Comunidade paulistana usa a vela para marcar o tempo na roda de samba, enquanto revela novos compositores e preserva as raízes da batida tradicional
Fotos: Isabel Mojica
Até o apagar da velha chama
Como quem não quer nada, numa segunda-feira de julho de 2000, quatro jovens compositores de Santo Amaro, periferia de São Paulo, formaram uma pequena roda e cantaram seus próprios sambas até o amanhecer. O local escolhido por José Alfredo Gonçalves Miranda (Paqüera), Maurício de Oliveira, Magno Souza e José da Cruz, o "Chapinha", foi o bar Ziriguidum, de propriedade deste último, que se encontrava fechado no dia. Nascia ali o Samba da Vela, hoje uma referência nacional do samba.
"Trabalhamos com música há mais de 20 anos. Naquele dia, nos reunimos para bater um papo, conversar a respeito de samba. Começamos às oito horas da noite e terminamos às quatro horas da manhã. Combinamos de nos reunir na semana seguinte, com a idéia de cantar sambas clássicos e algumas de nossas composições. O negócio ficou tão bom, que de novo entrou madrugada adentro", relembra Paqüera.
Apesar das portas fechadas ao público, não demorou para que a roda de samba despertasse a atenção. "As pessoas entravam por debaixo da porta e, a partir daí, começaram a freqüentá-la. Com isso veio a necessidade de limitar o horário", recorda o Paqüera. Pensaram em adotar uma ampulheta, um despertador e até mesmo um galo. Uma reportagem na tevê sobre o simbolismo da vela o levou a sugerir esse tipo de controle do tempo.
"A vela também tem relação com religiosidade. Segunda-feira é um dia especial também para a Igreja Católica. Vim com essa idéia na cabeça. Tinha de ser o Samba da Vela, porque, além de iluminar o terreiro, ela podia virar um relógio. Se colocarmos uma vela de duas horas e meia, ela acabará e é uma maneira educada de falar tchau, 'nem choro nem vela'", emenda o sambista. É utilizado também um cone como acessório para ajudar no controle da queima. "Quando a vela arde muito rápido, colocamos o cone, que a protege do vento e mantém uma queima uniforme", emenda.
O Ziriguidum ainda foi o ponto de encontro do grupo e da comunidade, que atraiu durante um ano. Depois, o samba migrou para a Casa de Cultura de Santo Amaro e se tornou programa garantido de todas as segundas. Pelo menos 150 pessoas lotam semanalmente as cadeiras colocadas ao redor da mesa enfeitada com uma toalhinha de crochê que destaca o "relógio de cera". Não é permitido beber ou fumar, fato que muitos estranham devido à relação direta do samba com bebida e cigarro. A divulgação ainda é o popular boca-a-boca, mas nada impede que apareça gente dos mais diversos cantos da cidade, do Estado de São Paulo ou do Brasil. Já estiveram por lá turistas da França, da Itália, do Canadá, dos Estados Unidos e do Japão.
Três fases, três cores Antes que o som dos instrumentos invada o ambiente, Paqüera abre as atividades acendendo a vela como que cumprindo um ritual: "Que a Divina Luz continue iluminando todas as criações!", exclama. Mas a proposta varia, conforme a cor da vela - azul, branca ou rosa. "Criamos as cores para simbolizar o tempo de amostragem, de revelar o trabalho do compositor e o tempo de consagrá-lo", explica. A vela de cor rosa é a de iniciação, válida por duas semanas, quando o compositor mostra sambas inéditos. Nas duas semanas seguintes, são acesas velas de cor azul, período em que o compositor apresenta a sua música ao público.
"Depois, o artista se recolhe. Os diretores analisam a letra e a melodia. Se possui estrutura do samba da vela, que é de samba de terreiro, de linhagem tradicional; sambas curtos, informação imediata. Precisa ser voltado diretamente para o público", ressalta o sambista. Caso esteja de acordo com os requisitos, o samba é selecionado e colocado em um caderno. Esse processo, que dura cerca de dois meses, culmina com a consagração. "É o dia da vela branca. Durante um mês cantamos os sambas selecionados para fixá-los na cabeça do povo", acrescenta.
