Uma viagem ao mundo dos museus e um roteiro dos múltiplos espaços de São Paulo, que guardam a história das artes, da música e de outros objetos que o ser humano resolveu um dia cultuar
Sobre todas as coisas
Se não tem um Louvre ou um National Museum, como Paris e Londres, São Paulo possui uma infinidade de museus, sobre os mais variados temas, nem sempre divulgados de maneira satisfatória. É pensar num objeto, qualquer um, que a capital paulista tem um espaço dedicado ao seu estudo e conservação. O interessante é que a palavra deriva do grego mouseîon, cujo significado corresponde a "templo das Musas, local onde elas residem; no qual se exercita a poesia; escola". É o mesmo sentido do latim muséum, que acrescenta ao termo "biblioteca e academia".
Soa confuso associar o que conhecemos hoje como museus com musas, mas existe uma explicação. "Isso ocorreu na Grécia, em um local chamado Museioum, onde ficavam estátuas, quadros, objetos e peças de extrema beleza e as musas. Mais tarde, com o resgate histórico, o lugar onde se apresentam peças para um grande público passou a denominar-se museu", explica o biólogo, pesquisador e museólogo, Pedro Antônio Federsoni Jr.
Mas a mania de colecionar, intrínseca do ser humano, é anterior a isso, segundo Federsoni. Quando o homem era nômade, andarilho, guardava muito pouco. A partir do momento em que se tornou sedentário, com a prática da agricultura e a domesticação de animais, ele passa a guardar culturalmente uma série de "lembranças", o material de suas conquistas. Com o advento das civilizações, elas começam a apresentar essas coleções de maneira mais enfática, dando mais valor aos chamados objetos museais. Algumas culturas guardaram ou preservaram seus conjuntos de objetos mais do que outras, como as dos romanos, gregos e egípcios; nas Américas, foram as dos incas, maias e astecas.
Método científico A grande virada, na opinião do museólogo, ocorreu quando o local onde se guardavam essas peças foi oficialmente batizado de "museu", a partir do século 17. Na Idade Média, no entanto, os castelos e palácios feudais dispunham de Gabinetes de Curiosidades. "Eram grandes festas de nobres e senhores feudais nas quais se apresentavam os troféus de conquistas e de caçada e também a produção artística", conta. Com o Renascimento, um número maior de pessoas (o clero, a nobreza e a elite) passa a ter acesso à arte e à cultura.
No século 19, surgem museus mais ecléticos, inclusive, com a divisão entre os de história natural e os de arte. "A antropologia, a zoologia, a botânica e a geologia entram como ciência. Isso ocorre somente após Descartes", destaca Federsoni. Ele se refere a Renèe Descartes (1596-1650), filósofo, matemático, advogado e militar, considerado um dos fundadores do pensamento moderno e criador da obra Discurso sobre o Método. "A partir de suas idéias sobre método científico, deixamos de ter 'exploradores', em busca de troféus, e passamos a ter cientistas, que começam a coletar materiais interessantes relativos à espécie humana", emenda.
Mudança de público Esse novo valor apresentou à espécie humana uma forma distinta de enxergar a natureza. "Temos as grandes descobertas, as grandes navegações; a Terra deixou de ser achatada e passou a ser redonda. Deixou de ser o centro do universo, lugar assumido pelo Sol", comenta. Mas essas novidades não eram acessíveis ao povo. "Quem aproveitava desse museu já não era apenas o clero, o nobre ou quem tinha dinheiro, mas também o homem de ciência", enfatiza o museólogo.
Só no século 20, após as 1ª e 2a Guerras Mundiais, a população teve acesso a esses locais. Como esses eventos foram a expressão bélica de vários países, principalmente europeus, onde estava a cultura e uma grande quantidade de pessoas mutiladas, os museus eram abertos a esse público. "Foram criados então jardins botânicos, zoológicos, parques naturais, que hoje chamamos de 'eco museus', e um museu onde tudo acontece: nascimento e morte a cada minuto", observa Federsoni.
