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Saúde


Não faça do computador uma arma. A má postura diante dele, aliada ao seu uso indiscriminado, pode provocar uma série de lesões ósseas e desvios de coluna, principalmente em crianças e adolescentes
Texto: Margarete Azevedo

Ossos do ofício


Maravilhados com a habilidade de seu rebento com o mouse e o joystick ou com a obra-prima que ele acabou de produzir no computador (pensar que nós geramos esse gênio!), muitos pais esquecem-se de observar os estragos que o uso incorreto e prolongado dessa máquina fantástica é capaz de produzir nessas pequenas colunas vertebrais e outros membros ainda em formação. Prova disso é uma pesquisa recente realizada com adolescentes (entre 10 e 18 anos) de uma escola particular de São Paulo, quando grande parte dos entrevistados apresentou algum tipo de problema ocasionado pela postura inadequada diante do computador. Dos 791 alunos ouvidos, 91% pertencem a uma classe social de alto poder aquisitivo, 50% possuem computador para uso exclusivo e apenas dois deles trabalham.

O objetivo foi analisar a presença de dor, síndromes e lesões músculo-esqueléticas em adolescentes e sua relação com o uso de computador. Na primeira etapa, os participantes responderam a um questionário sobre dados demográficos e relativos ao uso do computador. Na segunda fase, 359 deles aceitaram fazer o exame médico em que foram verificadas as condições dos braços, antebraço, mãos, dedos e coluna vertebral. Esse procedimento constatou a presença de doenças como fibromialgia juvenil (1%), síndrome da hipermobilidade articular benigna (10%), síndrome miofascial (5%) e lesões específicas de membros superiores - tendinite, bursite e epicondilite (2%).

Apesar de apenas 2% dos adolescentes apresentarem tendinite associada ao uso do computador, 70% deles o utilizavam por um período superior a duas horas - a grande maioria é usuária da Internet e de comunicadores instantâneos como ICQ e MSN. "Trata-se de uma atividade prazerosa. Portanto, mesmo expostos ao fator de risco, excepcionalmente, apenas 2% apresentaram a doença", ressalta o médico Clóvis Artur Almeida da Silva, chefe da Reumatologia Pediátrica do Departamento de Pediatria do Hospital das Clínicas e professor de pós- graduação da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

Na avaliação do médico, o resultado não é preocupante, pois os adolescentes que tiveram o problema receberam orientação e a sintomatologia regrediu. "Uma postura adequada e flexibilidade corporal foram intensificadas nessa população. A idéia de que tendinite é crônica, não tem cura, não é verdade", afirma. Ele explica que a doença provoca uma dor difusa, no corpo inteiro, e pode estar associada ao uso do computador. A hipermobilidade articular benigna é um problema comum na criança, ela já nasce com as articulações mais flexíveis. "A nossa questão seria se o uso do computador intensificaria as dores deste paciente. A síndrome miofascial é a dor localizada, também freqüente, por exemplo, quando se tem dor nas costas. É aquele ponto doloroso, em que um lado dói mais", emenda.

Adultos sob risco
O médico revela também que a causa mais comum de Lesões por Esforços Repetitivos (LER) ou de Distúrbio Osteomuscular Relacionado ao Trabalho (DORT) em âmbito mundial se deve ao uso do computador. Os mais prejudicados, nesse caso, são os que trabalham com ele, ou seja, os adultos. "Há alguns trabalhos que avaliam a dor com o uso do computador, mas até o momento não existe um estudo epidemiológico que associa dor, doenças e o uso do computador. Este é o ineditismo do fato", acrescenta.

Segundo o reumatologista, a tendinite é um tipo de Distúrbio Osteomuscular Relacionado ao Trabalho (DORT) ou de Lesões por Esforços Repetitivos (LER) que costuma afetar com freqüência profissionais com rotina estressante e, quase sempre, está relacionada ao uso de computador. "A LER/DORT é desencadeada por vários fatores que envolvem não só o uso crônico, mas também o aspecto emocional, a competitividade e o medo de perder o emprego. Os adolescentes, apesar de usarem muito, não estão sujeitos, especificamente, às condições de LER/DORT", compara.

Na terceira fase da pesquisa, realizada na sala de informática da escola, foi constatado que todos os estudantes apresentavam postura incorreta na frente do computador. A questão não era o mobiliário. "Os equipamentos estavam adequados, mas os adolescentes (100% deles) não mantinham os parâmetros que determinam uma postura correta: punhos sobre uma superfície rígida em frente do teclado, dedos levemente dobrados, pés no chão e a coluna no encosto da cadeira", revela o médico.

Seria precipitado afirmar que esses estudantes tenham mais possibilidades de desenvolver LER/DORT no futuro. No entanto, caso eles mantenham o mau hábito, ou seja, a postura inadequada, terão mais condições de desenvolver doenças. "Como o computador fará parte da vida deles para sempre, a melhor forma de evitar e diminuir as lesões é ter uma postura adequada em frente do equipamento", acentua Almeida da Silva. Ele sugere que isso deve ser estimulado em pré-escolares, com idade inferior a 7 anos, durante a consulta com o pediatra. "As escolas deveriam contratar médicos, eventualmente, para orientar adequadamente as crianças com 4 ou 5 anos, que começam a ser alfabetizadas. O próximo passo da pesquisa será avaliar adolescentes que trabalham e vivem uma realidade social totalmente diferente", finaliza. (M.A.)


A pão e água
Natação, pingue-pongue, teclado, violão e computador foram alguns dos passatempos favoritos de que se viu privado, por orientação médica, o estudante Ronaldo Flávio Faria Júnior, 15 anos. Ele conseguiu esconder de sua mãe, a artesã Lúcia Muriko Mishimata Faria, 43 anos, os sintomas de dor e a dificuldade de pegar objetos pesados. Porém, ao revelar o problema ao médico, descobriu que, além de ter de ficar imobilizado por dez dias, o tempo de uso do computador seria reduzido e não poderia mais jogar pingue-pongue.

A limitação do computador foi fácil explicar: o médico atribuiu a tendinite ao longo tempo que o garoto passava em frente do equipamento. "Durante a semana, quando está na escola, ele não fica muito tempo, mas no fim de semana, se deixar livre, fica dez horas jogando", diz Lúcia. Apesar de reduzir o uso para cinco horas por dia, duas pela manhã e três divididas entre o período da tarde e da noite, ela diz que o filho não consegue se controlar. "Ele fica irritado, não se concentra em leitura, tenta pegar o violão, fica apenas 15 minutos, enfim, tem muita ansiedade", revela.

Os riscos de Ronaldo poderiam ser menores, caso ele fizesse uma pausa a cada duas horas e exercícios de alongamento, destaca o médico Clóvis Artur Almeida da Silva, chefe da Reumatologia Pediátrica do Departamento de Pediatria do Hospital das Clínicas e professor de pós-graduação da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). "O ideal é que, a cada hora, haja dez minutos de flexibilidade e descanso. É importante relaxar a musculatura, andar, movimentar os cotovelos, os punhos, ombros e pescoço, mas, do ponto de vista prático, isso não ocorre, inclusive entre os adultos", enfatiza o especialista.

Almeida da Silva aconselha os pais a insistirem, mesmo que tenham dificuldade de impor limites aos adolescentes. Segundo ele, além dos problemas descritos, o computador também pode atrapalhar as atividades diárias, como a escola e o sono. Apesar de não existir ainda um estudo que indique o tempo ideal, o médico recomenda o limite de duas horas. "Sabemos que mais do que isso aumenta o risco de obesidade, cefaléia e dores", adverte.
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