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Paulistanas
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A história nas mãos
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Escondida em São Paulo, dona Mocinha, irmã de Lampião, não se lembra mais do passado. Já sofreu demais
Texto: João Teixeira
difusor@uol.com.br
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Maria Ferreira Queiroz, dona Mocinha, de 94 anos, irmã de Virgulino Ferreira da Silva, o lendário cangaceiro Lampião, mora em São Paulo. Evita a imprensa e cobra cachês para dar entrevistas. A única irmã do mito nordestino evita curiosos e vive reclusa. Ao contrário de João Virgulino Ferreira da Silva, filho do cangaceiro, que mora em Osasco (Grande São Paulo) e há pouco tempo foi entrevistado na TV.
Reclusa como as estrelas de Hollywood, dona Mocinha fala baixo e o mínimo possível. Monossilábica, observa bem os visitantes. Só fala com conhecidos ou amigos. Tem a história nas mãos. Nós a encontramos lúcida, simpática e saudável, mas seu estado de saúde inspira cuidados médicos. Quase centenária, mora com os filhos e netos na zona norte de São Paulo. Trancada a sete chaves. Só a descobrimos com a ajuda do professor Antônio Amaury Corrêa de Araújo, seu velho amigo, pesquisador e escritor de livros sobre o cangaço.
Entrevistado pela equipe da Revista Kalunga, em 1999, no lançamento do livro De Virgulino a Lampião, o escritor tem mais oito livros. Lampião: Segredos e Confidências do Tempo do Cangaço (segunda edição) e Lampião: A Medicina e o Cangaço, com Leandro Cardoso Fernandes, foram lançados em dezembro último. Nos anos 70, tornou-se conhecido em todo o Brasil ao participar do "Programa 8 ou 800", da TV Globo, respondendo sobre o assunto. O Museu do Cangaço, cujo embrião guarda em casa, é sua próxima empreitada. Amaury já viajou 45 vezes ao sertão e ouviu mais de 6 mil pessoas sobre o fascinante tema.
Silêncio do medo
É Amaury quem nos leva até dona Mocinha, fonte que ele preserva com carinho, e mantém isolada, por respeito humano a uma pessoa que já comeu o pão que o diabo amassou. Afinal, ela é irmã viva de um dos fora-da-lei mais famosos do século 20, que rivaliza com Al Capone, Scarface ou Don Corleone da máfia italiana.
Consultor de universidades no Brasil e no Exterior, Amaury diz que a imprensa sensacionalista distorceu muito a imagem do cangaço. "O paraibano Ademar Vidal contava que ele e dois amigos enviavam notícias sobre os fatos do cangaço para os jornais do Rio e São Paulo. Fantasiavam e inventavam muito. Escreviam que Lampião passara em tal fazenda e lá havia matado uma pessoa que teve o corpo aberto. E também que teria estripado a vítima e medido o comprimento das tripas do cadáver! Exageravam as notícias, depois liam e riam muito."
Em contrapartida, parentes, amigos e conhecidos de Lampião sofreram muito nos cercos e perseguições policiais, nas tramas políticas, com chantagens, dor e morte. Os contratados das volantes eram mais cruéis que os cangaceiros que perseguiam. O povo penava. Os Ferreira viviam separados e sem sossego, amigos e parentes eram torturados. O pai de Dadá teve as unhas arrancadas; a mãe passou dias sem comer. "Nunca especulei nem procurei saber das coisas. Nunca gostei dessas histórias, eu só ouvia falar", diz dona Mocinha, arredia.
Pesquisas universitárias e discussões políticas investigam as circunstâncias políticas e sociais do fenômeno sertanejo. O professor Gregg Narder, da Universidade de Iowa (EUA), lançou o livro Entre a cruz e a espada, em português e inglês. Em Aracaju (SE), a jornalista Vera Ferreira, neta de Lampião, reúne especialistas no projeto Comando Virgulino, para escolares.
Realidade ou mito?
