Responsável pelo estudo de fósseis e dinossauros, a paleontologia ganhou destaque no Brasil, nos últimos anos, após as descobertas de que esses animais eram muito mais comuns por aqui do que imaginávamos
Volta ao passado
Quando eu crescer quero ser paleontólogo!" Este é o tipo da frase que poucos pais brasileiros terão o "privilégio" de ouvir da boca de seus filhos. Caso isso ocorra, no entanto, é importante conhecer alguns detalhes da profissão, a começar pela inexistência por aqui do curso de graduação a respeito. Quem quiser se especializar tem que estudar biologia ou geologia e só depois pós-graduar-se na área. Sem o apelo de carreiras como jogador de futebol, bombeiro, médico ou advogado, a de paleontólogo reúne atualmente no País de 200 a 300 profissionais em atividade. Eles se ocupam como professores universitários, pesquisadores acadêmicos ou contratados da Petrobrás ou da Companhia de Pesquisa e Recursos Naturais (CPRM), entre outras empresas. A palavra paleontologia vem do grego palaios = antigo; ontos = ser; logus = estudo e define a ciência que se ocupa do estudo dos fósseis (do latim fosilis = extraído da terra), restos ou vestígios de organismos que ficaram preservados nas rochas a um tempo superior a 11 mil ano
Luiz Carlos Borges Ribeiro, chefe de Pesquisas Geopaleontológicas da Fundação Municipal de Ensino Superior de Uberaba (Fumesu), explica que o fóssil pode ser datado com base na idade da rocha que o contém, pois é considerado um constituinte do estrato rochoso. "Para se datar as rochas, utilizam-se os radioisótopos, como o potássio-argônio, urânio-chumbo, samário-neodímio, e, para descobertas com até no máximo 70 mil anos, o método Carbono 14 e Carbono 12 (C14/C12). Há também fósseis específicos, classificados com o nome de guia ou índex, em que o próprio organismo é o elemento para se conhecer com mais precisão a idade."
A importância dos fósseis está relacionada com as informações que trazem consigo. Algumas vezes, elas são puramente científicas, outras, têm aplicações que resultam em melhoria para a comunidade. "Normalmente são importantes por registrarem novos dados acerca do entendimento da evolução da vida. Além disso, possibilitam reconstruir paisagens e ecossistemas do passado e as transformações sofridas pelo nosso planeta ao longo destes 3,5 bilhões de anos", acentua o pesquisador. Elas podem auxiliar também na datação dos estratos rochosos, de importância na prospecção e pesquisa de combustíveis, como petróleo, gás e carvão.
O maior predador O primeiro trabalho a mencionar a presença de fósseis no Brasil data de 1817. Relata a ocorrência de restos de mamíferos pleistocênicos - de 1 milhão a 11 mil anos atrás -, nos arredores da Vila de Minas do Rio de Contas, na Bahia. Foi publicado no livro Chorografia brasílica (geografia brasileira) pelo padre e geógrafo português Manuel Aires de Casal. Mas o pai da paleontologia brasileira é o dinamarquês Peter W. Lund, que se dedicou ao estudo da fauna de mamíferos pleistocênicos das grutas calcárias, na região norte de Belo Horizonte, entre 1836 e 1844. É notório que há alguns milhões de anos dinossauros habitaram o Brasil, fato comprovado pela grande quantidade de registros.
O maior volume de achados está associado ao período Cretáceo (145 a 65 milhões de anos), mas há também descobertas muito antigas, como o Staurikosaurus e o Saturnalia, encontrados no Rio Grande do Sul com 220 milhões de anos. "O Purusaurus, crocodilo gigante do Rio Purus, no Acre, é tido como o maior animal predador (carnívoro) descoberto no Brasil. Entre os herbívoros está um Titanossauro encontrado em Peirópolis (MG) que será apresentado no máximo até o início do próximo ano como o maior dinossauro brasileiro de todos os tempos", destaca Ribeiro.
O pesquisador alerta que, muitas vezes, o tráfico de materiais fósseis, corre paralelo, principalmente nas regiões mais pobres, como Araripe (Nordeste). "É sabido que boa parte dos fósseis é comercializada tanto no Brasil quanto no Exterior, o que resulta em uma perda irreparável de patrimônio cultural e informação científica para o nosso país." (M.A.)
Dinossauros na terra do boi Implantados em 1992, em Peirópolis, próximo a Uberaba (MG), o Centro de Pesquisas Paleontológicas Llewellyn Ivor Price e o Museu dos Dinossauros reúnem os fósseis encontrados na região e estão à disposição do público, para estudos e visitação. "A dinâmica desenvolvida pela instituição, que a cada ano faz descobertas inéditas, movimenta a grande mídia, o que resulta em inúmeras reportagens", revela o responsável pelo projeto, o pesquisador Luiz Carlos Borges Ribeiro, diretor do Centro de Pesquisas Paleontológicas Llewellyn Ivor Price. Nestes 13 anos, mais de 500 mil pessoas do Brasil e de 44 países já visitaram a exposição. O visitante dos Estados Unidos, Canadá e de países europeus demonstra maior interesse, visto que reconhece a importância cientifica desta área e valoriza as atividades de preservação do patrimônio cultural.
Todo o acervo do Museu é de fósseis originais, mas há reconstruções com a réplica de um Titanossauro confeccionado em resina a partir de 92 ossos encontrados em Peirópolis. A maior atração é o Uberabasuchus terrificus, "o terrível crocodilo de Uberaba", um animal semelhante aos crocodilos atuais, porém, sem representante vivo. O fóssil foi descoberto no ano de 2000 na localidade conhecida como Caieira, dois quilômetros ao norte de Peirópolis, de onde foram retiradas centenas de ossos, dentes e ovos de dinossauros. "Trata-se do mais completo exemplar já coletado e descrito em 60 anos de pesquisa em Uberaba, um verdadeiro tesouro paleontológico. Cerca de 70% de seu esqueleto foi preservado em posição de vida, o que permite estudos detalhados de seus hábitos, comportamento, locomoção, postura, alimentação etc.", expõe Ribeiro.
O pesquisador destaca também o papel da paleogeografia, que permite comprovar, há 70 milhões de anos, a união da América do Sul, do leste da África (Madagáscar) e da Antártida, então em condições climáticas bem distintas das de hoje. "Esta afirmação encontra sustentação, já que os crocodilomorfos mais próximos do Uberabasuchus, o Mahajangasuchus insignis e o Lomasuchus palpebrosus, foram descobertos em Madagáscar e na Patagônia Argentina, respectivamente", explica.
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