Que o Brasil "tem o lixo mais rico do mundo" ninguém contesta.
O que se constata, entretanto, é que se perde muito mais dinheiro pela falta de uma política adequada de reaproveitamento dos resíduos nas grandes metrópoles brasileiras
Fotos: Isabel Mojica
Cá entre nós
O descarte do lixo nas lixeiras do prédio, nos suportes apropriados em frente das casas ou, o que é mais triste, nos terrenos baldios é feito com um suspiro de alívio, que soa como "ufa, me livrei, os outros é que se virem!" O que poucos se dão conta é que ainda há um longo caminho até aquele material - resíduos orgânicos, recicláveis e até restos de mobiliário - encontrar o destino adequado. Em princípio, a coleta, o transporte, o tratamento e a destinação cabem à prefeitura dos municípios, embora já se saiba que 80% do lixo domiciliar do Brasil vá parar nos lixões das periferias. Segundo Sabetai Calderoni, economista, advogado e pesquisador do Núcleo de Pesquisas Estratégicas da Universidade de São Paulo (USP), no País inteiro existem apenas 12 aterros sanitários, dois deles na cidade de São Paulo.
Calderoni, também autor do livro Os bilhões perdidos no lixo, comenta que aterros sanitários não são o melhor destino do lixo, mas, comparados aos lixões, causam menos riscos e impactos ambientais. "O lixão não tem revestimento embaixo. Com isso, o chorume (resíduo líquido formado a partir da decomposição de matéria orgânica presente no lixo) escorre e contamina o lençol freático e os poços próximos. E o gás metano também deixa de ser aproveitado." Já a construção e a manutenção de aterros sanitários, geralmente em áreas distantes de lençóis freáticos ou fontes de água, em terrenos impermeabilizados, seguem normas específicas de engenharia. Os resíduos são depositados em camadas compactadas e cobertos com terra. Os gases, provenientes da decomposição da matéria orgânica, são coletados e queimados. O chorume é drenado e removido para tratamento adequado.
Por que a emergência? Os dois aterros sanitários em funcionamento na cidade de São Paulo são o Bandeirantes, que faz aproveitamento do gás metano; e o São João. Há anos com os dias contados, ambos continuam recebendo toneladas de lixo e operam no limite. "É como coração de mãe, só que o 'espacinho' é para cima, ou seja, é feito alteamento. Quando uma obra é realizada, há uma margem de segurança. Ela é planejada tendo em vista, por exemplo, um problema estrutural. Nos aterros, ocorre a mesma coisa, pois se trata de uma obra de engenharia. Pode subir até uma certa altura, depois não pode mais", comenta Calderoni.
São Paulo gera por dia o equivalente a um estádio do Pacaembu cheio de lixo, e isso representa em volume 10 toneladas diárias ou um quilo de lixo por habitante. Essa "mexida" na altura dos aterros é feita por meio de contratos de emergência. "É pago um valor alto porque é necessária uma solução rápida. Trata-se da coisa mais previsível do mundo. Sabe-se quanto é gerado, todos os dias, em que localidade e qual o tipo de lixo. Emergência é para uma enchente, um cataclisma, uma inundação. A solução para evitar essas medidas é implantar Centrais de Reciclagem Integral de Resíduos", opina o pesquisador.
Segundo Calderoni, o valor gasto com o lixo em São Paulo é um absurdo. Somente nos dois aterros sanitários a quantia chega a meio bilhão de reais por ano. "Nos últimos anos, os custos cresceram e o risco é de que continuem subindo." O que impede o assunto de ser discutido na agenda política, quando existe a possibilidade do município promover a reciclagem a um custo zero, é que há relação com outros interesses políticos. "As empresas que atuam com aterros sanitários têm faturamento de milhões. Se o Estado está gastando é porque alguém está recebendo. Quem gasta e quem recebe são os inimigos da idéia de acabar com esses serviços", diz o pesquisador.
