Autor de dez livros de sucesso, que já venderam mais de 5 milhões de exemplares, o consultor organizacional Roberto Shinyashiki vem de uma família humilde. Sua mãe queria vê-lo "doutor", mas ele sonhava com uma banda de rock.
Formou-se médico-psiquiatra, com o objetivo de ajudar as pessoas. Com o passar dos anos, abandonou o consultório, mas não o seu ideal. Reconhecido hoje como um "especialista em gente" e também em negócios, tornou-se conferencista de renome internacional. Entre seus principais livros, estão A Revolução dos Campeões, O Sucesso é Ser Feliz, Os Donos do Futuro e Amar Pode Dar Certo. Nesta entrevista, Shinyashiki fala sobre sua carreira, desenvolvimento pessoal, qualidade de vida e desafios.
Texto: Margarete Azevedo
Um especialista em gente
Quais eram, na adolescência, as suas expectativas com relação à vida adulta? Tive uma infância muito pobre em Santos (SP). Minha mãe, empregada doméstica, sempre dizia nos encontros com as amigas que eu seria "doutor". Elas riam, afinal de contas, "como um moleque pobre da Vila Margarida (hoje, é um lugar muito humilde, imagine há 40 anos) poderia ser doutor?". Na verdade, naquela época, eu queria ter uma banda de rock.
O que o levou para a medicina? Minha formação é em psiquiatria e, desta forma, o que mais sei fazer é entender de gente. Ingressei na Medicina com o propósito de ajudar pessoas. Sou apaixonado pelo meu trabalho e essa paixão também me inspira a inovar e aprender sempre. Palestrar é uma forma de viabilizar isso e atingir também um grupo maior de pessoas. Sou palestrante há 20 anos e parei de clinicar desde aquela época. Para me tornar um palestrante realmente qualificado, estudei nos Estados Unidos, na Europa, no Japão e, atualmente, faço doutorado em Administração na USP.
Na sua opinião, como o brasileiro se comporta diante do mercado de livros de auto-ajuda? No Brasil, não definimos muito bem o que é livro de auto-ajuda. Por exemplo, um livro de Jim Collins, Feitas para durar, é de auto-ajuda ou não? Possivelmente, quem ler vai tirar conclusões e mudar algo na maneira de agir profissionalmente ou administrar a empresa. Para mim, o livro de auto-ajuda leva a pessoa a analisar seus procedimentos como profissional e gestor e, a partir das reflexões, fazer mudanças. Acho perigoso uma pessoa que não tem conhecimento sobre o meio empresarial escrever para empresa. Quando isso ocorre com os esportistas, eles acabam falando o inevitável: "Garra! Motivação! Espírito de equipe!". Hoje em dia, é muito pouco para as necessidades de uma companhia.
De que maneira você recarrega as suas energias? No dia-a-dia, gosto de coisas simples. Adoro ficar em casa com minha mulher e meus filhos, que são fontes constantes de energia para mim. Ao mesmo tempo, procuro reservar algum tempo do meu dia para meditar. É revigorante correr na USP e buscar novidades nas lojas de música das galerias do centro da cidade, para alimentar meu hobby de guitarrista, cultivado desde a adolescência. Tocar rock com amigos no Dinossauros Bar, em Pinheiros (bairro de São Paulo), também é uma prática de relaxamento.
Você sabe lidar melhor com seus conflitos pessoais? Perfeito, só Deus. O ser humano é um aprendiz em busca da sabedoria. Quando alguém de minha empresa vem reclamar de outra pessoa, procuro escutar com paciência e, no fim do desabafo, costumo brincar: "Sabe, vou contar um segredo. Com exceção de nós dois, todo mundo é imperfeito. É importante lembrar que eles são humanos, não são deuses como eu e você." Em geral, depois desse comentário, damos boas risadas.
Quais os objetivos dos temas de seus livros? A angústia tem andado lado a lado com as pessoas. Minha intenção é despertar a motivação nelas para cuidar-se melhor, sem medo de olhar para dentro de si e descobrir uma força interior suficiente para assumir o comando de suas vidas. Como digo num livro: "Felicidade é como dieta. Todo mundo sabe o que tem de fazer para conseguir seu objetivo, mas a maioria não põe em prática esse conhecimento." Essa é a grande magia, que faz um livro se tornar best-seller. No âmbito empresarial, uma das maiores preocupações dos empresários é encontrar verdadeiros líderes para suas empresas. Um líder que dê resultados efetivos não é fácil de ser encontrado no mercado.
