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Entrevista - Rolando Boldrin


Um "cantadô" e "contadô" de 69 anos, dos quais 46 dedicados à genuína cultura brasileira. Rolando Boldrin é daqueles entrevistados com quem se pode ficar horas proseando. Sétimo filho de uma famí-lia de 12 irmãos, nasceu em São Joaquim da Barra, próximo de Ribeirão Preto (SP). Depois de viver oito anos na vizinha Guaíra, retornou à terra natal, de onde, no final da adolescência, pegou a estrada para tentar a "vida" na capital. Trabalhou de sapateiro, garçom e frentista; prestou o serviço militar e retor-nou à sua terra. Voltou a São Paulo, onde fez teste em várias rádios. Durante um ano e meio, trabalhou de graça; chegou a passar fome. Hoje, isso é passado, mas seus "causos" não. No rádio, na televisão (TV Cultura de São Paulo), sem acanhamento e com fôlego, vem tirando o Brasil da gaveta!
Texto: Margarete Azevedo

O Brasil de "causo" pensado


Quando foi seu primeiro contato com a música de raiz?
Em Guaíra, perto de Barretos, havia (e há) muito peão de boiadeiro. Na época era uma cidade muito pequena, com boiadas no meio das ruas de terra. Eu tinha 7 anos, minha família não tinha rádio e as músicas que ouvia naquele tempo vinham do alto-falante, da pracinha, da porta do cinema - só havia um chamado Cine Teatro. Comecei a mexer com viola nessa época, porque toda cidadezinha do interior absorvia a música caipira tradicional, que eles hoje chamam de música de raiz. Eu acho uma bobagem falar música de raiz.

Como chamá-la então?
Raiz foi uma denominação que encontraram para dizer que não é a sertaneja, com o que eu não concordo, porque toda música tem alguma raiz. O samba é uma raiz da nossa música; a moda de viola é uma música de raiz. Eu prefiro falar que é uma música autenticamente brasileira, cantada sem influências estrangeiras. Por mais que nós há muito anos soframos interferência.

Quem você ouvia?
Naquela época, eram sucesso Noel Rosa, Carmem Miranda, Chico Alves, Orlando Silva, Vicente Celestino, Isaurinha Garcia, Irmãs Batista e Silvio Caldas. Nessa área da música popular brasileira, o que fazia sucesso no Rio de Janeiro se espalhava pelo País. As emissoras cariocas eram uma potência, como a Rádio Nacional, que ficou famosa por revelar grandes astros; a Tamoio, a Tupi. No Interior, essa informação musical chegava para o caipira via rádio e era repassada para os alto-falantes de circo e de parque de diversões.

Como se classifica a música caipira?
Eu considero a música caipira também como música popular brasileira. Assimilavam esse lado caipira o Alvarenga e Ranchinho, Jararaca e Ratinho, Barreto e Barroso, Sebastião Arruda, um humorista do Rio de Janeiro que criou aquele tipo caipira antes do Mazzaropi. Um artista que talvez tenha motivado o Mazzaropi a criar o "Jeca". O Noel Rosa tinha um grupo chamado Bando de Tangarás, que tocava música do norte misturada com música caipira paulista. Essa foi a minha formação musical, via alto-falante.

Quando surgiu a dupla Boy e Formiga?
Foi em Guaíra e em São Joaquim, na volta. Era muito comum no Interior cantar música caipira em dupla. Na época faziam sucesso duplas como Alvarenga e Ranchinho, Raul Torres e João Pacífico. Eu já tinha dom para música e cantava sozinho, e o meu irmão aprendeu a fazer dueto. Peguei uma violinha básica de dez cordas e, junto com ele, formamos uma dupla bem rústica.

Durou muito tempo?
Fizemos um programa de rádio aos domingos de manhã durante dois ou três anos. Eu tinha entre 11 e 12 anos e ele 14. O auditório do programa lotava, como hoje em meu programa. Mas o meu irmão, quando ficou mocinho, aos 16/17 anos, veio para São Paulo. E eu parti sozinho para outras coisas; sempre misturei muito a música. Eu gostava de Noel, de Cartola, de Alvarenga e Ranchinho.

Continuou com o programa na rádio?
Não. Continuei em off, como se diz, no paralelo. Eu fazia as minhas músicas, brincava de cantar, mas não era uma coisa profissional. Logo depois, aos 16 anos, vim para São Paulo tentar a vida.

