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Comportamento
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No mês em que se comemora o Dia da Família, educadores analisam a chamada família moderna, a da "geração canguru", composta por jovens que, independentemente da condição financeira, relutam em abandonar a casa dos pais
Texto: Margarete Azevedo
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Filhinhos da mamãe, e daí?
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Os filhos da geração dos anos 70, caracterizada por lutas pela independência, inclusive familiar, cresceram. Com cerca de 30 anos, eles pouco se assemelham aos seus progenitores; em muitos casos, quando o assunto é ser dono do próprio nariz, chegam a ser o oposto daqueles. Resistem ao máximo em sair da casa de seus pais, a ponto de serem rotulados de "geração canguru" ou de adultos que sofrem da síndrome de Peter Pan. Enfim, são pessoas que não "crescem" porque não se sentem preparadas para encarar a vida. No Brasil, esse novo modelo familiar passou a ser estudado por alguns especialistas no início dos anos 90. Nos Estados Unidos e nos países do norte da Europa, ao contrário, é comum os filhos saírem cedo, seja para estudar em uma universidade, seja para trabalhar.
Na opinião da filósofa Tânia Zagury, mestre em Educação e escritora com 12 livros publicados, entre os quais Encurtando a Adolescência, o filho-canguru não se caracteriza só pelo fato de morar com os pais, uma vez que isso é muito comum nas camadas mais pobres da população - lá, o jovem casa-se, tem seus filhos e simplesmente continua com a família, porque não tem condição material para comprar uma moradia. "O jovem-canguru é aquele que tem condições de morar sozinho e está independente financeiramente, mas não sai da residência dos pais porque não quer", diz a educadora.
O simples fato de uma pessoa morar com o pai ou com a mãe não faz com que ela se enquadre no rótulo "geração canguru". Tânia explica que são necessárias algumas características. Ao contrário das gerações passadas, o jovem da atualidade não convive com uma série de regras e limites que impediam as pessoas de concretizar os seus planos de liberdade, entre elas, a vivência plena da sexualidade. Hoje, muitos têm a permissibilidade dos seus ascendentes e desfrutam da vida sexual sob o mesmo teto. "Não é uma regra geral, mas pelo menos 25% dos pais permitem que os filhos transem em suas casas. Esse filho tem tanta mordomia dentro de casa que se acomoda", observa.
Um traço marcante no filho-canguru é a indecisão quanto ao curso que faz. É comum ele freqüentar a faculdade por vários anos, ao final, constatar que não gostou "daquilo" e partir para outra. Ele sabe que pode começar uma nova carreira porque tem o suporte econômico da família. A situação não é diferente quando o tema é trabalho. Segundo Tânia, o filho-canguru não consegue se fixar em emprego algum porque não tolera ser contrariado. "Abandona, volta para casa e diz que foi despedido porque o chefe não gostava dele. Casa, comida e roupa lavada ele sabe que sempre terá. Uma pessoa que está consciente de que se perder o emprego não terá dinheiro para pagar o aluguel, comprar comida ou um remédio se precisar não joga o emprego pela janela por qualquer bobagem", compara.
Antônio Carlos Amador Pereira, psicólogo e professor da Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), de São Paulo, comenta que a permanência na casa dos pais está relacionada com a dificuldade do adulto jovem estabelecer-se no mercado de trabalho. "Ele precisa ter uma ocupação e uma renda que lhe permitam se manter sozinho; e, hoje em dia, o mercado está muito difícil para quem está começando. O que não acontecia há cerca de 20 ou 30 anos, quando havia maior disponibilidade de empregos", acrescenta.
Excesso de benesses
Se essa realidade é desfavorável aos filhos, não deixa de ser também para os pais, incapazes de enxergar sua prole como adulta. Ocorre que, nesse ambiente onde não se cobra nada e tudo se permite, tampouco existe a perfeição. Ao contrário dos jovens das décadas de 60 e 70 do século passado, os atuais são considerados rebeldes, mas sem causa, afinal dispõem de muitas coisas. "As lutas eram por igualdade entre todas as pessoas, inclusive, entre a mulher e o homem. Aquela geração não se insurgia contra os pais; a maioria saía de casa, aos 18, 19 ou 20 anos, nem que fosse para morar numa república. Alguns perdiam muito do seu conforto material para conseguir o que almejavam", relata Tânia.
