A música nem sempre faz parte da grade curricular da maioria das escolas, mas há quem defenda sua presença em todas as fases do aprendizado
Dá o tom professor!
Uma escola árida e com pouco espaço às atividades ligadas à percepção, principalmente, nas séries mais avançadas. Esse foi o ambiente encontrado por Carlos Eduardo S. C. Granja, há dez anos, quando foi efetivado como professor de matemática da Escola da Vila, uma das mais tradicionais de São Paulo. Mestre de percussão corporal na também paulistana Escola HeiSei, indagava se o conhecimento só tinha uma dimensão, de saber conceitos, interpretar gráficos, resolver equações e dar respostas.
Essa realidade serviu de inspiração para o seu projeto de mestrado, concluído na Universidade de São Paulo (USP). O trabalho possibilitou-lhe investigar as formas possíveis para equilibrar o conhecimento na escola, valorizando ao mesmo tempo o saber conceitual nas disciplinas e também a percepção.
A pesquisa resultou no livro Musicalizando a escola: música, conhecimento e educação, da “Coleção Ensaios Transversais”, Escrituras Editora. “A música consegue unir esses dois pólos. Para fazer música, a pessoa deve ter um lado conceitual muito bom; saber ler, entender os acordes e a harmonia, mas, ao mesmo tempo, tem que ter o lado perceptivo”, comenta.
Ele descobriu que, desde a Antiguidade, a música era uma matéria presente na vida escolar das pessoas. Era disciplina obrigatória nos currículos básicos e superiores até o final da Idade Média. Foi deixada de lado, a partir do século 16, à medida que se começou a valorizar o caráter mais científico das disciplinas.
Só para consumo No Brasil, os jesuítas logo perceberam que a maneira mais fácil de catequizar os índios era pela música. Quando conseguiram seu intento, a colocaram de lado. Granja explica que a música também foi afastada da escola pela crença de que a educação musical só deve ser destinada a quem deseja se tornar músico. Ao cidadão comum, restou o papel de ser apenas um apreciador da música. “O fato da sociedade ser mais materialista, mais prática, foi deixando todo tipo de linguagem artística em segundo plano”, constata.
Segundo o professor, nossas crianças são consideradas hoje em dia musicais ou não musicais, de acordo com seus talentos imediatos. “A importância de saber ouvir é geralmente ignorada nas avaliações de habilidade musical, embora seja um elemento fundamental tanto na música quanto na língua. A música deve ser contemplada pela escola porque é uma linguagem própria do homem e não apenas do músico”, reforça.
Granja defende que as pessoas têm o direito de aprender o mínimo desse conhecimento musical para aperfeiçoar a escuta. Deve existir uma aprendizagem na escola, que as tornem um ouvinte atento, capaz de distinguir elementos musicais como ritmo, harmonia, som, silêncio, ruído, além de saber dar significado a eles.
“As pessoas são bombardeadas por muitas coisas; põem tudo numa caixa só; e têm somente um tipo de escuta. Na verdade, isso leva todo mundo a ficar com o mesmo gosto, num tipo de música muito rasa. É preciso dar instrumento para o cidadão distinguir o que é bom e o que não é”, afirma o professor.
Exotismo A proposta de Granja não é apenas inserir a música na escola como disciplina obrigatória. “É fazer dela um projeto de integração capaz de articular as diferentes dimensões do conhecimento, e propiciar uma formação mais condizente com as aspirações do ser humano”, diz. A especialização das áreas do conhecimento fez com que a música se distanciasse da matemática, a ponto das pessoas acharem no mínimo exótica essa aproximação. Coube ao psicólogo cognitivo e educacional norte-americano, Howard Gardner, por meio de seu trabalho sobre as inteligências múltiplas, a aproximação desses dois conceitos.
“Essa teoria veio para acabar com a idéia de que inteligência é só a da matemática e da lingüística, como era feito antigamente com os testes de Q.I. A pessoa era considerada inteligente se tivesse um bom desempenho em raciocínio lógico e na expressão escrita. Gardner trouxe a perspectiva de que a inteligência tem outras dimensões. Por exemplo, corporal, espacial, musical, intrapessoal, entre outras”, analisa o professor. O mesmo ocorre na escola, onde ainda se cria o paradigma de considerar que a inteligência é lógico-matemática e lingüística. “É preciso que os currículos se apropriem dessas outras inteligências.”
Educação infantil Granja é contrário à idéia de estabelecer a música como mais uma disciplina do currículo escolar. Entende que ela deva ser integrada às demais disciplinas durante toda a vida escolar. Cita, como exemplo, a presença da música na educação infantil, nas rodas e nas brincadeiras, ou quando o professor passa uma canção, que transmite algum conteúdo.
“A música em si tem valor e pode se articular com os outros conhecimentos. Até complementando as teorias de Gardner, das inteligências múltiplas que se comunicam, ou seja, a inteligência corporal com a espacial, com a matemática, com lingüística etc. A música precisa parecer menos como disciplina e mais como uma maneira de integrar os conhecimentos: música-matemática, música-literatura, música-geografia”, analisa o professor.
Granja comenta sobre um professor de história que utiliza uma música de Chico Buarque, dos tempos da ditadura, para ensinar o momento político em que o Brasil vivia. A letra de conteúdo político, serve para a disciplina.
Na sala de aula, ele mescla a matemática tradicional com outros elementos, inclusive, a música. “Parece esquisito música com matemática. Há quem ache que é preto e branco, sem relação nenhuma; e outros que dizem: tem tudo a ver. Trazer essa dimensão, essa proximidade da matemática com a música pode fazer com que o aluno dê mais significado para aquilo que ele aprende”, justifica.
É possível utilizar a música como objeto de conhecimento. Por exemplo, no ensino de frações e proporções, dá para estabelecer o vínculo com as notas, os intervalos e as escalas musicais. “O professor, mesmo sem ser músico especialista, pode trazer para a classe o violão e pedir aos alunos que investiguem, meçam, toquem e percebam no som o resultado de uma fração. Assim, eles podem consolidar melhor o conhecimento que era estritamente numérico. O que eu estou juntando aqui? A percepção”, explica Granja.
O professor garante que a música pode ser vinculada à questão ecológica, por meio de projetos que tenham como tema a relação das pessoas com o ambiente. E através da fabricação de instrumentos musicais e reciclagem de materiais. “Isso envolve uma série de conhecimentos, desde os cálculos matemáticos para obter a escala musical, até a habilidade manual para transformar em instrumentos garrafas plásticas, tubos de PVC, latões de lixo e latas de refrigerante”, finaliza. (M.A.)
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