A cultura do cangaço se deu no "Polígono das Secas", nos Estados do Rio Grande do Norte, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia. Nascido em 1897, no sítio "Passagem das Pedras", em Riacho de São Domingos, perto de Serra Talhada (PE), terceiro de nove filhos de Maria e José, quem foi Lampião, afinal? Bandido, herói ou justiceiro? Para o historiador Luís Lorena, "foi tropeiro, bom menino na roça, bom amigo, bom filho, um sujeito correto. Não foi um cangaceiro, um bandido, por sua livre e espontânea escolha, mas, sim, por circunstâncias alheias à sua vontade".
A miséria e a injustiça seculares levaram Lampião à reação armada. Chamado pelo padre Cícero Romão Batista a Juazeiro (CE), em março de 1926, ele recebeu, do general Floro Bartolomeu (na verdade, um médico), uniforme e armamento do "Batalhão do Exército Patriótico" para combater os inimigos do governo, como por exemplo, a "Coluna Prestes", chefiada pelo líder comunista Luís Carlos Prestes.
Na verdade, as lutas de Lampião contra os oligarcas ocorreram mais por questões pessoais (vinganças) que por razões políticas ou de justiça social. Lampião não foi um Robin Hood, que tirava dos ricos e dava aos pobres, embora isso tenha acontecido várias vezes. Por exemplo: um inimigo de Lampião, o coronel Petrus, o havia denunciado às autoridades da Bahia após ter se negado a escondê-lo em uma de suas fazendas. Em represália, teve o gado e 32 fazendas queimadas. "A vida no cangaço não era de gente", comenta Mocinha.
Nomearam-no capitão. Lampião sonhava ser um grande senhor rural, longe do revolucionário transformador que tantos vêem; não queria derrubar pelas armas o regime político da Velha República. "Não lembro de mais nada, já falaram tudo", esquiva-se dona Mocinha, cuja família sofreu o pior preconceito na época. Seu irmão virou até referência histórica para o presidente Lula. "Queremos que a Justiça seja igual para todos e não uma Justiça que cuida com mais carinho dos que têm alguns contos de réis, como dizia Lampião em 1927".
É fato que Lampião revoltou-se e abraçou o crime para vingar a morte dos pais? Fantasia ou realidade? "É mito", garante Amaury. Depois que 11 cangaceiros e, inclusive, o "Rei do Cangaço" foram mortos, em 28 de julho de 1938, em Porto da Folha (SE), por 48 soldados do tenente João Bezerra, o cangaço durou mais dois anos. Suas cabeças ficaram expostas, durante 30 anos, no Museu Nina Rodrigues, em Salvador. Elas foram enterradas em 1969, encerrando o "movimento social que a historiografia brasileira procura omitir ao longo do tempo", opina um professor da PUC/SP.
Cinema e música
O cangaço inspirou obras literárias, musicais e cinematográficas. A partir de "O Cangaceiro" (Anselmo Duarte), nos anos 50, uma série de filmes abordou o tema: "Cabra Marcado para Morrer"; "Corisco, o Diabo Loiro"; "Deus e o Diabo na Terra do Sol" (Glauber Rocha); "A Morte Comanda o Cangaço" (Carlos Coimbra); e "O Baile Perfumado". "Lampião e Maria Bonita", da TV Globo, foi outra importante produção.
...é lampa, é lampa, é lampa/é lampa, é Lampião/seu nome é Virgulino, apelido Lampião...
No Raso da Catarina/só vai quem tem coração/vem gente de muito longe/visitar o capitão...
Se entrega Corisco/eu não me entrego não/não me entrego a tenente/não me entrego a capitão...
Dona Mocinha fala do Virgulino educado, homem de bons costumes que ela conheceu. Lampião gostava mesmo de brincar o Carnaval? "É outra mentira, isso nem existia no sítio onde nós morávamos." Ela guarda as imagens da infância, da vida de menina, dos irmãos crescidos. Eram nove, cinco homens e quatro mulheres, criados pela avó, Jacosa. Agora, ela vive no ambiente familiar, rodeada por alguns dos sete filhos, dez netos e 21 bisnetos. Nós a ouvimos por meia hora, muito pouco para conhecer aventuras de muitas luas.
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Serviço:
Antônio Amaury Corrêa de Araújo
Telefone (11) 6979-7757
Os atendimentos serão feitos mediante prévia marcação de visitas
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