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Especial


Se no plano político-comercial, o Mercosul derrapa; no ambiental, Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai dividem "hermanamente" no subsolo o Aqüífero Guarani, uma das maiores reservas de águas potáveis do mundo
Texto: Margarete Azevedo

Onde o Mercosul faz água


O planeta Terra tem 70,7% de sua superfície coberta pela água, mas, desse total, 97,5% são impróprios ao consumo humano. Os 2,5% de água potável que nos resta equivalem a mais de 1,3 bilhão de km3 e ocupam uma área de 34,6 milhões de km2. Ainda assim, conseguimos ver muito pouco da água a que temos direito: apenas 0,3%, que está presente em rios, nascentes e lagos. O restante, 0,9%, integra a umidade do solo e os pântanos; 68,9% encontram-se nas geleiras, calotas polares ou regiões montanhosas; e 29,9% é o que chamamos de águas subterrâneas, entre dez e centenas de metros do solo. São dessas águas que iremos tratar nesta matéria.

Águas subterrâneas estão relacionadas a alguns conceitos básicos estudados nas aulas de Ciências, tais como evaporação, condensação e precipitação. Elas cumprem uma fase do processo porque são provenientes da chuva. No solo, preenchem os poros ou vazios intergranulares das rochas sedimentares ou as fraturas, falhas e fissuras das rochas compactas. "No Brasil, as reservas de água subterrânea são estimadas em 112 mil km3. Abastecem cerca de 61% da população, para fins domésticos, e, desse total, 6% se auto-abastecem das águas de poços rasos; 12% de nascentes ou fontes; e 43% de poços profundos. A Unesco estimava, em 1992, que mais de 50% da população mundial estaria sendo abastecida pelo manancial subterrâneo", diz a bióloga Nádia Rita B. Borghetti, pesquisadora do Grupo Integrado de Aqüicultura e Estudos Ambientais (GIA), da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

A distribuição das águas subterrâneas é variável. Pesquisadores estimam que elas sejam cem vezes mais abundantes (10.360.230 km3) que as superficiais dos rios e lagos (92.168 km3). A magnitude desse volume tem sido conferida nos aqüíferos, cujo significado é: aqüi = água; fero = transfere. "Muitas pessoas imaginam que um aqüífero seja um grande oceano subterrâneo, que o líquido fica em uma superfície vazia, porém, a imagem ideal seria a de uma grande esponja", comenta o professor do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo, Paulo César Boggiani. Os aqüíferos, na verdade, são formações geológicas do subsolo, compostas por rochas permeáveis, que armazenam água em seus poros e fraturas. "Os melhores tipos de rochas para ter água subterrânea são as sedimentares. Entre elas, está a de arenito, que é formada pelo acúmulo de grãos de areia", explica Boggiani.

Segundo o professor, a rocha para ser um bom aqüífero tem de ser porosa e permeável. Para que isso ocorra, é necessário existir comunicação entre os vazios. "Os poros da rocha são vazios. É possível que ela seja cheia desses espaços, no entanto, eles podem não se comunicar entre si. Não é em qualquer lugar de um aqüífero que encontramos o líquido." Isso tem sido observado no Aqüífero Guarani, um reservatório de 1,2 milhão de km2, considerado um dos mais importantes do mundo. "O Guarani está inserido na Bacia Geológica Sedimentar do Paraná, sob o Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina, e constitui uma importante reserva de água subterrânea da América do Sul, com aproximadamente 46 mil km3", explica Nádia, co-autora do livro Aqüífero Guarani: a Verdadeira Integração dos Países do Mercosul.

Pré-história
No Brasil, essa "esponja" gigante se estende pelo subsolo de oito Estados: Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, em cerca de 1.443 municípios. "A população na área de afloramento é de aproximadamente 2,6 milhões de habitantes. Apenas uma capital, Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, está situada sobre a Formação Serra Geral, sobrejacente ao Aqüífero Guarani. O Mato Grosso do Sul é o Estado brasileiro com a maior área do Guarani (25%), seguido por Rio Grande do Sul e São Paulo, ambos com cerca de 20%. Paraná tem 16%; e Minas Gerais e Santa Catarina, aproximadamente 6% cada um", detalha a pesquisadora.

O Aqüífero Guarani originou-se há cerca de 190 milhões de anos, numa região que fazia parte de um deserto pré-histórico existente no continente Gondwana. "Os ventos acumularam grandes depósitos arenosos, que formaram um extenso campo de dunas, aos poucos, recoberto por um episódio de vulcanismo intracontinental, cuja lava solidificada originou a Formação Serra Geral. Ela vem a ser uma capa protetora do Aqüífero Guarani", conta Boggiani. O Gondwana, no final do Paleozóico, era formado pela América do Sul, África, Antártida, Nova Guiné, Nova Zelândia, Índia, Madagáscar e Austrália. Já a América do Norte, a Ásia e a Europa formavam a Laurásia. A separação da Laurásia da Gondwana se deu no Mesozóico. "As origens do Aqüífero Guarani podem ser explicadas nos arenitos encontrados nas formações de Pirambóia e Botucatu. Na África deve existir um aqüífero com características semelhantes ao Guarani", afirma o professor da USP.