As pessoas tendem a aumentar seus problemas. Elas dão muita importância a eles? Uma das batalhas da minha vida tem sido mudar a mentalidade das pessoas que fazem de seus problemas o maior empecilho de serem felizes. Querem me convencer de que problemas grandes são sinônimo de infelicidade. É mentira! A vida é um constante exemplo de pessoas que são felizes apesar de problemas dramáticos. Há empresários que perdem suas empresas e experimentam o gosto amargo do fracasso. Em períodos de crise, quantos profissionais são demitidos, mergulham em um novo projeto e vão para uma empresa muito melhor. Quantas pessoas experimentam dramas na vida, mas fazem dessa dificuldade o alimento do seu espírito e transformam as suas vidas? As dificuldades não estão baseadas no tamanho dos problemas, mas, sim, na capacidade de lutar para virar o jogo. Portanto, logo após sentir a dor gerada por uma adversidade vá atrás de uma solução, porque esse é o caminho para deixar a existência leve. Chorar em um momento de infortúnio é normal, porém, ficar chorando a vida inteira é masoquismo.
Por que algumas pessoas são ávidas pelo tema auto-ajuda e outras simplesmente o abominam? Eu, particularmente, não gosto de nada que dê uma solução definitiva, porque, em geral, não há um jeito certo para fazer algo, seja na felicidade ou na carreira profissional. Você tem que ajudar a pessoa a encontrar sua vocação, seus talentos e, a partir deles, desenvolver as competências - sempre de um jeito muito próprio. Sou muito crítico com os MBAs e livros de auto-ajuda que procuram transformar os novos profissionais em "cover" de Bill Gates e Jack Welch. É muito diferente ser presidente de uma multinacional, que é a maior do mundo, com muito dinheiro à disposição, e ser o presidente de uma empresa no Brasil com um custo altíssimo. Os profissionais que arrebentam encontram formas muito particulares; precisamos ter muito cuidado com essas fórmulas.
Todo livro de auto-ajuda traz algum benefício? Temos um boom de auto-ajuda porque as respostas para os desafios mudaram. Vivemos em uma época em que as pessoas não têm mais respostas. Há um tempo, se educava os filhos de uma forma predeterminada: os pais mandavam e eles obedeciam. Agora, não há uma única resposta. No casamento, o homem saía para trabalhar e a mulher ficava em casa; na empresa, um mandava e o outro obedecia. Com a transformação do mundo, não há mais uma fórmula certa ou única. Mas o que faz um livro de auto-ajuda funcionar, ou seja, ser eficiente? O livro ou o curso passa conhecimentos, porém, a qualidade de vida ou da carreira de uma pessoa depende de três fatores: conhecimento, atitude e ação. Não adianta fazer um curso ou ler um livro se não colocar em prática o que aprendeu.
Quais são os problemas que mais trazem angústia às pessoas? Muitas pensam que a felicidade será possível somente depois de alcançar algo. A sociedade, tal como se apresenta hoje, também contribui para a substituição dos sonhos por destruição. Na adolescência, queremos viver um grande amor, mas depois dominamos a pessoa amada. Na juventude, sonhamos criar um mundo melhor, mas, depois de algum tempo, só pensamos em juntar o máximo possível de dinheiro. Queremos ser amigos de nossos filhos, porém, exigimos deles obediência incondicional. As pessoas substituem a ingenuidade pelo realismo e chamam isso de maturidade. Na verdade, o que ocorre é um empobrecimento da vida. Os sonhos vão se atrofiando e diminuindo, até reduzir-se a prêmios de consolação. Todos apostam em suas vidas, mas poucos conseguem sua realização pessoal. É triste ver tanta gente correndo atrás das ilusões.
O brasileiro costuma fazer papel de vítima? Ele dá muito valor às notícias ruins. Acho que há uma cultura do pessimismo enraizada no nosso povo. Mesmo nos anos em que realizamos o chamado "milagre brasileiro", a impressão era de que os problemas nunca acabariam. Os realistas enfrentam as intempéries sem dramas e saem na chuva, como qualquer trabalhador que precisa cumprir sua jornada diária numa fábrica, independentemente das variações do tempo.
Quais são os grandes desafios do ser humano hoje? Buscar competência! As pessoas competentes são procuradas e desejadas pelas empresas. Há quem perca o emprego por um golpe do destino, porém, a pessoa que fica desempregada por seis meses deve fazer essa reflexão: é preciso ser competente para ser competitivo. Todo mundo quer ser feliz, porém, poucas pessoas entendem que a felicidade se baseia na competência. Quem se dedica a um projeto, mas não tem capacidade para realizá-lo, inevitavelmente se sentirá frustrado.
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