A opção pelo filho único ganha cada vez mais adeptos nos dias atuais. Na contramão do que recomendam os psicólogos, casais atribuem o fato à economia e até à insegurança dos grandes centros
Só um retrato na parede
Quem nunca viu uma família numerosa, com mais de cinco ou seis filhos, provavelmente jamais verá nos dias de hoje, a não ser nos velhos álbuns de fotografia. Isso porque se, há alguns anos, a opção de ter apenas um filho era rara entre os casais, hoje, é quase uma unanimidade por conta de diferentes argumentos. As desculpas vão do alto custo de vida ao encarecimento da educação privada, passando pela instabilidade econômica, inconstância dos relacionamentos pessoais e mesmo de opção pela maternidade tardia. São tantas as alegações que sobra até para o aumento da criminalidade e a falta de tempo.
A comprovação desses dados é feita pelo Censo Demográfico de 2000, no item Nupcialidade e Fecundidade, dando conta de que, entre os anos 1991 e 2000, a fecundidade no Brasil declinou 17,73%, com maior ênfase nas áreas urbanas. Como resultado dessa realidade, um novo modelo de família tem se tornado muito freqüente: casais com um filho só. Para alguns especialistas, a opção por um rebento apenas é polêmica, pois é comum os adultos concentrarem nessa pessoa todas as suas expectativas.
"Eu costumo conversar com os pais a respeito da importância de ter um segundo filho, porque se eles perderem o único descendente, a vida deles seria afetada demais. Além disso, um casal com prole maior tem mais possibilidades de dividir suas expectativas entre os filhos", diz a psicóloga e pedagoga Maria Guimarães Drumond Grupi, diretora da Ponto Ômega Centro de Cuidados Infantis.
Na avaliação da especialista, o fato de ter concentrado em si todos os anseios paternos leva o filho sem irmãos a acreditar que sempre desagrada os pais quando não consegue se enquadrar no modelo dele esperado. Não conviver com outras crianças é também um ponto negativo no desenvolvimento infantil. Para a psicóloga, essa não-convivência o impede de conhecer e respeitar a necessidade do outro, de aprender o valor de compartilhar, de emprestar, de ser amigo, entre outros. "As pessoas dão importância para as coisas apenas quando as vivenciam", emenda.
Outra questão geradora de debates e divergências de opinião diz respeito ao conceito de que toda criança sem irmãos é mimada, autoritária e egocêntrica. "O reizinho ou a rainha da casa não é um estereótipo, mas, em muitos casos, uma verdade. Ela não aprende a lidar com as frustrações, porque sempre tem alguém disponível para atender aos seus desejos", indica a psicóloga. À medida que cresce, consegue disfarçar, mas não enfrentar essa realidade. "A criança deixa de vivenciar experiências nas quais poderia aprender a lidar com as suas frustrações. Permanece em uma situação autocentrada. Quando isso ocorre, fica emocionalmente pequena; torna-se um adulto com poucos recursos emocionais e sociais. O que faz a diferença entre uma criança pequena e um adulto jovem é a capacidade de postergar as suas necessidades", afirma.
Sexo masculino Com o objetivo de avaliar o filho único em seus relacionamentos com pais e amigos, seu desempenho escolar e comportamento social e sexual, pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) realizaram um estudo junto a 360 adolescentes com idade entre 15 e 19 anos. Os participantes, estudantes do terceiro ano do ensino médio de uma escola privada de Porto Alegre, responderam a um questionário em sala de aula. Nele, apresentaram dados a respeito da educação dos pais, ordem de nascimento (se era filho único, primogênito ou não-primogênito) e, ainda, acerca de tabagismo, consumo de bebidas alcoólicas e uso de drogas ilícitas. O desempenho escolar e as atividades social e sexual desses jovens também fizeram parte da pesquisa.
O estudo publicado na Revista Brasileira de Psiquiatria identificou que 8,1% dos entrevistados eram filhos únicos; 34,7% primogênitos; e 57,2% dos adolescentes possuíam irmãos e não eram primogênitos. A maioria dos filhos únicos era constituída de homens, com idades entre 15 e 16 anos. A prevalência de 8,1% de filhos únicos está de acordo com a redução do tamanho médio das famílias, detectada pelo IBGE, particularmente entre as de maior nível socioeconômico.
De acordo com a epidemiologista Sandra Costa Fuchs, do Departamento de Medicina Social da UFRGS, todas as comparações foram feitas entre três categorias: filhos únicos, primogênitos e não-primogênitos. As conclusões são de que o filho único não está associado com o pior desempenho em diversas áreas do desenvolvimento. Destaca o melhor desempenho escolar dos filhos únicos (17,2%), com notas de 9 a 10, versus 5,6% dos primogênitos e 2,9% dos não-primogênitos. Os filhos únicos também se mostraram menos propensos a beber em excesso (39,3% versus 68,9% e 72,3%, respectivamente).
Internet
Quanto ao menor consumo de bebidas alcoólicas, o estudo diz que pode ser creditado a uma maior supervisão direta dos pais, pelo fato de terem menos filhos. Ele contraria também o conceito de que pessoas sem irmãos são mais introspectivas ou tímidas, quando comparadas com os primogênitos e não-primogênitos. Mostra que não há diferenças significativas quanto ao hábito de ir a festas, namorar e praticar esportes. Apesar disso, o acesso à Internet, uma atividade individual e sem interação pessoal, é mais adotado pelos filhos únicos. "O tempo despendido em navegação na Internet, 20,7% pelos filhos únicos, comparativamente é bem maior que os 8,3% dos primogênitos e 7,4% dos não-primogênitos, ou seja, passavam três horas ou mais por semana", esclarece Sandra.
A pesquisa da UFRGS concluiu também que a maioria dos filhos únicos era do sexo masculino (62,1%) contra 49,6% de primogênitos e 44,7% de não- primogênitos. Cerca de 10,3% dos filhos únicos residiam com os avós contra 2,4% dos filhos primogênitos e não-primogênitos. Quanto ao relacionamento com os pais, 87% dos escolares afirmaram que é bom ou excelente.
Quando a temática é comportamento sexual, a pesquisa revela que os filhos únicos iniciam a atividade sexual mais precocemente quando comparados aos que têm irmãos. Além disso, no primeiro grupo foi menor a taxa de auto-identificação como heterossexual. Os resultados refutam dados de pesquisas anteriores de que a identidade homossexual estaria associada a um maior número de irmãos. "É possível que nossos achados reflitam mais uma associação entre ser filho único e um maior tempo para amadurecimento da identidade heterossexual do que propriamente uma associação com identidade homossexual estabelecida", concluem os pesquisadores.
(M.A.)
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