Associação paulistana ensina o que há de mais puro nas artes marciais japonesas, as mesmas praticadas pelos samurais há milhares de anos. Não é preciso força, só habilidade, concentração, disciplina, honra etc.
Fotos: Isabel Mojica
Escolha suas armas
Disciplina, agressividade e concentração, qualidades quase sempre atribuídas aos orientais no ambiente empresarial, têm antecedentes no passado. Eram também virtudes exigidas dos samurais, guerreiros japoneses que ganharam destaque em livros como Musashi - A história do mais famoso samurai, de Eiji Yoshikawa (Editora Estação Liberdade), A Arte da Guerra, de Sun Tzu (Record), e A História dos Samurais, de autoria de José Yamashiro (Editora Ibrasa). No Brasil de hoje, o Kobudo (Ko = Antigo, Budo = Caminho Marcial), que reúne as artes marciais japonesas, pode ser praticado no Instituto Niten, organização que há 12 anos procura preservar e transmitir o legado dos samurais. Lá, os cerca de 800 alunos inscritos podem optar pelas aulas de kenjutsu, iaijutsu, jojutsu ou kendo.
"Ensinamos a arte tradicional do guerreiro japonês, que conserva algumas técnicas idênticas às da época em que foram criadas. Elas receberam adaptações, como o uso de espadas de bambu e armadura na luta de combate", conta Sidharta Sanches Rezende, coordenador-geral do Instituto Niten. A espada já desembainhada, a espada de bambu e a armadura são usadas no kenjutsu, (ken = espada, jutsu = luta), como faziam os antigos samurais. No iaijutsu, aprende-se a desembainhar a espada (neste caso, a katana - espada real) com velocidade e eficiência, como forma de defesa. Rezende explica que, com o tempo, a técnica evoluiu com influência zen e hoje ela é conhecida como a arte do chá das espadas, repleta de formalidade e de simbologia.
O jojutsu (jô = bastão, jutsu = técnica), conhecido como a arte do bastão, exige um objeto de 1,28 m, com o qual se pode vencer a espada. "Existem vários estilos de Jo, o que praticamos é o mais conhecido no Japão e foi desenvolvido pelo samurai Muso Gonnosuke. A lenda diz que ele criou esta arte para vencer Myamoto Musashi, o maior samurai de todos os tempos. Nos estilos de Musashi, são utilizadas duas espadas, e no de Muso Gonnosuke, emprega-se o bastão", diz o coordenador. Lembra que a prática do kenjutsu facilita a do kendo, feita com equipamento de proteção chamado bogu. "O contrário não ocorre, pois um trata-se de modalidade esportiva e o outro da arte dos samurais", define.
Durante o treinamento ou kata, os alunos aprendem várias técnicas (waza) e posturas (kamae) e têm contato com o Bushido, o modo de ser do samurai, código de honra e ética. Ele valoriza virtudes como honra, lealdade, gratidão, polidez, coragem, retidão e sinceridade. "É a parte da conduta que se aprende na aula, por meio dos ensinamentos do sensei (mestre) Jorge Kishikawa", comenta Rezende. Discípulo de Tsunemori Kaminoda, 26º sucessor de Muso Gonnosuke, guerreiro do início do século 17, Kishikawa é introdutor do kenjtsu no Brasil, fundador do Instituto Niten e criador do método KIR (Ken Intensive Recuperation). É o equivalente em português à recuperação intensiva por meio da espada.
Caos organizado Os treinos de dezenas de pessoas - crianças, adolescentes e adultos, de ambos os sexos - no dojo (academia) duram pelo menos duas horas. Eles vestem o hakama (parte inferior, semelhante a uma saia, que tem sete vincos e representa as virtudes do Bushido), o keikogi (parte superior) e o obi (faixa). Com espada em punho e movimentos sincronizados, os aspirantes a samurais gritam palavras específicas em japonês. Alguns vestem também o bogu (armadura), constituído de men (capacete), do (proteção para o torso), kote (espécie de luvas) e o tare (proteção para região do abdome).
