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Cultura


Não são passageiros comuns os 32 ocupantes de um ônibus com insufilme e ar-condicionado que circula pelas ruas de São Paulo. Apelidado "Cinebumba", ele leva crianças carentes, introduzidas, no convívio com a chamada sétima arte
Texto: Margarete Azevedo

Cinema em trânsito


Caminhão que vira palco para show e trio elétrico ou ônibus que vira biblioteca e sala de leitura é comum pelas ruas de São Paulo e outras grandes cidades brasileiras, mas cinema sobre rodas é algo, no mínimo, inusitado. Foi com a idéia de levar cinema para crianças carentes que o cineasta Nando Olival decidiu pôr em prática um antigo projeto. "Primeiro, pensei em alugar dois ou três ônibus para transportar as crianças e um salão de cinema, daqueles antigos, mas muitos deles haviam virado bingo ou igrejas evangélicas; outros precisavam de uma grande reforma. Então resolvi encurtar o caminho: se já tinha o transporte, pensei "porque não fazer no ônibus de uma vez?", afirma.

A compra do ônibus há um ano e meio serviu para a concretização definitiva do projeto de Olival. Após a reforma, que durou cerca de um ano, ficou pronto o "Cinebumba", como é conhecido, com insufilme nos vidros, ar-condicionado e 32 poltronas de couro, projetor e videoteca. Para quem não sabe, "Bumba" é uma das gírias usadas para designar ônibus nas periferias dos grandes centros. O foco do projeto são crianças e pré-adolescentes até 15 anos. "Priorizamos esse público, mas é absolutamente necessário que seja alguma instituição organizada, que tenha atendimento sistemático à população carente, como creches, escolas e comunidades", explica Cândida Del Tedesco, que coordena a agenda de atividades do cinema itinerante.

A escolha dos filmes fica a cargo dos espectadores mirins ou ainda das coordenadoras e professoras das entidades beneficiadas. Não há encaminhamento pedagógico por parte do idealizador do projeto. "A idéia é que as crianças desenvolvam um raciocínio humanista por meio do entretenimento", destaca Olival.

Tráfego a favor
No início, os organizadores avisavam algumas entidades a respeito do trabalho. Hoje, elas ficam sabendo através do meio mais antigo de propaganda: o boca-a-boca. Desde que começou o projeto, há seis meses (setembro), cerca de 9 mil crianças assistiram ao menos a um filme. O "Cinebumba" roda a semana inteira, com uma média diária de 3,4 sessões. Olival comenta que, no início, o ônibus viajava muito, mas, hoje, as atividades estão restritas à cidade de São Paulo. É que o motorista Manoel Luiz Rodrigues, de 64 anos, e Lucas Paulo Campos, de 24 anos, responsável pelas projeções, saíam cedo e retornavam muito tarde para guardar o ônibus numa garagem, em Carapicuíba, a mais de 30 quilômetros da capital.

O trânsito de São Paulo que, para muitas pessoas, é considerado um obstáculo, não é empecilho para os dois profissionais encarregados de levar o "Cinebumba" ao destino do dia. "Dá tempo de ele cruzar a cidade. Na verdade, se fosse um trabalho absolutamente empresarial não daria. Além disso, eles têm um prazer tão grande em fazer esse trabalho que não se incomodam. Costumam receber cartas das crianças, ou até mesmo desenhos que são entregues para eles", conta Olival.

Por onde passa, o "Cinebumba" só recebe elogios, como os da coordenadora pedagógica da ONG Projeto Arrastão, Rita Carmona. A Organização Não-Governamental (ONG), localizada no bairro do Campo Limpo, Zona Sul, que atende 815 crianças, de 2 a 15 anos, com cursos profissionalizantes para jovens de 15 a 21 anos, foi beneficiada no final do ano passado com sessões de cinema. O evento fez parte da "Oficina da Escolha", um dia especial, quando foram propostas diversas atividades que não são desenvolvidas no cotidiano. "Como a maioria optou pelo 'Cinebumba', tivemos que fazer uma seleção. No dia, a fila de espera era gigante e reuniu cerca de 150 crianças para assistir às sessões. Este ano, já solicitamos a vinda do ônibus para contemplar as demais", afirma Rita.

Na opinião da coordenadora da ONG, a distância das salas de cinema e o preço acabam tornando-o inviável para o público infantil. "Um veículo de cultura móvel, que traz a possibilidade de entrar num espaço diferente para assistir a um filme, acrescenta muito culturalmente. Ainda mais para a criança de periferia que praticamente nunca foi ou vai ao cinema", avalia.

No ano passado, o ônibus também fez "parada" no Projeto Colibri, em Embu, município a 42 quilômetros de São Paulo. As 421 crianças entre 3 anos e meio e 12 anos tiveram oportunidade de assistir a desenhos infantis. "Elas gostaram muito porque, além do 'Cinebumba' ser um veículo diferente, muitas nunca tinham ido ao cinema", diz Andréa Amaral, captadora de recursos da instituição. Segundo ela, a dificuldade financeira e a distância dos cinemas do centro paulistano são responsáveis por essa exclusão cultural. "A maioria dos bairros de periferia não tem cinema; e há também os custos com ingressos e transporte. E como a maioria das famílias não tem só um filho, fica inacessível", observa.


Sessões para todos
No início do ano passado, Matteo Levi colocou em prática o que até então era apenas uma idéia: levou "cinema" para duas cidades da Grande São Paulo, Itapevi e Santana do Parnaíba. O ginásio de esporte local foi fechado e temporariamente transformado num verdadeiro cinema, com tela de projeção, equipamento de som digital, projetor e cadeiras para o público. Em apenas um dia de projeção foram realizadas 14 sessões, todas com filmes diferentes e entrada gratuita.

O projeto itinerante, denominado "Cinemagia", tem capacidade para realizar sessões para públicos de 50 a mais de 5 mil pessoas e ainda dissemina informações a respeito da prevenção de câncer infantil devido a uma parceria com a Casa Hope. "A idéia nasceu realmente da vontade de democratizar o acesso ao cinema", justifica Laís Martins, gerente de novos negócios do "Cinemagia". Atualmente são promovidas cerca de dez sessões mensais, divididas entre apresentações em creches, escolas, hospitais e penitenciárias, e as voltadas especificamente para o universo corporativo, sob a forma de ações de marketing para clientes ou de endomarketing para funcionários.

"Desde seu lançamento, o 'Cinemagia' vem despertando a atenção de empresas e prefeituras preocupadas em patrocinar ações culturais com ênfase em responsabilidade social", acrescenta Martins. O projeto tem aprovação da Lei Rouanet, o que possibilita aos patrocinadores abater parte da verba destinada e, em alguns casos, até 100% dela, do Imposto de Renda a pagar.

No semestre passado, um programa cultural que envolveu teatro e música, bancado pelo Governo do Estado, Secretaria de Estado da Cultura e Banco Santander, promoveu projeções nas 67 cidades com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil. As sessões foram realizadas à noite com os filmes "Central do Brasil" e "Tainá". "Cada cidade cedeu um lugar para receber o projeto, como, por exemplo, no centro comunitário, na biblioteca ou na escola. As pessoas gostaram muito, pois se identificavam com os personagens. As crianças, por sua vez, ficaram impressionadas; queriam sentar o mais perto possível da tela, já que nunca tiveram acesso a essa cultura", conclui o gerente.
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