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Memória


Pelas mãos de Benedicto Calixto, é possível acompanhar a transformação de São Paulo, de uma cidade caipira e provinciana para uma grande metrópole
Texto: Margarete Azevedo

São Paulo como ela era


É provável que mesmo os mais descolados freqüentadores da badalada Praça Benedicto Calixto, no fervilhante bairro de Pinheiros, zona oeste de São Paulo, não tenham idéia sobre quem foi a pessoa que empresta o nome ao local. Aos sábados, então, a maior preocupação é com o que comprar no famoso "mercado de pulgas"; o encontro com os demais membros de suas tribos; ou com o movimento dos músicos e malabares que se apresentam na área. Mas se o assunto é arte, é importante saber que Benedicto Calixto de Jesus foi um autodidata. Desde cedo revelou vocação para a arte; foi pintor, professor, historiador e ensaísta.

Nascido em 14 de outubro de 1853, na Vila de Nossa Senhora da Conceição de Itanhaém, mudou-se ainda adolescente para Brotas, interior de São Paulo, onde passou a pintar seus primeiros quadros. Em 1871, aos 18 anos, realizou sua primeira exposição no Salão Nobre do jornal Correio Paulistano. Naquele mesmo ano, foi morar em Santos. Partiu para Paris, em 1883, onde permaneceu menos de um ano. Lá, freqüentou o ateliê de Jean-François Raffaelli e depois a Academia Julien, tendo aulas com os professores Gustave Boulanger, Jules Lefévre, Roberto Fleury e Bougnerau.

De volta ao Brasil, o artista realizou várias obras para o Museu Paulista, sob encomenda de Afonso Taunay. Produziu cenas da São Paulo antiga e paisagens, diversas baseadas em trabalhos de Hercules Florence (1804-1879) e de Militão Augusto de Azevedo (1837-1905). Por essa característica, sua obra é considerada documental, como conta o historiador de arte Dalton Sala, que integrou a equipe organizadora de uma exposição a respeito do artista, chamada "Memória Paulista", promovida no início da década de 1990, na Pinacoteca de São Paulo.

"Calixto era um pintor paulista, que se dedicou aos temas da cidade de São Paulo e do litoral paulista. Fixou cenas da praia de Itararé, em São Vicente, antes da industrialização e do 'desastre imobiliário e ecológico' verificado no litoral", enfatiza Sala, lembrando que, na sua produção, há também um aspecto ecológico. No tempo em que viveu em São Vicente, o lugar era limpo, possuía muita vegetação e hoje a situação é de total degradação. "Sua obra aponta para um desrespeito muito grande, esquecimento por parte do público e das autoridades em relação ao nosso patrimônio histórico e ecológico, pois, afinal, é o local onde foi fundada da capitania de São Paulo. A revalorização do trabalho de Calixto contribui para chamar a atenção para esse aspecto", emenda.

No livro Benedicto Calixto: memória paulista, publicado por ocasião da exposição na Pinacoteca, Sala, profundo conhecedor da obra do pintor, destacou: "Um segmento de sua obra busca cada vez mais um caráter documental, baseado em pesquisa e em registros fotográficos do passado. Muitos dos quadros do Museu Paulista, do Museu de Arte Sacra de São Paulo, da Fundação Benedicto Calixto e da Câmara Municipal de Santos reproduzem situações imagéticas, valendo-se de fotografias de terceiros, algumas vezes modificadas por dados obtidos em arquivos e sugestões de sua imaginação."

Segundo o historiador, Calixto desenvolvia estudos fotográficos preparatórios e uma minuciosa pesquisa histórica. "Ele foi pioneiro no uso da fotografia. Não só era um excelente fotógrafo como também a utilizava como base do seu trabalho." Apesar de não ter formação em história, era um estudioso. Escreveu os livros A Villa de Itanhaém, Notas e Informações Sobre os Sambaquis de Santos e Itanhaém, A Vila de Santo André da Borda do Campo e Notas de Arqueologia Paulista, entre outros. Quando pintava seus quadros históricos, procurava reconstituir, por meio de estudo, de documentação e de pesquisa, qual seria a real situação. "No Porto de Santos, ele, além de tirar uma série de fotografias, também consultou mapas e documentos antigos para ver onde os edifícios estavam situados no momento da pintura; e as ruas existentes naquele tempo. A cena se refere a 1822, mas ele a produz quase em 1922", comenta Sala.

Além de se dedicar à pintura documental, existe ainda o Calixto pintor religioso e de paisagens marinhas. Em toda a sua produção, há a preocupação documental. "As paisagens do Calixto não são meras pinturas. Hoje, elas servem como documento. Através delas é possível observar como era a Ilha Porchat antes da urbanização de São Vicente", exemplifica o historiador.

Um fato interessante é que Calixto trabalhava com os filhos, Sizenando e Pedrina. Apegado à família, o artista os ensinou a pintar, e eles, posteriormente, o ajudavam na produção das telas. Esse ateliê coletivo, a pintura feita dentro de casa, inclusive, confunde um pouco os historiadores porque muitos quadros são pintados a seis mãos e com diversas intensidades. "Com o tempo, aprendemos a reconhecer quais são as partes de Sizenando, de Pedrina e as de Calixto", expõe Sala. (M.A.)
Enchente na Várzea do Carmo

Em 1922, em comemoração ao centenário da Independência, quando Washington Luiz era presidente da Província de São Paulo, Benedicto Calixto produziu diversas obras para o Museu Paulista, sob encomenda de Afonso Taunay. Entre os vários artistas contratados para pintar cenas da São Paulo antiga e paisagens, o historiador de arte Dalton Sala o considera o mais talentoso, não só pela preocupação da pesquisa, mas porque era o melhor pintor. "A qualidade de sua pintura é superior. Quando observamos a obra 'Enchente na Várzea do Carmo' (foto), concluímos que não é qualquer um que faz aquilo. Claro que ele não é o Leonardo da Vinci", compara.
Ao contrário do que se pode imaginar, a obra de Calixto não eterniza o momento em que a cidade de São Paulo perde seu caráter "colonial" e "caipira". Sala menciona que na segunda metade do século 18, com a vinda de Morgado de Mateus e com a presença dos engenheiros militares portugueses, a região já sofre uma grande reforma urbana. No século 19, na época do café e do início da industrialização, São Paulo não é uma simples vila do interior. "Existe esse mito de que era uma cidadezinha, mas ela já era uma cidade cosmopolita", afirma.
O aspecto caipira da pintura de Calixto se aplica ao interior de São Paulo, onde o artista também viveu (Brotas). "Na Várzea do Carmo (refere-se à obra), dá para ver o tamanho da cidade. Calixto não só pinta os arredores em uma perspectiva muito aberta, como permite observar também em sua tela o Mercado, o comércio na General Carneiro e alguns edifícios próximos do Pátio do Colégio; do lado esquerdo, a estrada de ferro e a ponte; e, no centro do quadro, as chaminés das fábricas do Brás. Ele mostra uma cidade industrial que está nascendo. Isso não é provinciano nem caipira", opina Sala.
A obra destaca o transbordamento do Rio Tamanduateí, onde é hoje o Parque D. Pedro II. É uma prova de que enchentes não são novidade na paulicéia. As inundações causavam reflexos nas cidades do ABC, como São Caetano, São Bernardo e Santo André. E na pintura, o rio abre um abismo entre dois lados da cidade. (M.A.)

Serviço
A obra "Inundação da Várzea do Carmo" faz parte do acervo do Museu Paulista da Universidade de São Paulo - Parque da Independência, sem número, Ipiranga. Tel.: (11) 6165-8026
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