O banho de mar ou aquela caminhada despretensiosa por entre as pedras pode virar um transtorno por conta de alguns moradores indesejáveis
Texto: Margarete Azevedo
Ameaças fantasmas
O trinômio sol, praia e mar que, para muita gente, tende a ser a receita do paraíso; para outras pessoas, menos avisadas, esconde uma série de perigos e ameaças. O pior é que alguns deles parecem ser tão inofensivos que, quando questionados, viram motivos de piadas, principalmente entre "banhistas de fim de semana". Afinal, quem pode ter medo de um polvo, de ouriços-do-mar, de uma simpática esponja-do-mar, caravelas ou bexiguinhas, águas-vivas, peixes-escorpiões, arraias ou bagres? O leitor atento deve ter percebido que só foram relacionados organismos cujos mecanismos de defesa são ferrões, espinhos nas nadadeiras, espículas (estruturas que se assemelham a agulhas) e venenos. Os campeões em acidentes são os ouriços-do-mar, com cerca de 50% deles, seguidos de bagres (20%) e água-vivas e caravelas (20%).
O leitor verificou também a propriedade das aspas em "banhistas de fim de semana", pois, segundo o biólogo Álvaro Esteves Migotto, do Centro de Biologia Marinha da Universidade de São Paulo (CEBIMar/USP), e o médico dermatologista Vidal Haddad Júnior, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Botucatu, os moradores do litoral já sabem como se prevenir. A maior parte dos acidentes, que aumentam em feriados prolongados e nas férias, é atribuída à mistura entre a falta de informação, a imprudência e a curiosidade. "Hoje, o número de pessoas que freqüentam ambientes litorâneos é maior. Não são as populações aquáticas que aumentam. Inclusive, elas estão até diminuindo", constata.
Os acidentes ocorrem, quase sempre, quando esses organismos são tocados de maneira brusca ou porque são provocados. Além disso, conforme Migotto, as pessoas vão caminhar nas rochas, muitas vezes, sem atinar como proceder naquele ambiente desconhecido. Muitas não têm noção de que a rocha está muito próxima da água ou está descoberta porque a maré desceu, o que a torna extremamente escorregadia. É como se uma pessoa tivesse passado sabão em grande quantidade. Ninguém fica parado em pé. "Cair nas rochas é perigoso, porque a pessoa, além de se quebrar, pode se cortar devido às cracas e ostras e até mesmo aos ouriços", adverte.
O ouriço, invertebrado do mesmo grupo das estrelas-do-mar, é um animal calcário e quebradiço. "As pessoas costumam dizer que os ouriços lançam os espinhos, mas não é nada disso. Os espinhos, ao serem pisados, entram no pé da pessoa e se quebram", explica o biólogo. Quando a penetração é profunda gera dor intensa. Algumas espécies são venenosas e podem provocar vermelhidão, inchaço e infecções secundárias. É necessário buscar auxílio médico para uma assepsia correta.
"Besta do mar" Outro perigo vem das águas-vivas, e não apenas nas regiões profundas, segundo Migotto. Esses organismos possuem tentáculos urticantes, semelhantes a agulhas hipodérmicas, que são injetados ao entrar em contato com a pele. A sensação assemelha-se a de uma queimadura. "Quando isso ocorre, se diz que a pessoa foi queimada por água-viva. Na verdade, o veneno penetra na pele e desencadeia desde dermatites discretas até lesões dolorosas e necrose do tecido. A reação varia de acordo com a sensibilidade de cada pessoa, inclusive, uma reação alérgica", expõe o biólogo.
Gelatinosa, assemelha-se a um guarda-chuva ou prato. As águas-vivas nadam em grupo e em geral não são visíveis no mar. Algumas dispõem de tentáculos que podem atingir até 30 metros. "Essa estrutura tem uma grande capacidade de extensão; pode encolher para poucos centímetros e se estender como se fosse um elástico", acrescenta.
No Brasil, são poucas as águas-vivas perigosas. Já na Austrália, há uma espécie que, pelo menos uma vez ao ano, faz uma vítima fatal. É considerado um dos bichos mais venenosos e perigosos, sendo chamado de "A besta do mar". Ao ter uma extensão relativamente grande do corpo em contato com esse animal, a pessoa pode morrer na praia em poucos minutos. Migotto revela que as crianças, devido ao tamanho e à pele mais fina, são mais vulneráveis. "O veneno injetado no corpo de um adulto difunde-se por uma marca corporal maior; mas na criança, a dose parece ser maior", compara.
Não são todos os animais aquáticos que oferecem riscos ao homem. Na dúvida, segundo o biólogo, vale mais o jargão "prevenir é melhor do que remediar", o mesmo usado diante do bote de uma cobra coral ou de outras espécies peçonhentas. "Há águas-vivas que não são urticantes e podem até ser tocadas, embora a maioria das pessoas não saiba identificá-las. Por isso, recomenda-se não tocá-las jamais", confere Migotto. A regra também vale para algumas variedades de peixes. Alguns têm ferrão com veneno ou veneno na pele. "À noite é comum os pescadores descartarem pequenos bagres na areia. O veneno desses peixes também continua ativo quando eles estão mortos; o mesmo ocorre com a água-viva e a caravela", enfatiza Haddad Jr.
Mergulhadores Comuns em águas rasas, em fundos arenosos ou lodosos, os bagres dispõem de dois pares de barbilhões (filamentos) ao redor da boca e três espinhos serrilhados na nadadeira dorsal e peitorais. "O banhista, ao pisar acidentalmente nele, pode injetar veneno no pé, o que chega a provocar até seis horas de dores", explica o dermatologista. Ele esclarece ainda que os venenos de alguns peixes, como dos bagres, mangangás ou peixes-escorpiões e as secreções de arraias, degradam no calor. Portanto, após o ocorrido deve ser aplicada água quente (500 C) de 30 a 90 minutos no local. "Com águas-vivas e caravelas, o procedimento é diferente. Os tentáculos devem ser removidos; e, em seguida, aplicadas compressas de água do mar gelada ou bolsas de gelo. Não se deve utilizar água doce, porque dispara as toxinas", adverte. Para desativar o veneno, é necessário compressas de vinagre.
O biólogo Migotto alerta que surfistas e mergulhadores, além de expostos aos mesmos organismos que os banhistas, também são vulneráveis a outras espécies. No caso dos ouriços, por exemplo, o acidente ocorre ao se aproximarem das pedras ou ao serem jogados por uma onda sobre elas. O espinho penetra quando eles batem a perna, o braço, o cotovelo ou outra parte do corpo num ouriço. "Mergulhadores costumam ser as vítimas mais freqüentes de mangangás, conhecidos como peixes-escorpiões. Essa espécie se camufla no meio das algas. Ele fica quieto no lugar e, quando a pessoa se aproxima, não foge", informa Migotto.
Conforme os pesquisadores, acidentes com peixes-escorpiões são os mais graves. Além de causar dor intensa e prolongada, até 24 horas depois, pode vir acompanhada por outros sintomas, como vômito, palpitação e falta de ar. Pescadores costumam acidentar-se com esses peixes ao esvaziar redes de arrastão. Como as campanhas de prevenção são isoladas, convém informar-se a respeito com os moradores ou freqüentadores habituais das regiões litorâneas. É importante andar de chinelo na praia e observar bem onde se pisa. Não ter a curiosidade de tocar nesses organismos, também pode contribuir para reduzir os índices de acidentes
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