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Cotidiano


Nem sempre alimentos diet ou light, que muita gente ainda confunde, são a solução para uma dieta saudável

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As gôndolas dos supermercados exibem cada vez mais alimentos diet e light, desde uma simples gelatina até outros mais elaborados. Tanta facilidade, no entanto, não significa que esses produtos sejam indispensáveis na alimentação ou, como muitas pessoas imaginam, a perda automática de uns quilinhos extras. Em primeiro lugar, deve-se ressaltar que alimentos diet podem ser tão calóricos quanto os comuns; enquanto as opções light satisfazem menos, o que exige mais porções para saciar a fome. É consenso entre os especialistas que, na maioria dos casos, as pessoas não diferenciam corretamente o que é diet e o que é light.

O médico Ary Lopes Cardoso, do setor de Nutrologia do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas (HC), e a nutricionista Lúcia Maria Branco, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explicam que o termo diet é empregado para definir produtos dietéticos. São indicados para pessoas, principalmente diabéticas, que necessitam de dietas especiais, com restrição ou isenção de açúcares, gorduras, colesterol, aminoácidos e proteínas. Nestes alimentos, nutrientes como açúcar, gordura, proteína ou sódio são substituídos. Por exemplo, o açúcar é trocado por um tipo de adoçante ou o sal (cloreto de sódio) pelo cloreto de potássio. Vale destacar que um alimento diet não é necessariamente light, pois é possível restringir o açúcar e compensar em gorduras. Segundo Lúcia Maria, esse tipo de alimento pode conter até mais calorias quando comparado a um alimento light ou convencional. Já produtos light não devem ser usados por diabéticos; apesar da quantidade reduzida do nutriente apresentam açúcar na sua fórmula. No alimento light, há uma redução total ou parcial de, no mínimo, 25% das calorias totais do produto, comparado a um alimento convencional. "Essa redução pode vir dos carboidratos ou das gorduras; por isso são indicados para dietas com diminuição de calorias", emenda.

Cardoso diz que a utilização indiscriminada desses produtos pelos consumidores é motivada pela indústria, que oferece muitas opções de olho no aumento das vendas. Como as pessoas não têm o hábito de ler os rótulos dos produtos, muitas vezes, compram, na ilusão de que só porque é diet é menos calórico. "Elas comem aquele alimento achando que não vão engordar. Por sua vez, os produtos denominados light têm uma concentração menor, principalmente de carboidrato e gordura, por isso satisfazem menos. Para saciarem a fome, as pessoas acabam comendo mais. Na soma total do dia, ingerem um alto valor de caloria", explica.

Tanto o médico quanto a nutricionista concordam que os consumidores precisam verificar as informações nutricionais nos rótulos dos produtos, para que não ocorram excessos, isso sem falar que o custo é maior. De acordo com Lúcia, cabem aos ministérios da Saúde e da Agricultura a análise e a aprovação dos alimentos e de suas embalagens para a comercialização. "Espera-se que as indústrias produzam os alimentos conforme foram aprovados para que tenham as quantidades informadas na tabela de informação nutricional. Sem o hábito de ler o rótulo, as pessoas costumam se preocupar somente com as calorias do produto", orienta.

Embora não existam estudos específicos acerca dos riscos à saúde, a nutricionista recomenda que pessoas normais usem os alimentos light esporadicamente. Para o dia-a-dia, aconselha uma alimentação equilibrada. "Nem sempre optar por alimentos light significa alimentar-se de forma saudável. A pessoa pode restringir o consumo de nutrientes importantes que comprometerão fisiologicamente o funcionamento do organismo", frisa.

Bombardeio
Como se alimentar de maneira saudável numa sociedade em que a indústria bombardeia os consumidores ora com alimentos extremamente calóricos, ora com opções light? Para uma pessoa normal, uma alimentação saudável deve apresentar uma quantidade de carboidrato, gordura, proteína, vitaminas e sais minerais que atendam a uma situação em que ela tenha uma vida sem risco de doenças e que lhe permita exercer a sua atividade diária. "Consiste na ingestão de 55% de carboidrato, 30% de gordura e 15% de proteína, além das vitaminas e minerais que acompanham esses alimentos e que ofereçam as necessidades médias de um adulto ou de um adolescente normal", comenta Cardoso.

Já a nutricionista destaca que não é necessário excluir esses produtos, mas orienta para que eles não sejam a base da alimentação. Sugere a adoção de hábitos saudáveis, mesmo com a correria e o bombardeio da mídia. Indica também variar os alimentos no dia-a-dia, fazer cinco refeições/dia, com quantidades pequenas de alimentos, evitar longos períodos de jejum e praticar alguma atividade física contínua de pelo menos 30 minutos.

Segundo Lúcia, o produto light pode transmitir uma dieta alimentar inadequada, conforme pesquisa realizada com adolescentes. No caso, os filhos de mães consumidoras de alimentos light também tinham o hábito de consumi-los com freqüência, por gosto, pela disponibilidade em casa ou mesmo para controlar o peso. "Na pesquisa com os adolescentes, verificamos que o consumo era com a intenção de manter o peso ou emagrecer, mas nem todos alcançavam os objetivos. Portanto, é necessária a orientação de um nutricionista para esclarecer as dúvidas e chegar a um acordo na composição da dieta, respeitando as preferências do adolescente", acrescenta.

Cardoso recomenda que esses produtos não sejam oferecidos a crianças menores de 2 anos, cuja família tenha alterações do colesterol e triglicérides. A partir dessa idade, elas podem até receber a redução de algum nutriente na sua dieta, mas ela deve ser controlada, porque a longo prazo pode causar alterações clínicas. No caso de uma criança saudável, isso é dispensável. "As pessoas exageram, e o pior, pagam mais por isso. Esses alimentos são mais caros porque têm um processamento diferenciado. A prática de exercício físico mais constante ou uma caminhada pode propiciar um resultado tão bom quanto a ingestão de alimentos com baixo teor", enfatiza.

"Comidas magras"
Predileções e necessidades à parte, para o médico do HC, é difícil alguém fazer do alimento light a base da alimentação e ficar sem ingerir o alimento normal. Na sua opinião, o alimento modificado na sua composição cansa. "Um dia a pessoa exagera, deturpa a dieta e come bobagem. O que é preciso, na verdade, é disciplina. É possível perder peso sem precisar obrigatoriamente fazer uma restrição alimentar exagerada. Basta associar uma atividade física a uma alimentação adequada. Afinal, light nem sempre é gostoso."

Quanto às "comidas magras", uma nova categoria tem caído no gosto popular, os chamados Low Carbs, ou seja, produtos com porção reduzida de carboidratos. Para quem aprecia, Lúcia faz um alerta: deve-se verificar a real necessidade de consumi-los, pois o organismo necessita de todos os nutrientes em proporções adequadas para seu funcionamento correto e manutenção da saúde. "Caso exista restrição, pode gerar um desbalanceamento metabólico prejudicial à saúde e até efeitos carenciais a médio e longo prazos", declara.

Enquanto isso, Cardoso acentua que o carboidrato é a "gasolina" do organismo; sem ele a pessoa não funciona. Um exemplo é o da pessoa que vai para o trabalho e não come nada porque quer perder peso. Os efeitos dessa privação são sonolência, tontura, distração e perda de concentração e de memória. "O cérebro funciona com carboidrato; quando a pessoa não come carboidrato, ele não é ativado e surgem esses sintomas, o que é um perigo", conclui. (M.A.)
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