Um grupo de comunicadores quer mudar o combustível que alimenta o jornalismo ao longo dos anos. Em vez de catástrofes, notícias de cunho positivo
Texto: Manoel Dorneles
Esta é muito boa!
Atenção, leitor, para uma boa e uma má notícia! Em primeiro lugar, como de costume, vamos à má: o ser humano continua fissurado na desgraça alheia; por isso, a pista contrária à do acidente de trânsito também pára; e manchetes sobre catástrofes ainda vendem muito mais jornais. A boa: já existe na mídia, principalmente no rádio, um grupo de profissionais preocupado em destacar a notícia positiva, que, de alguma forma, ajude a elevar o astral dos tripulantes da nave-mãe Terra. Com a palavra, o jornalista Waldemar Antônio Ciglioni, 87 anos, registro profissional n° 847, cujo nome está inscrito na história do rádio brasileiro.
Octogenário, com uma disposição de dar inveja a muito recém-formado, Ciglioni responde atualmentepela programação da Rádio Mundial FM (95,7), de São Paulo. Passam por sua mesa o teor dos programas, a contratação e a orientação dos 150 comunicadores da rádio de tendência esotérica, voltada à chamada "nova era". São dele a idéia e o comando do "Jornal da Boa Notícia", há quase dez anos no ar, com a preocupação de, como o nome diz, ressaltar os fatos positivos do dia-a-dia. Quem ouve tem aquela sensação de que, apesar de todos os percalços, ainda há uma luz no fim do túnel para o Brasil, o mundo e para o próprio ser humano.
"Como as emissoras de rádio têm por obrigação dedicar uma hora de sua programação ao jornalismo, quando cheguei aqui, há cerca de dez anos, me indaguei: por que não criar um quadro só com boas notícias? Informações que orientem as pessoas e propaguem o bem, como é a filosofia desta rádio", justifica Ciglioni. O "Jornal da Boa Notícia", já perto de 40 mil edições, dura 2,5 minutos e vai ao ar de hora e hora. São duas notícias apresentadas por Walter Augusto e comentadas pela redatora Samira Chahine.
Ciglioni admite que com esse quadro está lançando uma campanha pela "boa notícia" entre os veículos de comunicação. "Conversei outro dia com o Heródoto Barbeiro, da rede CBN, voltada exclusivamente ao jornalismo, e ele me disse que ia reservar um espaço na sua programação, para mostrar sempre um fato positivo", conta. O próprio jornal O Estado de S. Paulo já fez isso numa de suas edições, segundo ele, quando ocorreu a queda do avião da TAM, no bairro do Jabaquara, em São Paulo. "Na ocasião morreram mais de 80 pessoas, o que foi destacado em manchete na primeira página. No entanto, colocaram uma outra manchete ao lado, mostrando que o desastre teria sido maior se o avião tivesse caído sobre um colégio vizinho."
Em âmbito internacional, Ciglioni lembra que o jornal alemão Bild reserva uma página diária à divulgação de boas-novas. Da parte dos leitores, começa a existir um movimento por notícias de cunho positivo. Exemplo disso foi a reação de um leitor à matéria publicada pela Folha de S. Paulo, há uns três meses, sobre a redução do "buraco na camada de ozônio", em razão de alguns países já estarem seguindo as orientações do chamado Protocolo de Kyoto. Como a notícia foi publicada num espaço reduzido, na seção de "Ciências" do jornal, o missivista lembrava aos editores que tal fato merecia no mínimo uma manchete de primeira página.
Linguagem de guerra Sobre a posição desse leitor, Frederico Ghedini, presidente do Sindicato dos Jornalistas no Estado de São Paulo, deduz que ela é decorrente de uma mudança de mentalidade. "A notícia sempre esteve associada à catástrofe ou à dinâmica dos acontecimentos, tanto que a linguagem utilizada é a de guerra, sempre de oposição ou comparação a uma idéia. A informação é a que destoa da realidade. Agora, não se pode dizer que uma notícia dessa natureza não venda jornal porque hoje existe uma preocupação das pessoas com assuntos ambientais e outros temas construtivos", diz.