Nestes quatro anos de atividades, cerca de 40 compositores foram apresentados e, desses, 30 continuam ativos na comunidade. "Outros vieram fazer o samba, mas, por não entrarem no caderno que é editado e distribuído para as pessoas acompanharem, abandonaram. O caderno não quer dizer que a pessoa é 'o cara'. É simplesmente uma amostragem de sambas que têm a ver com a linhagem", acentua Paqüera. Com mais de 300 sambas inéditos, a comunidade Samba da Vela lançará, em breve, um CD. "Resolvemos buscar ajuda de algumas empresas para manter o trabalho vivo. Faz parte do CD 20 músicas da comunidade", finaliza.
Revelação Os temas retratados nas letras variam de amor a crônicas urbanas, em que sobra crítica social, como faz Mário Leite, 42 anos, freqüentador da comunidade desde 2001. Morador do bairro de Pirituba, ele afirma que não perde nenhum encontro. "Passamos por um processo de composição. Hoje, trabalho muito o lado social, falo das dificuldades do povo", comenta. De olho em outros agitos culturais, opina que o Samba da Vela é fundamental, pois dá continuidade a um movimento para preservar as raízes e a qualidade do samba.
Susana Francelina de Camargo Seixas, 66 anos, a "Vó Susana", freqüenta a roda de samba há dois anos e meio. "Já componho há mais de 40 anos. Aqui tive estímulo para voltar a escrever", diz. Obstetriz, ela teve que se afastar do samba, devido ao trabalho. "Quando bem jovem, cheguei até a fazer algumas apresentações. Meu irmão era músico, tocava e dava aulas de violão. Minha mãe gostava que nós cantássemos, mas ninguém nos estimulava a continuar neste caminho como uma profissão ou uma opção de vida. O fato de me casar jovem também contribuiu para eu parar completamente."
A sambista perdeu as contas de quantos sambas já compôs, no entanto, cinco deles entraram para o caderno do Samba da Vela. Aliás, uma de suas músicas está no CD que sairá agora. Na sua opinião, o que as pessoas costumam ouvir no rádio ou ver na televisão não tem relação com o samba de raiz. "Aqui procuramos resgatar os costumes, os lugares, o cotidiano. Cantamos temas sociais, isso é muito importante. É bom para a comunidade porque, se prestarmos atenção, há bastante jovem. Muitos deles estudam música, dedicam-se à arte de compor e de tocar e se desviam de outros caminhos", observa.
Sopa no final Gilberto Gomes, 45 anos, cujo nome artístico é Dus'Betus, acompanha o trabalho do Samba da Vela desde o início. Eletricista de autos, ele compõe sambas comuns e pagodes há pelo menos dez anos, mas mudou o estilo depois que passou a freqüentar a comunidade. Afirma que, para ele, compor é um dom. "É muito natural, até no banheiro faço música. Tenho que estar sozinho, tranqüilo. A música vem inteirinha. Carrego um pequeno gravador, canto e passo para a fita para não esquecer. Não preciso nem tocar violão, com a letra já vem a melodia e o ritmo."
"Cebolinha verde, camarão, leite de coco, azeite-de-dendê, batatas, peixe." Não se trata de letra de um samba de Dus'Betus, mas de ingredientes da sopa do cabeleireiro José de Oliveira Filho, 38 anos, que comanda a cozinha do Samba da Vela. "Há cinco anos, desde o Ziriguidum, faço esse trabalho voluntariamente", diz. Ele tem ajuda da auxiliar de limpeza Natália Aparecida dos Santos, 20 anos, que entre uma e outra batata descascada "dá uma "mexidinha". "A gente também curte o samba", explica.
No cardápio de Oliveira, há caldo verde, sopa à moda nordestina, de legumes, todas de sua autoria. A tradição da sopa surgiu porque, em julho, fazia muito frio. "A princípio eu fazia cappuccino em casa, colocava na garrafa térmica e levava para a roda. Depois que um amigo do Chapinha propôs um mocotó, não paramos mais. Às vezes a gente fazia uma pausa, tomava a sopa e depois voltava a cantar", lembra Paqüera. (M.A.)
Serviço: Casa de Cultura de Santo Amaro
Praça Francisco Ferreira Lopes, 434, Santo Amaro
Telefone: (11) 5522-8897
Os preços, promoções, condições de pagamento, frete e estoque são válidos apenas para compras pelo site. No caso de diferença de preço no site, o valor válido é o do caminho de compras. Não abrimos embalagens.
Estes serviços permitem que você organize, guarde, recomende ou compartilhe as páginas e conteúdo que mais gosta da Kalunga com outras pessoas. São serviços públicos e gratuitos, independentes da Kalunga e você precisará se cadastrar para utilizá-los.