Independentemente de resultados, alunos de vários colégios brasileiros estão mais empenhados em aprender tudo sobre os países participantes do mundial da Alemanha
Texto: Margarete Azevedo
Fotos: Isabel Mojica
Torcida uniformizada
A expressão pátria de chuteiras cunhada por Nelson Rodrigues nunca esteve tão em voga como nestes tempos de Copa do Mundo. O futebol toma conta não só das conversas de bares, como também na programação de muitas escolas das principais cidades brasileiras. Se no primeiro caso, os temas em discussão chegam a ser inconseqüentes, no âmbito pedagógico existe uma preocupação séria de como interligar o Mundial da Alemanha ao currículo ou ao cotidiano estudantil. É o caso da tradicional Escola da Vila, localizada na Vila Madalena, em São Paulo, que já colocou todos os seus alunos em ritmo de Copa do Mundo.
“Os alunos de primeiro, segundo e terceiro ano, além das roda de conversas, montam murais que são expostos nas salas de aula. A cada semana um grupo se responsabiliza pela troca de informações e também pela organização da tabela dos resultados dos jogos. Isso possibilita o aprendizado da leitura e trabalho com tabelas”, relata Ângela Crescenzo, orientadora do Ensino Fundamental. Outra atividade, nas terceiras séries, trabalha a descendência familiar dos alunos. “Com a Copa do Mundo dá para potencializar mais atividades, tais como localizar países no Atlas, estudar as bandeiras e alguns costumes”, cita. Na troca de figurinhas, crianças menores vão aprender números, e localizá-las no álbum; se o número em questão faz parte da família do cem etc.
A Escola Stance Dual, também de São Paulo, desenvolve um projeto para trabalhar todas as disciplinas de forma interdisciplinar. Por ser bilíngüe (português e inglês), a instituição trata as questões dos currículos nas duas línguas. O planejamento das atividades da Copa obedece a um roteiro rígido da 1a a 8a série, segundo a coordenadora de matemática Eliane Reame. Assim, cada série toma conhecimento sobre tudo o que ocorre com as demais. Os resultados e informações coletadas são apresentados em assembléias, seminários e painéis. “Para garantir a unidade do projeto, também há uma comunicação entre os assuntos específicos que foram escolhidos para o estudo entre as séries por diversos meios de comunicação”, enfatiza.
Além dos conteúdos que foram selecionados pelo professor, foi feito um levantamento daquilo que os alunos já sabiam sobre a Copa e o que eles gostariam de conhecer. “Evidentemente a matemática é o carro-chefe desse projeto, mas ela está integrada às demais disciplinas”, diz a assessora. Em ciências, por exemplo, está sendo feito um estudo da alimentação dos jogadores. O que é mais adequado antes e após o jogo, o papel dos carboidratos e a questão do condicionamento físico. Em geografia, são trabalhadas as distâncias entre o local em que os jogadores estão sediados e os estádios, e a capacidade de lotação desses lugares. “Tratamos a noção da ordem de grandeza desses locais comparados com os do Brasil. Por exemplo, quantos daqueles estádios menores da Alemanha caberiam num grande como o Morumbi”, acrescenta.
A ordem é estudar também os conceitos geométricos, o retângulo da grande área ou a semicircunferência que a completa. “Montamos uma trave de tamanho oficial e colocamos a criança no meio, para ela ter idéia do tamanho da mesma. Isso lhe oferece condições de entender porque o jogador mais alto é o goleiro”, justifica Eliane. Fora do campo, faz-se uma simulação dos custos de uma viagem Brasil-Alemanha para assistir a Copa; além do gasto diário com alimentação e hospedagem. Aspectos culturais e históricos, como a história da Copa do Mundo e da taça Jules Rimet, quem foi esse personagem, também têm destaque no projeto. “Os alunos traçam uma linha do tempo retratando as diversas copas. Sabem, inclusive, que na década de 1940 não houve o evento devido à Segunda Guerra Mundial. Isso demonstra as interferências de questões externas no futebol”, relata.
Tomada de consciência As influências por trás de um evento desse porte também fazem parte do projeto transdiciplinar de outro colégio paulistano, o Santa Maria, do qual participam cerca de 150 alunos da oitava série do Ensino Fundamental. Desde o final do ano passado, tudo o que é noticiado a respeito do tema torna-se material de consulta e pesquisa nas mãos dos estudantes, conforme a professora de educação física e coordenadora do projeto, Edinéa Daniel Carvalho. Ela destaca que o objetivo do trabalho não é o resultado do campeonato, mas fazer dos alunos cidadãos mais conscientes e críticos. “É preciso levar o estudante a refletir as interferências socioculturais, política e econômica no esporte. Para isso, eles desenvolvem pesquisas sobre questões relacionadas ao marketing, à mídia e à influência econômica”, informa.
As atividades escolares vão ultrapassar o período da Copa. Em agosto, as classes ainda estarão envolvidas na parte de tabulação dos dados e desenvolvimento de estatísticas e tabelas nas aulas de matemática. Na língua portuguesa, são trabalhados textos sobre preconceito; enquanto em história, serão pesquisadas a trajetória dos países e curiosidades sobre os estádios em que são realizadas as competições. Nas aulas de geografia, a proposta é construir um mapa da Europa e localizar em destaque a Alemanha para informar, por exemplo, sobre a dinâmica populacional do país por meio de gráficos.
“Na educação física, os alunos escolheram dois atletas, um do passado, que já foi jogador, e um do presente, e levantaram os dados biográficos de ambos”, revela Edinéa. Além disso, os estudantes avaliam as novas técnicas de recuperação do atleta, bem como as conseqüências do excesso de exercício físico para a saúde do jogador. Os trabalhos são expostos em um painel itinerante em formato de chuteira, nas cores da bandeira brasileira. A cada semana é destacado um assunto referente à competição. “Dados culturais, econômicos e populacionais das regiões onde serão realizados os jogos, o uso indevido de drogas lícitas e não lícitas, arquitetura e tecnologias utilizadas na construção dos estádios, entre outros temas, também integram os estudos”, adianta a professora.
Repercussão “É interessante conhecer aspectos que antes não tinha idéia que existiam”, comenta o aluno Caio Elias, 14 anos, do Santa Maria. Ele revela que gosta das disciplinas de educação física e de geografia. “Em educação física, além da pesquisa a respeito da vida de dois jogadores, o meu grupo ficou com o tema sobre a tecnologia dos estádios. Agora sabemos como eles funcionam”, acrescenta. Apesar do volume de atividades propostas, ele destaca que não teve dificuldades. “Na Internet a gente acha quase tudo”.
Colega de série de Caio, Laila Faleiros, 13 anos, conta que tem apreciado as aulas de história e ciências. “É interessante saber a respeito da preparação dos esportistas, dados das cidades onde serão os jogos, como um país se empenha para deixar os estádios melhores e as medidas de segurança para evitar ataques terroristas.”
Luiza Salim, 14 anos, não esconde a paixão pelo futebol e demonstra o engajamento com as atividades. “Quando gostamos do assunto nos empenhamos muito mais”, afirma. Acrescenta que, através dos trabalhos, descobriu detalhes sobre os atletas, do país sede do evento e da tecnologia dos estádios. “Conheci diferenças entre a Alemanha e o Brasil, dos clubes em que o Garrincha atuou e que ele morreu por causa da bebida (álcool). Sobre o Kaká, que é mais atual, soube que ele é evangélico”, finaliza.
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