Historiadores analisam os Pergaminhos do Mar Morto, deixados pelos essênios, e dão uma ducha de água fria nos recentes livros sobre teorias conspiratórias da Igreja
Muhammed ed Dhib, um simples pastor de ovelhas e cabras nas encostas do Mar Morto, região de Qumran, na Grande Fossa Africana, foi o responsável por uma das mais sensacionais descobertas arqueológicas do século 20: os Pergaminhos do Mar Morto. Em meados de 1947, quando pastoreava seus animais, ao lado de um companheiro, viu uma gruta, até então desconhecida, e resolveu atirar uma pedra pela abertura. O som que ouviu foi o de um jarro quebrado, que (descobriu mais tarde) era um dos guardados ali há mais de 2 mil anos por integrantes da seita dos essênios, antigos judeus moradores da região.
A descoberta deu início a uma série de escavações na região, entre 1951 e 1956. Foram vasculhadas 11 cavernas, numa extensão de 8 quilômetros quadrados, e encontrados os jarros com os pergaminhos, sete rolos de couro com livros da bíblia hebraica e outros materiais recuperados, como calçados e moedas. Os beduínos, profundos conhecedores da topografia local, tomavam a frente nas escavações e vendiam separadamente, a arqueólogos, colecionadores ou a quem pagasse mais, os rolos de pele de animais que encontravam.
Com o passar do tempo, todo esse material foi recomprado. As partes foram reunidas como um quebra-cabeça até chegar praticamente ao original. Os objetos integram o acervo do Instituto de Antiguidades de Israel do Museu Rockefeller, em Jerusalém, e, desde 1992, podem ser vistos em mostras que correm o mundo, como a que está sendo realizada até o dia 27 de fevereiro na Estação Pinacoteca, em São Paulo.
André Leonardo Chevitarese, professor do Laboratório de História Antiga da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), revela que o vastíssimo corpus documental escrito em hebraico, aramaico e grego, datado do final do 3o século a.C. ao ano 70 d.C., é de uma comunidade de judeus essênios das vizinhanças de Qumran, porém, existem achados de outros lugares. E, ao contrário do que muitos afirmam, não trazem informações a respeito de Jesus e João Batista.
O historiador destaca quatro pontos importantes. Primeiro, esses documentos não passavam por copistas; segundo, o judaísmo era muito plural (as concepções eram plurais); terceiro, os essênios trabalhavam com informações oriundas da Septuaginta, bíblia judaica produzida em grego. Por fim, verificou-se que os achados eram próprios da cultura judaica e não resultado de interações culturais com outros povos e religiões.
O judaísmo antigo dividia-se em vários grupos ou seitas com especificidades distintas. Havia os judeus do Segundo Templo, distribuídos entre saduceus (sacerdotais e aristocratas), fariseus (círculos laicos) e os essênios (separatistas do judaísmo), sendo boa parte deles celibatária. Viviam em comunidades fechadas, compartilhando entre si rituais sagrados de pureza, e tinham a percepção de que o mundo dos homens não era um lugar bom. Abstinham-se das práticas sexuais, porque eram consideradas pecaminosas, e da procriação, porque à medida que o ser humano se reproduzia também perpetuava o mal. "O fato de Jesus e João Batista terem sido celibatários é explicado na atitude dos essênios, ou seja, o pensamento não era estranho no judaísmo", enfatiza o professor.
Chevitarese diz que é incorreto afirmar que os essênios foram a ponte entre o cristianismo e o judaísmo, pois isso implicaria idéia de que as práticas cristãs dependeram dos essênios para existir. Na realidade, o movimento de Jesus foi paralelo e contemporâneo ao dos essênios e também do farisaísmo. "O cristianismo é uma seita originalmente judaica; só é possível entender o bem e a figura de Jesus e dos apóstolos por meio do judaísmo", destaca.
Não pode ser tomada como verdade a afirmação de que Jesus, em vez de fundar uma religião, quisesse apenas resgatar os valores do judaísmo. De acordo com a pesquisadora Júlia Bárány, que participou da tradução do livro Os Manuscritos do Mar Morto, de autoria de Geza Vermes, existiam várias comunidades espalhadas pelo Oriente que divergiam entre si quanto à orientação religiosa. "Historicamente, sabemos que não havia Igreja no cristianismo primitivo, mas sim comunidades. Quando a religião se espalhou, Roma teve a iniciativa de formar uma Igreja para unificar tudo isso", lembra.
