Enquanto o governo discute a problemática das cotas para o acesso dos afro-descendentes às universidades, a Sociedade Afro-Brasileira de Desenvolvimento Sociocultural (Afrobras) dá um passo efetivo nesta direção
Inclusão pra valer
Bruno Ferreira dos Santos, 21 anos; Gisele Cristina Irineu, 25 anos, estagiária; e Alexandre Ribeiro da Silva, 30 anos, têm mais alguma coisa em comum, além do fato de serem afro-descendentes. Os três estudam na Faculdade de Administração Zumbi dos Palmares (FAZP), única instituição de educação na América Latina que visa a inclusão de minorias sociais e historicamente desfavorecidas e a valorização da diversidade racial. A FAZP é mais uma das iniciativas do projeto Pererê-Pererê desenvolvido pela Organização Não-Governamental (ONG) Sociedade Afro-Brasileira de Desenvolvimento Sociocultural (Afrobras). Com o subprojeto "Mais Negros nas Universidades", ela promove o ingresso de jovens negros em escolas privadas. Responde atualmente por quase 300 estudantes bolsistas em instituições da capital paulista e do Interior.
O projeto da Universidade da Cidadania Zumbi dos Palmares - a faculdade de administração é a primeira parte do empreendimento - foi desenvolvido ao longo de quatro anos em parceria com o Núcleo de Políticas e Estratégias da Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep). A faculdade é aberta a qualquer pessoa, com cursos de graduação em Administração, com habilitações em Administração Geral, Financeira, Comércio Exterior e Serviços Eletrônicos. É garantida, no entanto, a cota de até 50% das vagas aos candidatos de raça negra, autodeclarados na ficha de inscrição aprovados no processo seletivo.
"Esse instrumento institucional assegura a presença do jovem negro. As demais vagas são colocadas à disposição de todas as pessoas menos favorecidas economicamente, e que tenham interesse", conta José Vicente, presidente da Afrobras e reitor da Faculdade. Segundo ele, a instituição busca consolidar o acesso e a permanência da população negra no ensino superior, com total subsídio da iniciativa pública e privada, mediante parcerias. Além disso, procura viabilizar a integração de negros e não-negros em ambiente favorável à discussão da diversidade racial, no contexto da realidade nacional e internacional.
O primeiro vestibular foi realizado em 2003, das 200 vagas oferecidas, 75% foram ocupadas por negros. De acordo com Vicente, além do candidato se autodeclarar negro, faz parte do critério de seleção dos vestibulandos uma lista paralela com nota de corte. O candidato também passa por uma entrevista para verificar se ele cumpre os requisitos gerais. O valor da mensalidade é de um salário mínimo. O presidente da Afrobras ressalta que, a cada ano, tem crescido o interesse dos estudantes pela instituição. "No primeiro vestibular, oferecemos 200 vagas, para cerca de mil candidatos. No ano seguinte, em 2004, abrimos 400, com uma concorrência de quatro para um", revela.
O aumento das vagas fez a faculdade mudar de endereço. "O formato atual é adequado para uma faculdade, e também para outros trabalhos, como cursinho pré-vestibular. Temos uma base do Projeto Guri, voltado para crianças a partir de 8 anos e jovens até 18 anos. Nosso foco com essa atividade é recuperar os aspectos musicais da África", indica. Quanto ao corpo discente, a grande maioria é constituída de jovens vindos de diversos bairros da cidade de São Paulo, muitos com subempregos. "Grande parte vem de uma realidade cujos pais não tiveram oportunidade de estudar e de uma ascensão social muito pequena, e que agora desperta para essa perspectiva de mobilidade social via qualificação acadêmica", esclarece o reitor.
Diferenciais Reforço extracurricular, intercâmbios e transversalidade dos temas abordados são alguns dos diferenciais do trabalho desenvolvido pela instituição de ensino. "Não perdemos o foco principal de qualquer trabalho na área de educação superior, ou seja, inclusão e empregabilidade", destaca Vicente. A faculdade oferece apoio ao estudante com laboratório de reforço extracurricular nas matérias de português, matemática, inglês e informática. Dispõe ainda de um Centro de Apoio Pessoal, com psicólogo, assistente social, orientador educacional e orientador profissional.
Além desses suportes, a Afrobras (entidade mantenedora) tem uma agência de emprego modelo, a Afro Work, e convênios para trainees e programas de estágio com diversas empresas.
"Recentemente, fechamos um convênio com o Banco Itaú, que selecionou 26 jovens. Além desses, temos 36 em outras empresas", informa o reitor. Um outro parceiro da Faculdade é a Associação Cultural Alumni, que se encarrega da formação dos alunos desde o primeiro ano, com a metodologia própria de ensino do idioma inglês.
Com o objetivo de proporcionar uma formação humanística ao aluno, e não somente uma visão tecnocrática, a instituição trabalha a transversalidade de alguns temas. "Nas disciplinas que hoje nos permitem fazer intervenções dessa natureza, trabalhamos a trajetória do negro. Por exemplo, na matéria de História, enfocamos a História Econômica do Negro; em Comunicação e Expressão, são tratados a Língua e a Cultura; na Sociologia, a relação racial e não só de classe; no Direito, a Justiça e Igualdade; e na Filosofia, a Ética, a Isonomia e a Eqüidade.", esclarece Vicente
Oportunidades O auxiliar administrativo Alexandre Ribeiro da Silva, 30 anos, fala que há alguns anos já havia prestado vestibular para ingressar na Faculdade de Tecnologia de São Paulo (Fatec), no entanto, foi reprovado. O estudante soube da FAZP por acaso. "Na hora do almoço eu vi uma matéria que falava sobre uma faculdade exclusivamente para negros e me interessei. Recortei o anúncio, prestei vestibular e me matriculei", diz.
O seu colega de classe, o militar Jefferson Henrique, 32 anos, ex-estudante de Engenharia, desembolsava R$ 800 pela mensalidade. Um dos motivos que o levaram a ingressar na Zumbi dos Palmares foi o preço "bem acessível". No 3o semestre, Henrique faz planos: pretende, quando terminar a faculdade, prestar concurso público. "Embora muitas empresas apóiem o curso, meu objetivo já está definido", frisa.
A estagiária Gisele Cristina Irineu, 25 anos, também prestou vestibular por duas vezes para o curso de Direito, mas não entrou. Foi por intermédio de uma amiga que conheceu o curso de Administração mantido pela Afrobras. "Ela recebeu um panfleto e sabia que eu estava prestando vestibular e tinha interesse na área de Administração", recorda.
O mais jovem do grupo, Bruno Ferreira dos Santos, 21 anos, estagiário de Administração Geral, soube do curso por meio de sua mãe, que é assistente social. "Ela obteve informações de que a Afrobras ia oferecer uma faculdade. Chegamos a um consenso que deveria cursar uma escola com preço acessível, que oferecesse chances e oportunidades para pessoas negras", destaca. Ele entende que, atualmente, não está barato estudar, mas isso não quer dizer que não dá para fazer uma faculdade. Quem diz que não consegue estudar é por preguiça. Há projetos, como o Programa Universidade para Todos do Ministério da Educação e Cultura (ProUni), que destina cerca de 80 mil bolsas de estudo para estudantes de baixa renda em instituições de ensino superior de todo o Brasil. Mas a pessoa tem que correr atrás, batalhar pelos seus objetivos", conclui. (M.A.)
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