Homenagem tardia a dois homens que ainda não conseguiram mudar o mundo, mas deram um grande passo nessa direção
Heróis de nosso tempo
O que tem a ver a Palestina do Oriente Médio, velha conhecida nossa desde os tempos bíblicos, com a Favela Palestina, na periferia de Salvador? Nada, a não ser a coincidência forçada de nomes, ou tudo, se considerados os baixos índices de desenvolvimento humano das duas regiões. Tampouco poderiam ter algo em comum o sargento israelense Shapira Zohar (36) e o tratorista baiano Hamilton Santos (54), mas eles têm, e muito. Separados por milhares de quilômetros, idade e realidades diversas, ambos se notabilizaram pela mesma atitude: o não-cumprimento do dever por razões humanitárias. O primeiro tornou-se famoso mundialmente depois que se recusou a disparar contra civis nos territórios palestinos ocupados por Israel. Quanto ao segundo, ficou famoso em o todo o Brasil ao desobedecer o mandado do oficial de justiça que exigia a derrubada de uma casa, na Favela Palestina, onde a merendeira Telma Sueli dos Santos Sena morava com seus sete filhos. Zohar, que convenceu 12 colegas de cargo a imitá-lo, foi julgado pelo tribunal militar e foi parar na reserva. Formado em astrofísica, dá aulas de matemática para sobreviver e viaja o mundo. Prega a paz e recebe homenagens, inclusive no Brasil, onde esteve no II Fórum Social Mundial, realizado em Porto Alegre (RS). Já o tratorista Santos, preso na ocasião, após a repercussão do seu ato, foi solto e até recebeu homenagem da Ordem dos Advogados do Brasil. A distinção mais recente veio dos autores da novela "América", que mostrou no início a mesma atitude de Santos reproduzida pelo personagem vivido pelo ator Paulo Goulart.
Em sua passagem pelo Brasil, Zohar, que pertencia a uma tropa de elite do exército israelense, falou sobre o motivo que o levou à decisão de não mais atuar nos territórios ocupados: o olhar de uma menina palestina de 7 anos. De madrugada, quando ele e seus companheiros invadiam uma casa, à procura de um suposto terrorista, deparou-se com o olhar da criança que o fitava intensamente. Foi o que bastou para escrever a carta ao premiê israelense Ariel Sharon, anunciando seu propósito. Interessante que, embora tenha revelado sua compaixão pelo povo palestino, oprimido, diz que tomou essa atitude preocupado em mudar, em primeiro lugar, seu próprio país. Foi também o olhar de uma criança (ou de várias) que levou o tratorista Hamilton Santos a recusar-se a cumprir sua tarefa. Ao ser fitado por olhos provavelmente famintos, e que agora se tornariam também sem abrigo, ele chorou e entregou as chaves do trator ao oficial de justiça. O "Jornal Nacional" deu em manchete a notícia que comoveu o País inteiro e fez de Santos uma espécie de herói, desses de que o Brasil tanto sente falta. Sei que tardia, mas nunca é demais uma homenagem a esses dois heróis de nossa época, de mundos tão diferentes e, ao mesmo tempo, tão iguais. Que nossos próximos heróis, principalmente aqueles que recebem do povo o poder de representá-lo, também façam a sua parte, a mínima que seja. E com uma boa ressalva: ao contrário de Zohar e Santos, basta apenas que cumpram o seu dever!
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