A Internet tem se revelado um importante instrumento a serviço das religiões. Há sites para difusão da doutrina, de orações, missas e até para quem quer se confessar
Texto: Margarete Azevedo
Caiu na rede é fiel
Se o leitor desta matéria não tiver nenhum pecado, esteja à vontade para atirar a primeira pedra. Agora, se tiver um montão deles, é só entrar no site www.theconfessor.co.uk, relacioná-los, digitar sua senha de quatro dígitos, que eles serão perdoados. Pois é, depois das missas em tempo real, de fazer e pagar promessas, de servir de púlpito, enviar santinhos e até acender velas ou promover romarias, a Internet virou confessionário. Claro que extra-oficialmente e sujeita a todo tipo de debate, como sempre são os temas e dogmas religiosos, mas é um passo.
E não apenas a Igreja Católica. Hoje em dia, além de várias outras denominações cristãs, grupos budistas, seguidores do Islã, do judaísmo e das demais religiões se utilizam dos vários mecanismos da telemática, da informática e da rede Web para se comunicar com seus fiéis (confira quadro na matéria). Quem é adepto do espiritismo ou apenas quer conhecer a obra de Allan Kardec dispõe do site www.febnet.org.br; já o www.espiritismo-brasil.org.br serve como um canal de esclarecimentos aos iniciantes, leigos e interessados na doutrina espírita e no tema. O canal oferece esclarecimentos sobre a doutrina, a mediunidade e demais temas espíritas.
Do lado católico, um exemplo prático e recente dessa mania é o site www.meusanto.com.br, lançado experimentalmente em 6 de janeiro último, Dia de Reis. Entre os muitos serviços oferecidos, o usuário pode fazer promessas, agradecer as graças alcançadas, com direito a acender velas para seu santo de devoção e até mesmo enviar santinhos. O site indica em tempo real quantas graças foram alcançadas e quantas estão pendentes. E ainda fornece a estatística sobre as preferências do público por este ou aquele santo e a prontidão de cada um.
Por ocasião do seu lançamento, foram registrados em média 10 mil acessos diários. Internautas fervorosos de plantão ou curiosos? É difícil dizer, pois, à primeira vista, esses endereços visam atender justamente pessoas que, o tempo inteiro diante de seus computadores, se esquecem, quando não colocam em segundo ou terceiro plano, suas obrigações religiosas.
A voz do papa Famoso midiático dos tempos modernos, o padre Marcelo Rossi organizou o site www.padremarcelorossi.org.br, em que o fiel pode mandar cartões, ler o evangelho do dia, solicitar orações, participar de fóruns e até assistir ao Terço Bizantino puxado pelo próprio padre Marcelo. O religioso provavelmente inspirou-se no recém-falecido João Paulo II, um dos papas que mais soube usar a mídia em todos os tempos. O site da rádio do Vaticano (www.vaticanradio.org), denominado "a voz do Papa e da Igreja em diálogo com o mundo", traz as últimas notícias a respeito do conclave de escolha do novo papa e, entre uma notícia e outra, oferece programas litúrgicos e a leitura de artigos sobre o papel da Web para a Igreja.
"A Internet para a Igreja é um maravilhoso instrumento para a evangelização e o serviço pastoral, mas não para a confissão on-line", diz Dom John P. Foley, presidente do Pontifício Conselho das Comunicações Sociais. Segundo ele, a confissão deve ser sempre feita no contexto sacramental do encontro pessoal. E acrescenta: "A rede mundial de computadores oferece à Igreja a oportunidade de tornar acessível, em todo o mundo, a mensagem salvífica de Cristo."
Para Fernando Altemeyer Júnior, professor do Departamento de Teologia e Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), a Internet hoje é um meio propagador da fé e da religiosidade impossível de ser ignorado pelas religiões. "É importante pela rapidez e conectividade, e nenhuma delas está abdicando isso, nem as pequenas nem as grandes", analisa. Entende que a propagação da fé pela Internet não substitui nem substituirá o papel da Igreja ou das religiões. "Seria o mesmo que perguntar se uma faca substituiria o papel de um professor. São instrumentos que têm o seu valor, mas são restritos a sua função específica. As pessoas podem dar o salto fundamental, que é a transcendência, a interioridade, sozinha ou com a comunidade."
O fato de os meios eletrônicos serem recentes, quando comparados à idade das religiões, não impede uma avaliação sucinta. Para Altemeyer, o usuário deve apresentar um mínimo de lucidez, uma boa base cultural, caso contrário, acreditará que a Internet é solução para todos os seus problemas. "Tudo é positivo, como lembra uma velha frase da bíblia, desde que os frutos sejam bons. A árvore não é boa por ser árvore, mas por gerar frutos e sementes. Isso também ocorre na Internet. Quando se digita uma palavra em um site de busca aparece de tudo, riquezas e lixo. Caso o usuário não tenha discernimento e capacidade crítica para separar, estará mergulhado num mar de lama", indica.
Além da necessidade de separar o joio do trigo e driblar a preguiça mental, o teólogo acredita que a Internet jamais substituirá o contato humano direto. Ele destaca que as missas on-line não substituem a celebração presencial, ou seja, para ter a eucaristia, a pessoa deve comer o pão. Não basta um pão virtual, precisa existir o pão real. "É como aula. A pessoa pode ter o diploma do Massachusetts Institute of Technology (MIT), mas isso não substitui a figura do professor. Ensino a distância é um outro mecanismo, não é um 'novo' mecanismo. Da mesma forma não pode haver confissão pela Internet. É necessária a presença do confessor ao lado do fiel", finaliza.
Eu, pecador... No www.theconfessor.co.uk, católicos do mundo inteiro podem revelar seus pecados. A navegação é bastante agradável, nada parecida com a situação intimidadora que muitos guardam do passado: de joelhos diante de um confessionário, sem saber de fato se seu confessor estava atento ou dormindo. Pior ainda, ficar frente a frente com o padre em sacristias apertadas e, ao final, ao abrir a porta, se deparar com os olhares dos demais, quem sabe, imaginando o tamanho da penitência que lhe foi passada. No site inglês, as páginas dão boas-vindas e convidam a refletir a respeito dos pecados. A confissão pode ser feita em silêncio por meio de um texto padrão ou, se o internauta preferir, por escrito. O objetivo é a auto-reflexão.
"Nosso trabalho é levar as orações até Deus", diz o reverendo Michael Fass, responsável pela Capela Rosslyn, na Escócia. Para seguir essa idéia ao pé da letra, conta que lançou o serviço de oração eletrônica (e-prayer). O site www.scottishepiscopal.com tem atraído fiéis de diversas partes do mundo, cujos pedidos de oração chegam via e-mail. Eles são impressos e repassados para grupos de oração. Posteriormente, são dispostos no altar da Igreja. Durante a celebração toda a comunidade faz orações para aqueles pedidos.
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