Bem escondida Ao contrário dos atuais rolos do Tora, produzidos com couro de vaca, os pergaminhos encontrados em Qumran eram de pele de cabras ou de ovelhas. Graças às características climáticas da região, esses documentos conseguiram manter-se conservados por cerca de 2 mil anos. Situada próxima ao mar mais salgado do mundo, a área é considerada muito árida, imprópria à sobrevivência de qualquer tipo de peixe ou planta.
"A biblioteca dos essênios foi muito bem escondida. Você só guarda algo na esperança de um dia poder retornar para pegar. O fato de eles nunca mais terem voltado é intrigante, afinal, o que havia ali não era um material qualquer, mas, sim, obras sagradas muito importantes para essa comunidade", revela Chevitarese. O conflito com os romanos é apontado pelo historiador como o motivo principal do abandono dos documentos, pois grande parte da comunidade dos essênios que viviam em Qumran foi dizimada.
Nos textos escritos pelos essênios são encontrados alguns termos como "mestre da justiça" e "filhos da luz e da iniqüidade". O professor da UFRJ explica que mestre da justiça refere-se a uma liderança dentro da comunidade. O próprio Messias é uma autoridade do ponto de vista religioso ético e moral. "Por intermédio do mestre da justiça, eles acabam se vendo como pessoas quase purificadas, diante de um mundo que é mal; são praticamente os guardiães das leis de Deus", analisa.
Em contraposição a eles, estavam os filhos da iniqüidade ou das trevas, no caso, o grupo que controlava o templo de Jerusalém. "Os essênios se desentendem com os sumo sacerdotes designados para atuar dentro do templo, detentores do controle do calendário religioso, ritualístico. Eles se deslocam em direção ao deserto e passam a considerar esses responsáveis como impuros e sem autoridade religiosa e moral", conta Chevitarese, ao lembrar que esse tipo de comportamento é próprio no terreno religioso e de grupos sectários.
Conspiração Logo após a descoberta, com o início dos estudos dos documentos pelos especialistas, surgiram várias "teorias conspiratórias". A principal era de que o Vaticano não queria liberar os textos dos Pergaminhos porque poderiam trazer à tona fatos novos em relação a Jesus e à criação do cristianismo. Muitos acreditavam que era por causa do passado da Igreja Católica. "Ela sempre teve como objetivo principal passar aos seus fiéis uma doutrina coerente, tanto que, ao longo dos séculos, baniu os apócrifos e escolheu quatro evangelhos, considerados a palavra de Jesus. Para manter essa coerência, perseguiu quem discordava dela durante a Inquisição, ou seja, temos a heresia ao lado da história do cristianismo", comenta Júlia.
Chevitarese diz que essa teoria conspiratória só serviu para vender livros, como ocorre hoje. "O enredo é mais ou menos o seguinte: o Priorado de Sião detém uma importante verdade que um grupo da Opus Dei, a todo custo, tenta pegar", resume. Entre a descoberta do material e o início da publicação, se passaram pelo menos 20 anos, o que também levou à tese de um complô do Vaticano contra grupos judaicos. Vale lembrar que Israel era apenas um protetorado britânico na Palestina, e o material foi guardado pelos jordanianos. "Haveria lógica, caso ele trouxesse informações a respeito do cristianismo, mas, hoje, ninguém acredita nisso. Ele foi publicado e está disponível para pesquisa", conclui. (M.A.)
Serviço
Exposição: "Pergaminhos do Mar Morto: um Legado para a Humanidade"
No total foram 11 cavernas, nove anos de buscas, 15 mil fragmentos, mais de 900 pergaminhos, textos bíblicos, apócrifos e sectários. Até dia 27 de fevereiro é possível conferir: dez textos bíblicos, sendo três originais, dos livros Gênesis, Êxodus, Deuteronômio, Levítico, Salmos e Isaías; e artefatos arqueológicos do período, como vasos, potes e utensílios em pedra e cerâmica, moedas, objetos em couro, tecidos, entre outros, descobertos nas cavernas ou nas escavações de Qumran.
Estação Pinacoteca - Informações: (11) 3337-0185
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