A autora (*) fala do verdadeiro amor e de como proceder para conviver com ele, sem medos ou amarras
"Ela fez algo que seu pai desaprovara. Arrastada para o penhasco, foi lançada por ele nas águas do mar. As pessoas da região por muitos e muitos anos não pescavam mais lá; diziam que o tal lugar ficou assombrado. Um dia um pescador desinformado lançou sua rede nessas águas escuras e envolveu a Mulher-Esqueleto. Ficou muito feliz, imaginando ter pescado um peixe realmente grande, e mais ainda, em pensar sobre quantas pessoas podiam ser alimentadas por ele. Quanto mais ele puxava mais ela se enrolava em sua linha, pois aquela que estava sendo pescada também lutava para se soltar. Quando se deparou com o que realmente havia fisgado, foi tomado por um grande medo e fugiu desesperado para seu lugar seguro, seu iglu.
Viu-se perseguido por aquela ossada; desviava e corria, mas ela estava sempre em seu encalço. Não percebia que a Mulher-Esqueleto estava presa na rede que ele não conseguia largar. Aliviado por chegar em casa, ao acender as luzes, se deparou com a ossada, joelhos presos na costela, calcanhar sobre a cabeça, um pé por cima do ombro. Tomado de muita ternura, como uma mãe que ajuda um filho, foi desenrolando a linha e desprendendo a ossada. Quanto mais desenrolava mais seu coração batia como um tambor e sentia carinho por aquele ser que um dia foi humano e vivo como ele.
Ele remontou o corpo e, cansado por tal tarefa, dormiu. Enquanto dormia, derramou uma única lágrima, que como um rio, matou a sede de tantos anos da Mulher-Esqueleto. Deitada ao seu lado, ela estendeu a mão para dentro do homem que dormia, retirou seu coração e começou a cantar. Seus ossos foram revestidos de carne, ela devolveu o coração ao homem e deitou-se ao seu lado. Pela manhã, eles acordaram abraçados e não se separaram mais.”
Este mito do povo Inuit (do norte do Canadá), narrado por Clarissa Pinkola, em seu livro Mulheres que correm com os lobos, retrata os ciclos do amor. Ousamos dizer que o amor é o motor da própria vida e morte. A busca de todo ser vivo é o amor e nos sentimos mortos em vida pela falta dele. Tudo que fazemos e pensamos em sua essência é uma procura de realização (amor próprio) e reconhecimento (amor do outro). Mas como tudo na vida, o amor deve ser aprendido em todos os seus estágios.
Entre as várias fases, está a do amor urgente da criança, que quer tudo agora e do seu jeito; o amor adolescente, que se deslumbra em sexualidade e romantismo na busca de seu par perfeito; o do príncipe (ou princesa) encantado(a), que os retire da masmorra; e o amor adulto, que enfrenta a caveira dentuça e horrorosa. Para atingir o amor maduro é necessário respeitar seu ciclo de vida-morte-vida. Esse ciclo nada tem a ver com a idade do amante, que pode ter 50 anos e não ter passado da idade do amor possessivo e ciumento de uma criança de 5 anos.
Quem de nós se livrou da experiência de estar desprevenido e, de repente, como num passe de mágica, ser fisgado pela linha invisível da atração e acometido daquele frio na barriga tão peculiar? Muitos desistem após a paixão, aos primeiros vislumbres do esqueleto horroroso; a incapacidade de desenrolar a caveira e encarar a Mulher-Esqueleto é o que provoca o fracasso de muitos relacionamentos. Para amar é preciso não apenas ser forte, mas ser ao mesmo tempo sábio.
Em uma parte de nós resiste à idéia de que podemos viver e amar sem que a morte aconteça; mas não existem relacionamentos duradouros que não passem pela morte. Nossas ilusões e projeções têm que morrer para dar lugar verdadeiramente ao conhecimento do outro. As expectativas devem padecer para que possamos estabelecer relações verdadeiras, para que o outro realmente passe a existir em nossas vidas.
Todos desejam uma vida repleta de prazer e realizações, mas a verdadeira conquista tem um preço que por vezes não queremos pagar – enfrentar a realidade e encarar os defeitos e imperfeições que acompanham o pacote. Nós amaríamos mais se ele ou ela fosse assim ou assado, nós amaríamos, mas se ele ou ela não fosse tão isso ou aquilo... Mas essa bagagem vem inteira na mala, o belo e o não belo. Amar é suportar o outro em sua plenitude, é dar apoio, é agüentar. Ao negar o feio do relacionamento, vivemos uma mentira de prazer eterno, a da família Doriana, que nunca aprofunda seus sentimentos ou ficamos de peixe em peixe, trocando nossos parceiros ao primeiro desafio.
Essa é a fase de corrermos com o esqueleto grudado em nossa linha; é o período em que tentamos racionalizar nossos medos, quando dizemos ao mundo que não estamos prontos. Como crianças assustadas, corremos para o lugar seguro que ingenuamente pensamos existir, mas o que tememos é a nossa única fonte de cura, o único caminho para atingirmos nosso objetivo de amor verdadeiro. É preciso ser sereno e forte, sem ter medo de encarar a morte.
O medo é uma desculpa insuficiente para negarmos à vida seu propósito. Se nos rendermos a ele, voltamos ao amor criança ingênuo, mas superficial. Viveremos a colecionar momentos de paixão e continuaremos solitários e famintos de amor verdadeiro, o único capaz de curar nossas feridas e de fazer desabrochar nossas sementes de realização em todos os planos.
É a coragem de desembaraçar os ossos de nosso parceiro com compaixão e ternura, vencendo nossos medos, a entrega de dormir ao seu lado nos tornando frágeis e inocentes. Essa capacidade de gerar o amor está dentro de todos e a sua recompensa é o relacionamento que eleva e lhe faz sentir completo, amparado, forte e fraco. Mas sempre capaz de ir em frente, apesar de todas as dores sofridas, de todos os pecados cometidos, de todas as injustiças e penas que pagamos em nossa vida.
Só esse amor verdadeiro é capaz de gerar corpo e fazer pulsar o coração; apenas esse tipo de amor tem o direito de ser chamado de amor, e esse nunca morre. É como canta Gilberto Gil: “O amor da gente é como um grão, uma semente de ilusão, tem que morrer pra germinar...”
(*) Amélia Kassis é diretora da Companhia Zen – Núcleo de Práticas Orientais.
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