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Cotidiano


Sem ninguém para reclamar do barulho (ou do silêncio), os cemitérios atraem não só famílias em piqueniques como também praticantes de cooper, namorados, turistas e devotos
Fotos: Isabel Mojica

Em boa companhia


Os mexicanos costumam fazer a maior festa nas ruas durante o Finados, os orientais improvisam banquetes sobre as lápides, os franceses cultuam seus cemitérios durante o ano inteiro, como ponto de atração turística. No Brasil, o tema não chega a arrancar suspiros, mas não falta quem se interesse por ele até como objeto de pesquisas. Caso do professor de geografia Eduardo Coelho, 35 anos, um especialista em cemitérios, cujo trabalho abrange do turismo à questão ambiental desses locais - tanto que ele conhece cerca de 600 deles. Autor da tese "O Céu Aberto na Terra: uma leitura dos cemitérios de São Paulo na geografia urbana" e do livro Metrópole da Morte, Necrópole da Vida, Coelho revela que o cemitério paulistano da Vila Formosa (considerado o maior da América do Sul) era praticamente o quintal de sua casa, onde costumava brincar.

"Quando tive que fazer um trabalho de conclusão de bacharelado - cursava geografia na USP -, resolvi estudar as atividades socioespaciais dos cemitérios; os motivos que levam as pessoas ao cemitério para empinar pipa, namorar, soltar balão, fazer cooper", conta. Descobriu a opção numa metrópole que prioriza o automóvel em detrimento dos pedestres e constatou que a propriedade privada está instalada em todos os lugares, o que dificulta o acesso dos cidadãos a vários pontos. "A pessoa tinha o rio para nadar, hoje ela tem que pagar uma escola de natação. O futebol no campo da várzea do rio também pertence a alguém; se a pessoa quiser jogar bola terá que alugar uma quadra e também pagar por isso", diz.

Por mais esquisito que possa parecer, muitos procuram o cemitério para realizar alguma prática recreativa. Segundo o especialista, esse hábito é universal. "No cemitério de Boston, as pessoas fazem piquenique. Em São Paulo, a comunidade boliviana realiza o panito dos mortos. Eles levam pães a esses lugares e ficam ao lado dos túmulos comendo. Essa é uma prática que eu também verifiquei no Equador, comum entre os povos quéchuas do Peru, Bolívia e Equador", indica. Quanto ao turismo, descobriu que ele ainda é incipiente no Brasil se comparado ao que ocorre em outras partes do mundo. Nos cemitérios São Pedro, de Medellín (Colômbia), e Presbítero Maestro, de Lima (Peru), paga-se para entrar. "No São Pedro, são promovidos shows, noches de luna llena (noites de lua cheia) e caminhadas noturnas", emenda.

Jardins
Estima-se que existam no País pelo menos 6 mil cemitérios. A região metropolitana de São Paulo tem 40 unidades, dos quais 22 são municipais e 18 particulares. Alguns desses locais são conhecidos pela opulência de tradicional ou romântico, como é o caso do Cemitério da Consolação, em São Paulo. Esse modelo surgiu com o avanço do liberalismo sobre a Igreja Católica, que foi perdendo o poder sobre o corpo do falecido, até então sepultado no interior da Igreja. As discussões em torno das questões sanitárias possibilitaram a criação dos cemitérios a céu aberto. Esses novos espaços passaram a abrigar a burguesia do País, em especial em São Paulo e no Rio de Janeiro.

"No Cemitério da Consolação estão o Barão de Iguape e a Marquesa de Santos, da época do Império. Posteriormente, o local passou a abrigar personalidades, o que é comum também em cemitérios internacionais, como o Père-Lachaise, em Paris. Lá estão enterrados Jim Morrison, Marcel Proust, Edith Piaff e Edgar Allan Poe", comenta Coelho. Ele destaca que a arte tumular desses locais apresenta forte influência italiana. "Os artistas italianos se espalharam pelo mundo, disseminando um mesmo estilo de arte funerária, tanto que na Consolação há obras de Alfredo Orliani, Bruno Giorgi, Materno Giribaldi e Victor Brecheret", explica. Atualmente, são comuns os cemitérios-jardins, inspirados em modelo norte-americano: é a red stone, que é a pedra de cabeça e a lápide no chão", informa.