A geração de hoje é filha daqueles jovens e encontrou um caminho preparado, inclusive, o de poder conversar a respeito de praticamente todos os assuntos que no passado eram repletos de tabus. Para a educadora, os pais promoveram essa mudança conscientemente; estabeleceram como objetivo oferecer aos filhos tudo que não tiveram e concretizaram na prática o que não usufruíram. Dão tanta liberdade, que, muitas vezes, também exageram nas benesses financeiras, fato que ocorre predominantemente nas camadas mais abastadas da população. "A criação excessivamente liberal desse jovem faz com que exista conflito dentro de casa, pois ele não quer dar qualquer tipo de satisfação. Quer sim todos os direitos e nenhum dever", emenda.
Já o psicólogo Pereira diz que a sociedade tem fases de maior abertura e períodos em que há refluxo, de fechamento. Segundo ele, nos anos 20 do século passado houve uma ampla abertura no comportamento sexual, que se retraiu nos anos 30. Nos anos 50 existiam valores mais rígidos e nos anos 60 se deu uma espécie de ruptura. "Os pais educados naquela época são hoje os que educam. Muitos, ao tentar evitar um problema, criam outro, uma vez que oferecem todo conforto e atendem todas as necessidades do filho. Ele não prepara o jovem nem para o mundo nem para a vida. Em um certo sentido, cria uma pessoa dependente", aponta.
Em seu último livro, Os Direitos dos Pais, Tânia procura auxiliar no reequilíbrio dessa balança, em que só há direitos. No entanto, ela comenta que antes é fundamental o pai e a mãe se conscientizarem de seu descontentamento. "As relações dentro de uma família só mudam quando um dos lados não está satisfeito com a situação. O filho mostrar-se renitente a colaborar também cansa. Não adianta esperar que aconteça um milagre que promova uma mudança", aconselha.
Como os índios
Enquadrar os jovens na "geração canguru" é fácil, porém, muitas vezes são os próprios pais que não querem que o filho cresça e viva a sua vida. No entanto, os educadores concordam que, embora os pais tenham parcela de responsabilidade, não se deve culpá-los. Na tentativa de acertar e corrigir a própria infância por meio dos filhos, erraram sem saber. Com intuito afetivo, visando o melhor para o jovem, não previram essa realidade perniciosa para ambos, pois ele se torna uma pessoa menos capaz de enfrentar a vida; afinal, sempre terá alguém na retaguarda. "O filho deve assumir algumas responsabilidades dentro de casa; isso é compartilhamento. Nesse aspecto, não há problema algum de as pessoas morarem juntas a vida toda. Nossos ancestrais, os índios, viviam assim, mas todos tinham suas tarefas", enfatiza Tânia.
Pereira lembra que muitas pessoas sentem-se mais seguras emocionalmente morando com os pais. Obviamente, que esses pais complementam isso porque também precisam dos filhos ao seu lado, ou seja, sentem dificuldade para esvaziar o ninho. Aceitar que o filho cresceu, já é independente e que eles (pais) envelheceram pode ser um outro problema. Para ilustrar essa idéia, ele cita trechos de O Profeta, de Khalil Gibran: "Vossos filhos não são vossos filhos. São os filhos e as filhas do desejo da Vida por si mesma. Eles vêm através de vós, mas não de vós. E apesar de estarem convosco, não pertencem a vós." - "Sois os arcos dos quais seus filhos, como flechas vivas, são arremessados."
É preciso cuidado, segundo o psicólogo, para não generalizar os jovens como pertencentes da "geração canguru" apenas porque permanecem acomodados na casa dos pais. Ele diz que algumas pessoas de fato sentem medo de ir para a vida, mesmo elas sendo autônomas e independentes profissionalmente. "Elas têm um vínculo tão forte com a família que não se permitem começar uma vida diferente. A menos que arranjem um parceiro que substitua isso", expõe. Discussões à parte, o fato de a pessoa ser mais ou menos bem-sucedida não dependerá de estar morando com os pais ou sozinha, nem há como afirmar que ela é individualista. "O individualismo também faz parte da sociedade e muito dele está nos padrões de educação", finaliza.
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