Segundo Ghedini, é importante destacar que se houve a diminuição no buraco da camada de ozônio é porque alguns países europeus e o próprio Japão tomaram atitudes firmes, contra outros que nada fizeram, como os Estados Unidos. Ressaltar aspectos relevantes para o fortalecimento da sociedade deveria ser a principal preocupação dos jornalistas, afinal, para ele, quem faz o resultado social é a própria sociedade.
"Acho importante que o repórter procure a boa notícia, mostre quando e por que está ocorrendo uma melhoria na vida social, mas sem perder o senso crítico. Não podemos ser todos polianas e ver o mundo apenas pelo lado positivo. De qualquer forma, acredito que 'boas notícias' não empobrecem a discussão, ao contrário, dão um significado a esse debate", defende o sindicalista. Comenta ainda que esta é sua opinião como jornalista, mas que o sindicato da categoria tem todo o interesse de participar desse debate e incentivar iniciativas ou campanhas dessa natureza.
Bom dia para cima Independentemente de campanhas, a rádio Bandeirantes AM tem acordado seus ouvintes, desde 2001, com mensagens de alto-astral, através do quadro "Boas palavras", apresentado pelo publicitário Fernando Piccinini. O programa surgiu após um convite de Marcelo Parada, diretor da Rede Bandeirantes, que queria dar "um bom dia para cima". O sucesso da iniciativa está na média de 60 ou 70 mensagens de agradecimento recebidas por semana.
"São verdadeiros presentes, de gente que alega estar tocando a vida melhor ouvindo o 'Boas'; de pessoas que saíram da depressão, mudaram de atitude com seu parceiro afetivo. É muito bonito", comenta o apresentador. Todo esse sucesso não poderia ficar imune a alguma crítica, mas ela demorou a chegar. Foi em novembro último, quando um ouvinte, indignado, ligou para Maria Elisa Porchat, ombudswoman da rádio, dizendo que os temas eram chatos, que ele não entendia nada, que a voz de Piccinini era irritante.
O apresentador respondeu com toda educação e respeito, porque, segundo ele, todos têm direito de não gostar de alguma coisa. O fato de haver apenas uma voz discordante, diante de tantas a favor, mereceu um comentário da ombudswoman, mas a manifestação ajudou a abrir um canal maior à participação do ouvinte.
Mágica da voz Leitor de Allan Kardec, Buda, Jesus e outros grandes mestres, crente em Deus e "xereta", Piccinini conta que os temas dos comentários surgem porque ele pratica o "Boas" todos os dias. "Minha atitude diante da vida mudou depois dele. Procurei ouvir o que eu falava e assim a troca estava estabelecida. O alimento, a inspiração e os exemplos não param de surgir", apregoa.
Pelo rádio, esses exemplos ganham maior força, em razão da "mágica" da voz, que faz a diferença. O publicitário revela que foi desenhado por uma leitora, já adulta, que o imaginou velho, gordo, bonachão, com uns fios de barba, mistura de Papai Noel e Buda. Adorou. Da mesma forma como é apaixonado pelo veículo rádio, que considera instantâneo, melhor que a Internet; acredita que é o primeiro canal de informação às pessoas e até para as próprias fontes. "Eu digo que ouço rádio desde que estava na barriga de minha mãe; e quanto mais o tempo passa, mais ele é fundamental. Eu vivo sem tevê, mas não vivo sem rádio."
Apesar do contato diário com clientes de sua agência, Piccinini diz que não se preocupa em conseguir patrocínio para o "Boas". Ressalta que quem fala ali no rádio não é o publicitário, mas uma pessoa que acredita firmemente na possibilidade de viver num mundo melhor e mais justo. Ele conclui sua entrevista de forma, evidentemente, otimista: "Quando dizem que o fim do mundo está aí; na verdade, é o fim deste mundo injusto e cruel."
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