E o que você fez na capital?
Trabalhei de sapateiro, frentista, garçom de beira de estrada. Com 18 anos fui para o Exército. Após o serviço militar, voltei para minha terra por um tempo e depois retornei a São Paulo para tentar, com 20 e poucos anos, a carreira artística. Fiz um teste para cantor na Tupi com 22 anos. Tinha feito para radioteatro na Rádio São Paulo e na Record, e em várias. Você tem que achar um caminho.

No rádio você era ator ou cantor?
Era tudo. Hoje, tudo o que faço é um reflexo do que eu fazia. Trabalhei em circo como ator quando garoto; cantava moda de viola, toada, samba; sabia versos de vários poetas, era curioso pela cultura popular, em formas literárias também. Sabia textos de Catulo da Paixão Cearense de trás para frente; gostava de ler e ver tudo que falava de Brasil. Eu tenho um conhecimento muito grande, mas não sou estudioso.

Todo seu conhecimento é de um autodidata?
Eu sei um pouquinho de cada coisa. Tanto toco violão como viola; canto um samba de breque e uma moda de viola; eu misturo tudo. Acho que o Brasil é um pouco disso, ou seja, eu faço uma mistura de raça, de gente, de nuanças. Mas fazia isso instintivamente, por amor à minha terra. O que fosse música brasileira era o que queria cantar. Não fui bem no teste para cantor. Fiz outro para radioator na Rádio Tupi, neste fui aprovado. Só que, naquele tempo, a gente trabalhava de graça. Em televisão, ganha va um cachezinho de nada. Na rádio era de graça, fazia programa o dia inteiro, inclusive, novelas...

E como você se sustentava?
Eu passava até fome. Às vezes, um irmão me pagava um cigarro; eu dormia em um quartinho alugado com um amigo no fundo de uma casa perto da Tupi. Era muito esforçado e sempre achava que iria chegar o dia em que conseguiria aquilo que queria. Trabalhei nesse sufoco durante um ano e meio e depois fui contratado. Mostrei o que podia fazer e acabei ganhando papéis maiores na televisão. Naquela época, não havia videoteipe, era tudo feito ao vivo. Com isso, fui adquirindo experiência. Hoje, tenho pena de artistas que não tiveram essa oportunidade. A vida profissional me ensinou tudo o que sei.

Quando gravou seu primeiro elepê?
Não foi elepê. O primeiro disco que gravei, um compacto, foi com a minha mulher, Lurdinha Pereira. Eu tinha composto uma música, que ela gravou e foi um sucesso. Naquela época, eram 78 rotações. Fiz outra música "Do que eu gosto mais", um maxixe, e gravei cantando com ela. Foi a primeira experiência; antes, só cantava nos botecos. Apesar de ter sido profissional, era uma participação acanhada, porque o disco era dela. Daí para frente fui fazendo outras músicas e gravando um compacto aqui, um disco ali, até que gravei o primeiro elepê, pela Chantecler, "O Cantadô". Quase todas as composições eram minhas; a contracapa foi assinada por Chico Buarque. Ele estava começando a aparecer, deve ter sido por volta de 1968/1969. Fiquei conhecido no meio, não foi um sucesso, mas já me situava como um compositor, como um intérprete, não era essas coisas, mas um cantador. Por isso coloquei o nome "O Cantadô". Eu sou um ator que canta e um contador de histórias. Para me definir com justiça, ao talento que eu tenho, seria só isso.

Há quem veja em você o Cornélio Pires da atualidade. Você o conheceu?
É lisonjeira essa comparação e gosto, porque eu mesmo acho que sou um discípulo dele. O que ele fazia eu assistia. Ele contava mais histórias de caipira paulista; nasceu na cidade de Tietê e era um profundo estudioso da cultura caipira paulista. O que faço vai mais longe, ou seja, sou um contador de histórias, conto como ele, mas conto "causos" de brasileiros, de tipos humanos brasileiros, não fico restrito ao caipira paulista.

