de onde eu vim?" é cada vez mais rara nos dias de hoje, quando as crianças, aparentemente, "já nascem sabendo". Ainda assim, é comum os pais apelarem para cegonhas, estrelinhas e outros absurdos
Texto: Margarete Azevedo
Cá entre nós
É fato sabido que a modernidade não acoplou a sexualidade entre seus itens de série, por isso falar do assunto nos dias de hoje ainda traz temor aos adultos, mesmo aos educadores. Um dos temas transversais propostos nos Parâmetros Curriculares Nacionais elaborados pelo Ministério da Educação e Cultura (PCNs/MEC), a questão ainda gera polêmica, uma vez que pais e professores têm o mesmo julgamento moral, como revela a educadora sexual Maria Helena Vilela, diretora do Instituto Kaplan. "Além do temor, existe a ignorância, o medo de falar e de ser mal interpretado, de ser julgado inadequadamente, de achar que antecipa as coisas nessa conversa com o filho ou com o aluno." Sobre os PCNs, a educadora comenta que o problema não se resolve apenas com o professor
falando sobre sexo em sala de aula. "Esse profissional precisa estar preparado para isso, deve fazer um curso de capacitação e entender o que é orientação sexual, como ela é feita e seus objetivos", menciona. É comum as pessoas terem uma visão reducionista sobre o assunto, ou seja, acreditarem que a educação sexual deva se limitar à pre-venção de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs), Aids e gravidez na adolescência.
"Essa visão mostra o grau de dificuldade e vergonha em falar de bem-estar, prazer etc. O sexo na ótica biológica visa entender os aspectos reprodutivos. Os conflitos, os itinerários cheios de ciladas que compõem, às vezes, a vida amorosa, as separações, a infidelidade e formas de prazer na vida a dois nem sempre são tratados com transparência e liberdade", discorre o psicoterapeuta Moacir Costa, coordenador do Projeto Amar Bem, autor de vários livros na área da sexualidade, entre eles As Crianças querem saber... e agora?
Valores e conceitos Costa lembra que a criança, tratada desde o seu nascimento com zelo e carinho, recebe uma educação que se reflete na sua auto-estima e no respeito pelo próximo. "A família, desde cedo, bem ou mal, estará sempre passando mensagens que irão ajudá-la a compreender o seu crescimento afetivo e sexual." Na opinião da diretora do Instituto Kaplan, a incumbência de falar sobre o assunto para crianças e adolescentes não é apenas da escola ou da família, ou seja, a educação sexual é feita por todas as pessoas que são significativas para elas. "Quando a pessoa nasce, a família é o núcleo que passa os valores, os conceitos, as crenças e suas expectativas, mas ela não vive somente da família. Existem outros núcleos sociais, como a escola, em que o professor se torna também um modelo para os alunos", acentua.
Tanto Costa quanto Maria Helena concordam que pais não se eximem da responsabilidade que têm como educadores, mesmo quando não estão preparados. "Educam, bem ou mal, adequada ou inadequadamente, não estão fora desse papel simplesmente porque seus valores não permitem que o façam", afirma a educadora. Costa observa que os pais sofrem bastante com isso, pois estão sempre assistindo a um videoteipe da sua própria condição. A maioria não se mostra equipada para enfrentar esses desafios. Muitos ainda confundem o chamado "comportamento responsável", mais ligado ao medo e à insegurança, e tentam reforçá-lo como forma de intimidar o jovem e evitar que ele continue buscar soluções para as suas curiosidades e necessidades. Acabam exigindo um comportamento adulto, maduro, que muitos deles não conseguem visualizar.
Curiosidade De acordo com o psicoterapeuta, não existe uma idade definida para abordar o assunto. Ele deve ser discutido à medida que a criança manifesta dúvidas ou curiosidades. "Atualmente, ela desenvolve um grau de percepção e autonomia mais cedo do que antigamente. Os estímulos recebidos e o ambiente menos repressor facilitam o seu aprendizado e crescimento", analisa. Oferecer respostas absurdas e incoerentes, além de gerar fantasia, pode trazer angústia aos pais, que tendem a acreditar que contar a verdade ao filho trará conseqüências danosas.
"A criança pode até brincar por pura curiosidade ou imitação, mas não consegue transar porque não tem interesse e maturidade", comenta Maria Helena. Em contrapartida a esse modelo de pais, ela destaca aqueles que querem dar uma aula de orientação sexual, porém, se atropelam por não conseguirem lidar com a situação de forma simples. "Acham que têm que contar com detalhes, mas a criança não precisa disso porque sua linguagem é simples."
Quando a atitude dos pais é de silêncio e de poucas trocas afetivas com os filhos, dificilmente eles irão perguntar a respeito do tema. Mas os pais devem reconhecer sua timidez ou dificuldade em abordar o assunto e procurar tomar iniciativas para conversar com eles. "Os problemas, ou dúvidas, sobre sexo têm de ser tratados de forma clara, limpa, elegante, em um tom intimista e amigável. A falta de transparência ou vergonha impede o conhecimento e agrava a insegurança e o medo", recomenda Costa.
O papel da TV O excesso de estímulos recebidos pela criança irá, inevitavelmente, acarretar perdas ou queimar importantes etapas da sua infância, o que aumenta a responsabilidade dos pais e educadores. Para o psicoterapeuta, a criança de hoje é diferente da criança do passado, inclusive nos últimos anos, quando a TV contribuiu para essa mudança.
"A tecnologia cria mecanismos artificiais de forma muito excitante, com seus jogos e aparelhos eletrônicos, distanciando a criança do mundo mais natural. Enquanto isso, o contato com a realidade do mundo infantil no passado foi sempre algo mais tranqüilo e acolhedor", compara Costa. Ele explica que atualmente os pequenos "sofrem" um processo de erotização, ao contrário das gerações passadas. "A TV estimula esse processo de sensualização, à medida que mostra a nudez, e toda forma de erotização passa a ser comercialmente atraente. O risco é impedir que a criança aproveite um pouco mais o mundo infantil, carregado de fantasias e ingenuidade, e a coloquem imitando, por exemplo, as apresentadoras de TV. É um desrespeito a ela", emenda.
Como os mundos simbólicos infantil e adulto estão misturados na mídia, ao mesmo tempo em que a criança assiste a um desenho, ela pode mudar de canal e se deparar com uma cena de sexo. Embora a TV tenha desmistificado bastante o assunto, a maioria das vezes trata o tema de forma caricata e vulgar. Por isso, dependendo da faixa etária, os pais devem ter mais atenção ao tipo de programação apropriada para seus filhos.
Tomar conhecimento do problema e procurar responsabilizar alguém não adianta. Maria Helena relata que se vivemos num mundo mais erotizado é porque a nossa sociedade permite isso. Segundo ela, a sexualidade antigamente era mais restrita. Eram maneiras de controle social que existiam para garantir, por exemplo, que uma mulher casasse virgem. A ciência e os recursos científicos modificaram os conceitos sexuais e a sociedade também mudou. "Muitos pais querem que suas filhas casem virgens, mas, ao mesmo tempo, permitem que viajem sozinhas com o namorado. Consentem que saiam com os seus grupos, sem que haja um adulto junto, ou seja, favorecem um relacionamento mais íntimo", finaliza a educadora sexual.
Serviço . Instituto Kaplan
www.kaplan.org.br
(11) 5505-4434 - profissional de plantão para tirar dúvidas
. Projeto Amar Bem
0800-7706543
www.projetoamarbem.com.br
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