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Vida moderna


Após viagem à Índia, Cláudio Duarte (*) traça um paralelo entre um país místico, berço do hinduísmo e do "Yóga Clássico", e um país com grande potencial agrícola e tecnológico, também chamado de "emergente"

O sagrado e o profano


Peregrinar pela Índia é sempre um profundo exercício de transformação, a começar pela transformação interior, com toda a força desta energia. Ela penetra nossos corpos com seus 72 nadis ou meridianos principais e os 9 chakras ou 9 vórtices fundamentais por onde correm os cinco grupos de energias sutis: a) onukya prana, b) apana, c) samana, d) uddana, e) viana, que alimentam a existência humana. Depois disso, começa a transformação exterior. Peregrinar pela Índia é rever o passado, o presente e o futuro, juntos, de mãos dadas, nos contrastes, nas contradições, nos paradoxos e na mais profunda simplicidade da alma humana, aquela que já se perdeu no Ocidente.

É sorrir do cotidiano e chorar de alegria ao ver o amor, a poesia, as cores, os odores, os sabores e a espiritualidade unidos fortemente, de mãos dadas, a cada momento, a cada instante. É conviver com os costumes de um passado arquimilenar, como o do carro de boi, o elefante ou o camelo, todos enfeitados, seja nas estradas poeirentas, seja nas modernas rodovias. Os milhões de rikshaws, bicicletas, motocicletas, e um bilhão de pessoas se locomovendo, seja lá por qual motivo for.

E é saber que há 100 mulheres para cada 120 homens. É assistir aos "pujas" ou rituais sagrados da madrugada, aos "aratis" ou rituais do entardecer, com uma fantástica riqueza de sons e cânticos de mantras seguidos de "mauna", ou o mais profundo silêncio. É ver as grandes cerimônias religiosas do hinduísmo e o fervor sincero e profundo dos devotos, em um país onde 92% da população é hindu, e um hindu verdadeiro. Ele não come carne de animais, nunca ingere bebidas alcoólicas, não fuma e jamais usa ou admite que alguém use drogas.

Também é andar pelas ruas num imenso burburinho e com os vendedores nos chamando a todo instante no meio da algazarra do trânsito, onde todos buzinam ao mesmo tempo, todos sorriem, mas ninguém jamais ofende os outros. Estes são alguns dos paradoxos interessantes deste país antigo e misterioso por onde peregrinei por longos anos, e, após quase cinco anos, aqui voltei. O país do Yóga Clássico, codificado pelo sábio Rish Patanjali, filho da lendária asceta e yógui Gonika e de um pai muito especial.

A Índia hoje
É cada vez mais difícil encontrar aqui os antigos gurus, os homens santos, os sawmis lendários e os velhos pandits ou doutos. Mas ainda há muitos ashrams, parte deles arrendada para comerciantes vorazes, milhares de templos e locais sagrados ou venerados, os shirines. Também já há os espertalhões que se vestem com o hábito amarelo ou laranja, para se fazer passar por monges ou swamis e subtrair dinheiro e favores de turistas incautos.

Mas a Índia é um país que trabalha duramente; o país das pequenas, médias e grandes fazendas; da agricultura em larga escala; das escolas e da educação em amplo desenvolvimento; das vacas e de diversos outros animais sagrados. De uma fé sincera e arquimilenar, no meio da falsa globalização mundial, onde poucos ganham muito e muitos perdem quase tudo como em todos os países de Terceiro Mundo. Diga-se de passagem, mais de 90% dos países do planeta, e onde parte destes, como a própria Índia, recebeu o pomposo e mentiroso nome de emergentes.

Imaginam que com tal mentira, mesmo com pequenas ilhas de excelência locais, podem superar o amplo desemprego, os problemas de infra-estrutura, as questões básicas de saneamento e higiene ou mesmo a manutenção de uma identidade coletiva nacional. Neste último quesito, é importante frisar que o povo indiano tem um grande orgulho das suas antigas tradições e costumes, dos princípios nobres e generosos do hinduísmo, das suas origens védicas, das suas práticas do "Yóga Clássico" tradicional e dos seus multimilenares monumentos.

O homem e a mulher
Quando andamos pelas ruas da Índia de hoje, raramente encontramos mulheres, pois elas ficam confinadas no lar, tratando dos serviços domésticos. Porém, nas rodovias, em boa parte das ocasiões, são as mulheres das classes mais pobres que fazem os serviços pesados de mão-de-obra, como o asfaltamento, muitas vezes, com os filhos pequenos do lado. Mas nas escolas e faculdades, o número de mulheres já supera o dos homens.

Em diversos estados também já há leis que limitam o número de filhos do casal em apenas dois, o que não deixa de ser uma boa medida num país de grande contingente humano. Ao homem cabe o papel de trabalhar em praticamente todas as áreas. Mas é prosaico lembrar que, em muitos lares, ainda há fogão a lenha e o forno "tandori" no quintal, onde se produzem alimentos e pães assados deliciosos. O povo indiano é muito amigo e hospitaleiro e sempre nos oferece um bom almoço ou jantar.


Yóga Clássico e antigas filosofias
Quando abordamos o Yóga Clássico e as filosofias da Índia, estamos falando especialmente sobre as seis escolas do pensamento indiano, conhecidas como "Sad Darshanas" ou seis pontos de vista fundamentais da antiga terra dos sábios Rishs. As mesmas levam o nome de: 1) Samkya, 2) Yóga, 3) Nyaya, 4) Vaisheshika, 5) Purva Mimansa, 6) Vedanta ou Uttara Mimansa. O Yóga aqui citado é o mais antigo e venerado de todos, chamado "Yóga Clássico", Raja Yóga ou mesmo Ashtanga Yóga, já que é composto por oito partes e foi codificado por Patanjali, o célebre precursor da elaboração detalhada desta primeira escola ou ramo. Mas na Índia, em relação à ioga e a outras filosofias, nada mudou; tudo continua como há muitos milênios. As pessoas continuam praticando no mais profundo silêncio e com os olhos e a boca fechados. E também sem fazer esforços de saltar as veias, como ocorre aqui no Brasil. Mas paciência, pode ser que daqui a 5 mil anos nós também cheguemos lá! (C.D.)
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