Alternativas As Centrais de Reciclagem Integral de Resíduos, aludidas por Calderoni, remetem a uma série de matérias destacadas em edições anteriores - a reciclagem de lixo ganhou destaque não só no Brasil, mas em todo o mundo. A reciclagem de plástico, vidro, alumínio, ferro e papel minimiza o volume nos aterros sanitários, reduz os prejuízos ambientais e proporciona emprego e renda a muitas pessoas. Prova disso são as várias cooperativas que surgiram no País, as quais têm fomentado esse mercado. "A reciclagem é rentável economicamente. Quando eu era criança já via isso em São Paulo. As pessoas recolhiam lixo nas ruas e levavam para o chamado ferro-velho. Havia um aproveitamento de materiais. Hoje, as cooperativas permitem um ganho maior ao catador", recorda.
Entre as alternativas de tratamento, como aterro sanitário, incineração, usina de compostagem, coleta seletiva e reciclagem, o pesquisador escolhe aquela em que o biodigestor realiza a compostagem junto com o aproveitamento de energia. Lembra que, no método tradicional de compostagem, os resíduos sólidos passam por uma seleção, a maioria das vezes manual, onde são separados os materiais orgânicos, recicláveis e os não-aproveitáveis. Há alguns meses, esse processo era realizado em duas usinas localizadas na cidade de São Paulo. Era possível transformar o lixo orgânico em adubo e reciclar materiais inorgânicos, como plásticos, latas, entre outros. Porém, o material que chegava a esses locais era de má qualidade e apresentava patogenia. "Entrava lixo e saía veneno. O composto estava contaminado", enfatiza.
Calderoni considera importante também a incineração, quando são queimados os resíduos sólidos. Além da redução do volume de lixo, outra vantagem é a neutralização da ação das bactérias, mas são emitidos dioxinas e furanos, que são gases potencialmente cancerígenos. "Muitas tecnologias já foram desenvolvidas para evitar essas emissões perigosas. É possível minimizar, porém, as pessoas que trabalham de madrugada, para diminuir os custos, abrem a chaminé e não colocam os filtros. Além disso, esses gases contribuem para agravar o efeito estufa", conclui. (M.A.)
Materiais preciosos Papel, alumínio, aço, vidro, plástico e garrafa PET são materiais que podem ter um tempo de vida maior se forem reciclados e incorporados ao ciclo produtivo. Com isso, ajudam a reduzir o volume dos aterros sanitários e lixões, bem como os danos causados ao ambiente, os gastos de energia e o desperdício de recursos naturais. O consultor da Universidade de São Paulo (USP), Sabetai Calderoni, defende a implantação das Centrais de Reciclagem Integral de Resíduos, que reúnem todas as atividades relacionadas ao tratamento do lixo, inclusive, a coleta seletiva. "Com as Centrais, esses materiais preciosos retornam às indústrias para reciclagem, numa proporção de 30%. O lixo orgânico, que representa 60%, vira fertilizante, energia elétrica ou gás natural veicular; enquanto os 10% restantes, não-aproveitáveis, seguem para um aterro de apoio."
A energia elétrica pode ser obtida por meio da compostagem da fração orgânica e da incineração da parte seca do lixo. Por aqui, converter parte do lixo em energia elétrica pode parecer novidade, no entanto, diversos países adotam a prática há muito tempo. "Em uma cidade que gera 350 toneladas/dia de lixo, as 210 toneladas de orgânicos forneceriam cerca de 2,5 MW. A fração seca produziria 3,5 MW, devido ao maior poder calórico de seus componentes, como borracha, madeira, plástico e papel. Já os 6 MW totais seriam suficientes para abastecer 60 mil residências", contabiliza o consultor.
Esse modelo, segundo Calderoni, em vez de gastos gera dinheiro. A implantação teria custo zero para o setor público, sem a necessidade de investimentos, e pode ser realizada, por meio de terceirização, pela concessão dos serviços a empresas. "Os recursos ficariam a cargo dos investidores, por uma razão muito simples. Além da possibilidade de vender a energia elétrica gerada, o lixo representa uma fonte de riqueza e todos os materiais estão presentes nele", finaliza.
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