Cantados pelo poeta pernambucano Chico Science no movimento Mangue Beat, o Rio Capibaribe e seus manguezais agonizam, enquanto esperam uma ação efetiva por parte do governo
Texto: Celso Sávio / Fotos: José Augusto Cíndio
O verso e o reverso do rio
É impossível dissociar o Rio Capibaribe, na área urbana de Recife (PE), do movimento musical inspirado no mangue de suas margens, iniciado em 1994 por Chico Science e o grupo Nação Zumbi, o qual ficou conhecido como Mangue Beat (batida do mangue). É impossível também deixar de constatar que tanto o rio quanto o movimento estão agonizando: o primeiro pela degradação de suas águas; o segundo, ressentido pela falta de seu idealizador, falecido em 1997.
Em meio ao debate, existem ambientalistas tentando convencer que o rio ainda respira, embora com aparelhos; da mesma forma que, na área cultural, há quem aponte grupos empenhados em dar continuidade ao trabalho de Science. Vamos por partes: existem dois rios Capibaribe. O que nasce em Poção, no Agreste de Pernambuco, quase divisa com a Paraíba, percorre 250 quilômetros e chega limpo à região metropolitana do Recife. O outro é o rio fétido que corta a cidade, com manguezal deteriorado e fauna em extinção em conseqüência do despejo de esgoto doméstico e até industrial.
É uma paisagem triste reservada a quem percorre o trecho até a foz, no Atlântico, na altura do Cais de Santa Rita. Com a maré cheia, essa impressão até que desaparece porque a água do mar empurra o Capibaribe no sentido contrário de sua corrente. Nessas poucas horas, pode-se observar um rio bonito que destaca a beleza das pontes que ligam a Ilha do Recife ao Continente. À noite, o espetáculo é ainda mais exuberante, com as luzes dos prédios refletidas na água.
A maré vazante nos devolve a triste realidade. Desapareceram os barcos de pescadores, que antes navegavam rio abaixo e acima em busca de peixes ou caranguejos, siris e guaiamuns. O manguezal, que já tem uma cor escura, transformou-se numa lama preta. O lixo está por toda a margem: garrafas pet, latas, pneus, aparelhos de televisão, cama e colchões, além de ratos e outros animais mortos.
No final da tarde, alguns mercadores negociam pescados nas ruas vizinhas das margens. Roberto Luís, por exemplo, vende saúba comprada no cais, ao preço de R$ 3,00 o quilo. O pequeno freezer, ao lado de uma balança, está instalado entre as pontes Marques de Olinda e Buarque de Macedo, ligações que levam ao Recife Antigo. Uma dezena de siris-moles, com pouco mais de 5 centímetros, também está exposta. Só que eles vieram junto da vazante e não do manguezal do curso do rio.
Conscientização A situação tem despertado a atenção de diversas entidades preocupadas com a preservação do Capibaribe. A Recapibaribe, com sede na Comunidade Cabocó, no Bairro Monteiro, zona oeste de Recife, além de procurar limpar o rio naquela área, desenvolve um trabalho de conscientização. Com auxílio dos barcos, eles recolhem todo o material jogado no leito e, com fios de cabo de aço ligados a troncos de bananeiras, procuram formar um curral de lixo. Dispensam redes para não prender os raros peixes. Como curiosidade, vale lembrar que dos "currais do lixo", foram retirados mortos: 12 cavalos, 9 porcos, 22 cachorros, 13 gatos e 12 galos.
Tudo o que é recolhido, menos os animais mortos, fica exposto no Capibar, local onde são realizadas reuniões da comunidade para discutir o problema ambiental. Enquanto assiste aos shows, geralmente temáticos, o freqüentador pode observar o detrito retirado das águas do Capibaribe. Acaba sendo uma espécie de decoração que alerta para o problema da degradação.
