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Cultura


A 28 quilômetros de São Paulo, estão o maior templo e a primeira universidade budista da América Latina. Aos candidatos a monge, exige-se apenas alguma afinidade com a filosofia e o desapego de coisas mundanas
Fotos: Isabel Mojica

Força do HÁBITO


Chinês, inglês, história, princípios do darma - conjunto dos ensinamentos budistas -, artes marciais, contato com os sutras - textos sagrados da religião - e caligrafia são algumas das disciplinas que compõem a grade curricular da primeira universidade budista da América Latina. Instalada no Templo Zu Lai, município de Cotia, Grande São Paulo, a universidade forma monges budistas e professores de darma (professores de doutrina e práticas budistas não-ordenados) de acordo com os princípios do Budismo Humanista do Monastério Fo Guang Shan.

O curso dura quatro anos, no campus de Cotia e na Universidade Cong Lin, em Taiwan, e depende muito da proficiência lingüístico-comunicativa dos estudantes em língua chinesa. Os "aspirantes" a monges, do sexo masculino ou feminino, precisam ter idade entre 18 e 36 anos e ter completado o ensino médio. Não é necessário ser budista, mas que tenha afinidade com os princípios do budismo e tencione realmente fazer a carreira de monge ou de professor de darma. É grande a procura pelas 40 vagas oferecidas a cada semestre, segundo o professor Moacir Mazzariol Soares, 55 anos. "Temos alunos do Piauí, do Rio Grande do Sul, do interior de São Paulo e de outros estados do Brasil."

Durante o período letivo, os alunos permanecem em regime de internato. "A condição mais importante para o ingresso na universidade é o caráter do candidato. É fundamental que ele seja uma pessoa de boa índole, tenha propósitos elevados para sua existência e para ajudar os demais e esteja numa faixa etária em que possa contribuir ativamente. Isso porque a prática do budismo no Monastério de Fo Guang Shan é o que chamamos de budismo humanista, ou seja, é um budismo engajado. Ele não serve apenas para os monges ficarem sentados na floresta meditando. Mas é claro que a meditação é o 'toque de caixa' de todas as práticas do budista", expõe.

Soares explica que budismo engajado não significa converter pessoas à prática. Mas participar ativamente das melhorias das condições da sociedade. "Temos quatro grandes pilares que conduzem às práticas. Eles estão ligados às áreas da cultura, educação, beneficência social e purificação espiritual. É engajado porque atua com o objetivo de ajudar os seres a saírem dessa condição de sofrimento da existência. Esse é o grande propósito."

Segundo o professor, no primeiro ano de curso o aluno se familiariza com os conceitos, os princípios e, principalmente, com a disciplina budista. "Durante esse período, ele estuda inglês e chinês, o que possibilita fazer a extensão do curso, o 2º e o 3º ano, em Formosa, Taiwan. Depois, ele pode regressar ao Brasil para finalizar o seu quarto ano de estudo", detalha. Pode demorar até dez anos, no entanto, para um monge ser plenamente ordenado; depende do esforço, empenho, capacidade de aprendizagem e determinação de cada um.

Desapego
O fato de ser uma universidade livre e gratuita não significa que o estudante possa levar o curso com displicência. Ao contrário, é necessário esforço, empenho, determinação e, inclusive, "abrir mão" dos apegos do mundo material. De acordo com o professor, isso não dificulta ou impede que o interessado trilhe seu caminho. "Quem procura ingressar nessa universidade tem caráter realmente elevado e um coração grandioso, com ideais de ajudar a sociedade e de melhorar como pessoa", enfatiza.

Àqueles que imaginam a vida monástica como uma fuga ou até um aprisionamento, o professor faz um esclarecimento. "Um monge está completamente livre de tudo. Pode até ter as facilidades do mundo moderno, mas não tem apego a nada. Está completamente acima dessas coisas. É uma pessoa que vive em uma condição de grande liberdade."