Para facilitar a informação, tudo passa a ser decodificado. Por exemplo, a pessoa pode entrar num museu de animais peçonhentos com a cultura preestabelecida de que eles são perigosos, mas mudar de idéia por causa do contato direto. Com isso, lá fora, pode até sofrer o ataque de um animal desse gênero e morrer. "Os grandes museus dispõem hoje de museólogo, historiador de arte, pedagogo, psicólogo e um especialista em semântica para tornar a linguagem acessível a todas as pessoas", cita o museólogo.
Dos olhos à mente Durante muitos anos, as peças expostas eram apenas para o chamado Eyes On, referente aos olhos. "'Veja com os olhos, não com as mãos', esse era o lema", acentua o museólogo. Na década de 60, é a vez do Hands On, os museus passam a ser manuseáveis. É a idéia de poder "ver com as mãos", avaliar a textura e sentir o calor do que está exposto. Nos anos 90, era da informática, os visitantes passam a interagir de forma racional com o museu. As pós-avaliações das visitas demonstram, por exemplo, que, entre um grupo de 50 crianças, 30 delas viam exatamente aquilo que o museólogo queria que fosse visto. Era o Minds On.
O sentimento humano, ora transportado para dentro, ora para a vida da pessoa, ganha no início do século 21 o nome de Hearts On. "Acho que essa relação existe desde o tempo das cavernas. O que se perdeu foi a observação dela, por se transformar em uma área da elite nobre ou científica. (M.A.)
Onde ir Confira alguns museus abertos (e seus telefones) na cidade de São Paulo:
Históricos
Museu do Ipiranga
Museu Paulista da USP
Telefone: (011) 6165-8000
www.mp.usp.br
Casa do Grito
O local é vinculado à cena do "grito" de D. Pedro I pela Independência do Brasil em 1822
Telefone: (11) 273-4981
Memorial do Imigrante
Telefones: (11) 6693-0917/6692-1866/6692-7804/6692-2497/ 6692-9218
www.memorialdoimigrante.sp.gov.br
Museus de Arte
Pinacoteca do Estado
Telefone: (11) 3229-9844
www.cultura.sp.gov.br
Masp
Museu de Arte de São Paulo
Telefone: (11) 3251-5644
www.masp.art.br
MAM
Museu de Arte Moderna de São Paulo
Parque do Ibirapuera
Telefone: (11) 5549-9688
www.mam.org.br
Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo
Cidade Universitária
Telefone: (11) 3091-3039
Fax: (11) 3812-0218
www.mac.usp.br
Estação Ciência
Centro de Difusão Científica Tecnológica e Cultural da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da Universidade de SP
Telefone: (11) 3673-7022
www.eciencia.usp.br
Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo
Av. Professor Almeida Prado, 1.466
Cidade Universitária
Telefone: (11) 3091-4901
www.mae.usp.br
Museus a céu aberto
Fundação Parque Zoológico de São Paulo
Telefone: (11) 5073-0811
Fax: (11) 5058-0564
www.zoologico.sp.gov.br
Jardim Botânico de São Paulo
Instituto de Botânica / Jardim Botânico
Telefone: (11) 5073-6300
www.ibot.sp.gov.br
Embora existam museus para praticamente tudo que se possa imaginar, o número de museólogos não é suficiente para todos eles. Há uma lei que exige que todo museu deve apresentar um museólogo responsável, no entanto, a mesma legislação não estipula sobre a formação ou o exercício da atividade. Atualmente, há uma centena de profissionais com registro no Brasil. A profissão, se comparada a outras, é recente, porém, se a realidade não mudar, em breve, ela acabará se tornando um objeto museal. Os cursos de formação e pós-formação existem, mas são barrados porque ainda não se chegou a um ponto de crivo. "Alguns dizem que é preciso se graduar em museologia para ser museólogo; outros, que é necessário ser pós-graduado. Isso em pleno terceiro milênio", informa o museólogo Pedro Antônio Federsoni Jr.
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