O nome Aqüífero Guarani surgiu de maneira informal em 1994 e foi oficializado dois anos depois pelo geólogo uruguaio Danilo Antón. Até então, o grande corpo de arenito recebia nomes diferentes nos quatro países - Misiones no Paraguai, Botucatu no Brasil e Tacuarembó na Argentina e Uruguai. A denominação é uma homenagem aos índios guaranis que habitavam a área de sua ocorrência na época do descobrimento das Américas. "O Brasil é o país com a maior área do Aqüífero Guarani (840 mil km2 ou 70,2%), equivalente a 10% do total do território nacional. A Argentina tem 225.500 km2 (18,9%); o Paraguai 71.700 km2 (6%); e o Uruguai 58.500 km2 (4,9%)", explica a bióloga Nádia.

Tipo assim meio poroso
A constituição geológica dos aqüíferos determina a sua origem: se é fluvial, lacustre, eólica, glacial, aluvial, vulcânica ou metamórfica. O Aqüífero Guarani, do tipo poroso, tem cerca de 90% de sua área total recoberta por rochas basálticas da Formação Serra Geral, ou seja, somente 10% de suas reservas estão próximas à superfície, definidas como áreas de afloramento. A sua espessura varia de 10 metros a mais de 800 metros. Quanto mais ampla, maior a sua capacidade de armazenamento e de produção de água. "Em alguns pontos são possíveis extrações acima de 400 mil L/h/poço", informa a bióloga Nádia Rita B. Borghetti, da Universidade Federal do Paraná (UFPR). A idade das águas armazenadas em alguns aqüíferos pode chegar a 30 mil anos. Nessas áreas, a água não é renovável e a exploração pode levar ao esgotamento.

Os aqüíferos são recarregados de forma direta ou indireta pela infiltração das águas da chuva ou por outras fontes subterrâneas de água. A bióloga alerta que as áreas de afloramento do Aqüífero Guarani são as mais suscetíveis à contaminação. "A construção de poços rasos e profundos, operados e abandonados sem tecnologia adequada, ou a infiltração da água da chuva pode agir como meios de contaminação. Nesse caso, por agrotóxicos contaminantes, derivados da falta de saneamento, óleos combustíveis e outras substâncias poluentes", acentua. Ela refuta a idéia de uma contaminação ampla, lembrando que o aqüífero é segmentado por diques diábases. "São estruturas que dividem o aqüífero em compartimentos e não há perigo da água contaminada de um ponto passar para o outro", garante a bióloga.

Nádia derruba um outro mito sobre o Guarani, de que se trata da maior reserva de água doce do mundo, embora, pela potabilidade de suas águas e pelo fato de ser transfronteiriço, deva ser tombado como Patrimônio da Humanidade pela Organização das Nações Unidas (ONU). "Não é a maior reserva de água doce subterrânea do mundo, pois a sua espessura total é desconhecida. Sabemos que o Arenito Núbia, sob a Líbia, Egito, Chade e Sudão, tem 2,0 milhões de km2, e a Grande Bacia Artesiana, localizada na Austrália, 1,7 milhão de km2. Tampouco é correto dizer que a sua potabilidade é quase total (90%). De acordo com estudos realizados pelo professor Ernani Francisco da Rosa Filho, do Laboratório de Pesquisas Hidrogeológicas da UFPR, ela estaria apenas entre 20% e 30% da reserva potencial", emenda. A potabilidade da água tem relação com a temperatura do manancial. Quanto mais elevada, maior o teor de sólidos totais dissolvidos, o que caracteriza o líquido como salobro.

Operação em quatro países
A pesquisadora Nádia Rita B. Borghetti, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), diz que o Aqüífero Guarani ganhou o nome de fronteiriço porque suas formações geológicas ocorrem nos quatro países do Mercosul. Ela descarta a possibilidade de ele ser privatizado, mas diz que a sua transformação em Patrimônio da Humanidade, pela ONU, implicaria uma série de restrições, tanto de uso quanto de estudos. "Representantes do Brasil, da Argentina, do Paraguai e do Uruguai estudam a criação de um documento que garanta a soberania do aqüífero para esses quatro países", anuncia.

Estudos indicam que o sistema apresenta-se compartimentado em vários locais por falhas geológicas e intrusões de rochas, denominados diques diábases, que funcionam como barreiras hidráulicas. Essas estruturas segmentam o aqüífero e afetam o fluxo subterrâneo e a qualidade da água. De acordo com dados do geólogo Ernani Francisco da Rosa Filho, a continuidade de fluxo da água subterrânea, estendida originalmente, de forma equivocada, para todo o aqüífero, só ocorre entre os Estados de São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Também na região fronteiriça deste último com o Paraguai e entre o sudoeste do Rio Grande do Sul, Argentina e Uruguai.

Serviço
www.oaquiferoguarani.com.br
Aqüífero Guarani: A Verdadeira Integração dos Países do Mercosul,
Nádia Rita Boscardin Borghetti, José Roberto Borghetti e Ernani Francisco da Rosa Filho.
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