Para quem está de fora, a cena pode parecer caótica, mas é só impressão. Além de estarem divididos em níveis diferentes, todos permanecem muito concentrados no exercício, pois basta um piscar de olhos para serem atingidos. "No Japão, acredita-se que a energia interna, chamada ki, só é colocada em movimento quando há o grito. À medida que a pessoa grita, ela deposita a sua energia na ação. Ou seja, há a intenção de aniquilar o adversário por meio do kiai (grito)", explica Rezende.
Além do kiai, de acordo com o golpe, são utilizadas outras expressões. Ao acertar a cabeça, deve-se gritar men; o torso, o brado, do; e o antebraço, kote. Os nomes correspondem às peças do bogu. Devem ser proferidos com intensidade, porque para um golpe ser válido precisa ter o que chamamos de ki-ken-tai ichi. Ki é espírito, ken é espada, tai é corpo; tudo tem que estar unido num só (ichi). Ao final do treino, todos colocam as espadas no chão. Não é permitido passar sobre elas, mas ao lado. Inicia-se então Bushido, os 15 minutos finais da aula conhecidos como momentos de ouro. A exemplo de outras artes marciais, à medida que o aluno evolui, sobe de graduação. Os mais avançados, chamados de dans, são equivalentes à faixa preta em outras modalidades.
Motivos variados Para muitos alunos, as duas horas de treinamento intensivo são mais do que um treino físico. É também um trabalho de condicionamento interno onde se busca o autoconhecimento e o aprimoramento pessoal. "Tudo que é ensinado pode ser aplicado no cotidiano. No kamai (fortaleza), a pessoa precisa estar pronta para tudo, para atacar ou defender. No dia-a-dia, por exemplo, quando vou para uma reunião, devo ter essa postura para defender minhas idéias. A atitude que vou adotar ali naquela hora é uma questão de visão. Não adianta sacar a espada e atingir o outro. Antes é necessário preparo", compara o designer de automóveis Fabrício Marcel Toscano, 30 anos.
A estudante Aline Sayuri Cawamura, 16 anos, comenta que só teve benefícios depois que passou a fazer kenjutsu. "Costumava fugir das situações, mas na luta é preciso enfrentar tudo. Acho que é a mesma coisa com os problemas do dia-a-dia, como escola e família", comenta. Já seu irmão, o estudante Flávio Cawamura, 19 anos, chegou ao kenjutsu impulsionado pelo interesse na cultura japonesa. "O nosso sensei Jorge Kishikawa traz ensinamentos que podem ser aplicados diariamente. A própria filosofia do kenjutsu, que visa aplicar um golpe perfeito, é uma lição. Ainda não consegui alcançar a perfeição, mas busco atingi-la", afirma o estudante.
O resgate das origens, dos costumes e das tradições japonesas levou o consultor de informática Rubens Ogushi, 43 anos, a freqüentar o dojo. Pouco tempo depois de ter iniciado a prática do kenjutsu, seus filhos, de 7 e10 anos, passaram a lhe fazer companhia nos treinos. Segundo ele, por atuar em uma área estressante, buscava uma atividade que fosse completa, tanto para a parte física quanto para a mental. "Estava sedentário há dez anos. Aqui, encontrei justamente o que procurava, porque o treino é extenuante. No final, há o Bushido, que faz parte da filosofia na qual são pregadas disciplina, coragem, honra, hierarquia e retidão", enfatiza.
Praticante de ioga há cinco anos, o designer gráfico Eduardo Tanoeiro, 31 anos, diz que a espada é apenas um dos caminhos pelos quais busca o autoconhecimento. "Não é simplesmente a arte marcial pelo combate. Há um fundamento que permite levar os ensinamentos para a vida diária. Aprendemos a ter a mente preparada para enfrentar todas as adversidades à medida que elas aparecem, seja em casa, no trabalho, nos relacionamentos pessoais etc.", conclui. (M.A.)
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