Como você define o seu talento para contar história?
A definição para ator é de um imitador, ou seja, ele imita um personagem criado por algum escritor e interpreta aquele personagem. O que eu faço? Conto histórias de tipos humanos brasileiros. Como sou um ator, desde garoto, eu era um observador do comportamento humano, principalmente brasileiro. Se você perguntar ao Lima Duarte "como é que ele fez aquele personagem na novela tal?". Ele vai dizer "porque eu conheci um tipo assim".

Um "causo" pode fazer com que a pessoa desenvolva a historinha na cabeça dela?
Quando eu conto um "causo", eu que instituí essa palavra, a pessoa viaja comigo. O Eugênio Kusnet, um grande ator russo, fez um comentário durante um ensaio. Falou para visualizar aquilo que se conta. Essa é a minha ferramenta. Quando vou contar um "causo" no meu programa ou em qualquer lugar, visualizo aquilo que estou contando. Isso passa para a platéia; ela viaja comigo e, no desfecho, acha graça.

Como não há muitas opções do gênero, qual a importância do programa "Senhor Brasil"?
Meu trabalho tem uma característica que é a minha meta de vida. Eu levo para as pessoas sempre uma emoção. Ela vem de uma verdade que existe dentro de mim, que é cantar a minha terra, a minha gente, o meu povo. É o que pouca gente faz no País. Existem muitos artistas que trabalham nesse sentido, mas o que faço, de certa maneira, é único. Isso porque quando eu trago um artista para cantar, penso nele como intérprete, na mensagem da música, escolho aquela que ele vai cantar, o acompanhamento, penso no que vou falar antes dele cantar. Há toda uma carga de responsabilidade para que se chegue à emoção. Tudo isso passa uma corrente de positivismo que está a cargo da brasilidade que eu carrego desde os 7 ou 8 anos de idade. Por isso levo sempre o nome do Brasil no meu programa: "Som Brasil', 'Senhor Brasil', 'Empório Brasileiro". Tenho paixão em transmitir às pessoas um amor muito profundo pela minha terra, pelo meu país, pelo meu lugar, meu Estado, meu chão.

É uma prova de que existe muito trabalho bom nos confins do Brasil.
Eu não imaginei que a minha volta depois de tantos anos fosse ser muito fácil e que iria encontrar ainda material humano como no tempo do "Som Brasil", na Globo, mas a surpresa foi muito grande. Hoje, recebo material do Brasil inteiro em CD e DVD, que, sem mentira nenhuma, daria para fazer cinco ou seis programas iguais ao meu.

Existe uma região típica dessa musicalidade autenticamente brasileira?
O Brasil é rico de um modo geral. É claro que existem regiões em que há mais esse tipo de artista que atua no paralelo. Costumo chamá-los de formiguinhas, porque eles trabalham sem a intenção de virar estrelas, mas não vão encontrar caminho para isso, nem espaço para tocar no Faustão. O que interessa é a preocupação de levar o que sentem, como eu.

Como é a caixa de CDs "Vamos Tirar o Brasil da Gaveta!"?
Como estava fazendo shows e querendo voltar para a televisão, achei que tinha que começar por resgatar um trabalho fonográfico imenso que estava engavetado. Existia uma cobrança muito grande do público onde eu fazia show: "Onde eu acho tal disco do senhor? Onde encontro tal música? Tal declamação?" Havia tanta solicitação que, quando decidi "vou voltar", falei "vou tirar o Brasil da gaveta".

São quantos CDs?
São 102 obras divididas em oito CDs. Da parte caipira deu para fazer quatro, são diversas canções, toadas, modas de viola e cateretês. Fiz um CD de músicas regionais, com canções de Lupicínio Rodrigues, Noel Rosa e Ari Barroso. Outro de sambas urbanos. Pouca gente sabe que cantava samba quando comecei. Tem CD de sambas vocalizados, eu cantando com Anjos do Inferno, Bando da Lua, "Vocalistas Tropicais" e "Diabos do Céu". E fiz um CD só com declamações; resgatei 18 poemas do "Som Brasil" que são muito procurados e emocionam as pessoas.

Você gravou com o Renato Teixeira e está com um programa na Rádio Globo?
Acabei de lançar, há três meses, uma coletânea com Renato Teixeira. Estou com um programa de rádio chamado "Cinco minutos de Brasil", que passa três vezes por dia na Rádio Globo AM. Nele conto um "causo" e é tocada uma música. Já fiz 170 programas sem repetir nenhum "causo".
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