Outro fator importante é o celibato. Os monges vivem em comunidade de vida casta, sem constituir família. Todos os moradores do monastério usam hábitos, sejam homens e mulheres, ricos ou pobres. Eles são iguais porque têm a mesma essência, que é aquela que o Buda descobre quando atinge o nirvana. "Não existe distinção entre as pessoas. O uniforme é para que nós visualizemos todos de uma maneira igual. O fato de raspar a cabeça também. Os monges reproduzem na sua vida o que Sidarta Gautama fez em busca do fim do sofrimento da existência. Ele abandonou o palácio onde nasceu, cortou os cabelos e se equiparou à classe social mais simples da Índia", revela Moacir.

Como parte da rotina do dia-a-dia, fora do ambiente das aulas, o estudante cuida do local onde vive e limpa a universidade. Nos finais de semana, têm atividades sociais, como a recepção das visitas ao Templo Zu Lai ou a participação nos projetos educacionais. Entre eles, o "Filhos de Buda", que beneficia cerca de 400 crianças e jovens carentes do município de Cotia. Nele, há o desenvolvimento de princípios de ética, de moralidade e de respeito, e também cursos de inglês, informática e panificação.

Vida de monge
Alexandre Bréia, 25, mora no templo há alguns meses. Queria trabalhar como voluntário, mas acabou fazendo entrevista para entrar na faculdade. Largou a carreira de designer gráfico, rompeu com parte da família (só a mãe o apoiou) e foi morar no Templo. "São vários fatores que me trouxeram até aqui. Passei por diversas experiências e situações diferentes. Estava sempre procurando algo que desse sentido para tudo", recorda.

Com tranqüilidade e leveza de espírito, sem esquecer das dificuldades de adaptação, o jovem quer se tornar professor de darma. "No começo foi conflitante porque era preciso morar aqui. Depois fui aprendendo a valorizar cada coisa e, a partir daí, passei a ver o mundo de outra forma", revela. Ele ouviu de muitas pessoas que havia entrado para o monastério para fugir, mas ressalta que o tempo todo as pessoas fogem. "Elas podem se refugiar numa boate, numa praia, no colo da mãe ou nos braços da namorada ou namorado."

Para o zen-budista Aldo Gouveia dos Passos, 30, entrar para a universidade foi uma opção madura. Ex-estudante de filosofia e militar, natural de Curitiba, diz que a decisão teve a aprovação de sua família e que os sete anos de vida militar o ajudaram na adaptação. "A disciplina, a ordem e o fato de todos dormirem no mesmo alojamento não me trouxeram dificuldades. Mas alguns colegas têm problemas e aos poucos a situação se afunila", observa. Sua motivação, a princípio, é conhecer profundamente o budismo, por isso aproveita todos os estudos e ensinamentos. "Eles enriquecem a vida de qualquer pessoa, independentemente de ela querer ser monge ou não", afirma. (M.A.)
O maior da América Latina
A denominação Zu Lai, do maior templo budista da América latina, vem do sânscrito Tathagata. Um dos epítetos do Buda, significa "aquele que vem do Tathata", cujo estado é a realidade que um Buda vê. Com área construída de cerca de 10 mil m², em meio a uma área verde de 150 mil m², a 28 quilômetros de São Paulo, foi inaugurado em 2003. Surgiu com a vinda do grande mestre Hsing Yün, 48º Patriarca do Budismo Ch'an no mundo.

"Chang Sheng Kai, um empresário que tinha uma chácara neste local, ofereceu o espaço para que ele construísse futuramente um templo com o objetivo de que o Monastério Fo Guang Shan semeasse o darma", conta Moacir Mazzariol Soares, professor da primeira universidade budista da América Latina. Havia um outro templo ali, desde 1992, mas, com o passar do tempo, os discípulos constataram que o prédio no topo do morro era pequeno para acolher o grande fluxo de pessoas que visitavam o local.

Na opinião do professor, a proliferação do budismo no Brasil é exagero da imprensa. "Não percebemos crescimento no número de discípulos budistas. O que existe é uma grande atração pela cultura budista, porque somos um povo extremamente aberto, que respeita as diversas culturas. O IBGE também desmente essa evolução, mas o budismo é uma possibilidade àqueles que não têm uma fé; que querem praticar de alguma maneira uma crença, uma religião e se tornarem pessoas melhores."
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