André Luís e Maria do Socorro Castanhede são os pais do projeto Recapibaribe. Eles conseguiram que a região fosse transformada em Zona Especial de Interesse Social, por meio de uma lei municipal que protege o direito de moradia, com observância da preservação do ambiente. Essa condição, no entanto, não está sendo observada pela prefeitura, que permite construções às margens do rio. "Elas são feitas com as costas voltadas para o rio, como se tivessem vergonha de ver o estrago que estão provocando", constatam.
Com eles concorda o barqueiro José Severino da Silva, de 65 anos, que sobreviveu da pesca no rio desde os 10 anos. Hoje, mantém a família com o dinheiro ganho na travessia Iputinga-Casa Forte entre as duas margens, a R$ 0,50 por pessoa. "É uma pena ver tudo isso aqui sendo destruído pela poluição. Quem conhece este rio sabe que ele já deu comida para muita gente", reclama, apontando para o manguezal onde um tubo de concreto despeja esgoto.
A ocupação das terras das margens do Capibaribe provoca não só assoreamento como também despejo de esgoto e de todo tipo de material. As favelas Ayrton Senna e dos Coelhos são exemplos dessa contribuição para a poluição. "Se eles ocupam o local é porque não encontram outro lugar para morar. Necessitamos de uma política que urbanize essas comunidades com um projeto de higiene sanitária. Assim o esgoto não seria despejado no rio", adverte Maria do Socorro.
As reclamações dela fazem eco em outros setores, inclusive na mídia. O jornalista Marcílio Brandão defende, em sua coluna na revista eletrônica Página 21 (www.pagina21.com.br), a aplicação pela prefeitura do Código Florestal Brasileiro. Ele impede a especulação imobiliária e as ocupações à beira do agonizante Rio Capibaribe.
Caranguejos e tubarões O mangue do Capibaribe ganhou um alento com a decisão recente do Ibama, que estabelece períodos de proibição da captura de caranguejos na costa litorânea entre os Estados de Alagoas e Rio Grande do Norte. Sem orientação técnica ou ambiental, pessoas que vivem da pesca do crustáceo colhem o animal na época do acasalamento, o que contribui para seu desaparecimento na região. Além disso, em Jaboatão dos Guararapes, sul da Grande Recife, o lixo depositado no mar está atraindo tubarões, fato comprovado pelos recentes ataques a banhistas na praia de Piedade.
No início dos anos 1990, o músico Chico Science, preocupado com a situação, já defendia o Capibaribe e o manguezal, cujas preservações pedia no movimento Mangue Beat. Ele sempre teve uma relação muito íntima com o mangue do Capibaribe, onde deságuam mais de 20 canais na região metropolitana. Por isso, não custa nada lembrar do trecho da música "Manguetown", de autor desconhecido, mas reavivada por Chico Science e o grupo Nação Zumbi: ...Andando por entre os becos/Andando em coletivos/Ninguém foge ao cheiro sujo/Da lama da Manguetown...
Aqui a música completa, uma das mais solicitadas nos shows de Chico Science e Nação Zumbi:
Ah ah ah...
Tô enfiado na lama
É um bairro sujo
onde os urubus têm casas
e eu não tenho asas
Mas estou aqui em minha casa
onde os urubus têm asas
Vou pintando, segurando a parede
no mangue do meu quintal Manguetown
Andando por entre os becos
andando em coletivos
ninguém foge ao cheiro sujo
da lama da Manguetown
Andando por entre os becos
andando em coletivos
ninguém foge à vida suja
dos dias da Manguetown
Esta noite sairei
Vou beber com meus amigos...
Ah!
E com as asas que os urubus
me deram ao dia
Eu voarei por toda a periferia
Vou sonhando com a mulher
que talvez eu possa encontrar
E ela também vai andar
na lama do meu quintal
Manguetown
Andando por entre os becos
andando em coletivos
ninguém foge ao cheiro sujo
da lama da Manguetown
Andando por entre os becos
andando em coletivos
ninguém foge à vida suja
dos dias da Manguetown
Andando por entre os becos
andando em coletivos...
Fui no mangue catá lixo
Catar caranguejo
Conversar com urubu
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