A especulação econômica também corre solta no setor funerário, por isso, ser enterrado próximo a uma celebridade pode custar mais caro. "Recentemente, vi um anúncio com os dizeres: 'Vendo jazigo no cemitério do Morumby, local nobre, próximo do Ayrton Senna.' Às vezes, uma pessoa que tem muito dinheiro compra um terreno no cemitério da Consolação e faz uma obra suntuosa, com o objetivo de afirmar a sua importância", observa Coelho. Segundo ele, no Brasil, o espaço disponível também é determinante para as construções, mas no Japão, pouco maior que São Paulo, com 150 milhões de pessoas, 90% da população é cremada.

Não é preciso cruzar o mundo para constatar outros empreendimentos que foram erguidos devido a uma necessidade específica, como o cemitério vertical Memorial, que foi edificado por José Altstut em Santos (SP). Com 11 andares e capacidade para mais de 80 mil corpos, é o maior da modalidade no mundo. Foi construído porque existia a possibilidade da contaminação do aqüífero freático. Nesse caso, o vertical era o modelo mais indicado.

Em São Paulo, as pessoas que não professavam o catolicismo eram sepultadas em complexos distintos, como o cemitério dos Protestantes, criado inicialmente para atender os luteranos e presbiterianos. "O primeiro rabino da cidade de São Paulo, João Azmalak, foi enterrado lá, porque não havia um cemitério judaico na cidade. Em 1922, foi construído um anexo no cemitério na Vila Mariana", informa o pesquisador. Os islâmicos, a exemplo dos judeus, têm cemitérios específicos para sepultamento, em Guarulhos. O local caracteriza-se por uma tumulação simples, com um tipo de bastonete redondo e inscrições em árabe. (M.A.)
Choro pago
Existiam desde os tempos de Cristo, mas quem iria imaginar que sobrevivessem até os dias de hoje? Estamos falando das carpideiras, cujo trabalho, lá como agora, não mudou: são mulheres pagas para chorar nos funerais. No Brasil, são poucas as profissionais, principalmente no Nordeste, das quais se exige talento para chorar copiosamente e, mais do que isso, sensibilidade. A atriz Itha Rocha, 54 anos, é remanescente de uma família de especialistas em choro e lamúria. Diz que antigamente as carpideiras profissionais cumpriam o estatuto das 12 tábuas, que coibia a histeria. Eram divididas em grupos; algumas entoavam cantos de louvor, outras choravam.

As carpideiras chegaram ao Brasil com os portugueses. Inicialmente, o serviço não gerava dinheiro, conforme Itha ouviu de sua bisavó. "O defunto deixava boi ou roupa para o pagamento", comenta. Mas a habilidade de verter lágrimas não é exclusividade dela; seus 11 irmãos, inclusive os homens, choram com facilidade. Não existe uma técnica para desencadear o choro. "Para nós, a morte é uma passagem. E para que essa passagem seja feita de forma tranqüila, bonita, é necessário alguém chorar", declara. Na sua concepção, o trabalho consiste em transformar as energias negativas em positivas. "Quando a pessoa morre, o espírito dela fica algum tempo ao redor. As pessoas às vezes não respeitam e começam a falar de assuntos inadequados, inclusive, sobre herança", esclarece a atriz.

Itha começou a chorar por dinheiro paralelamente ao trabalho em uma empresa de telefonia com mais de 3 mil funcionários. "Quando perdia algum colega, fazia o papel da carpideira. O jornal interno realizou, inclusive, uma matéria a respeito do assunto. Descobriram-me; quando me dei conta desenvolvia a prática aqui em São Paulo." O valor cobrado varia de acordo com a família. "Não me prendo a valores, às vezes, vou de cortesia", diz.

Chorar profissionalmente implica, de vez em quando, situações inusitadas. O parente que chega alcoolizado e faz gestos e discursos engraçados; defunto que volta da autópsia envolto em um lençol e ninguém leva roupa para vesti-lo; parente que chega de longe exigindo os bens do falecido. "Isso ocorre tanto em velório de rico quanto no de pobre", lembra Itha. Sem falar nas piadas, comuns no decorrer da madrugada. "Faço um relatório de tudo", brinca.
Santos de casa
Longe dos Finados, os cemitérios paulistanos têm atraído visitantes por um outro motivo: os pedidos de graças aos chamados "santos urbanos". Ignorados pela Igreja Católica, são adorados a céu aberto e têm como características a benemerência ou a morte trágica. Segundo o pesquisador Eduardo Coelho, eles são 22 enterrados na cidade. Francivaldo Gomes, guia turístico do Cemitério da Consolação, lembra de Antoninho da Rocha Marmo, que morreu aos 12 anos, em 1930, em decorrência de tuberculose; e Maria Judith de Barros, morta aos 41 anos, que padecia de uma doença degenerativa e sofria com maus-tratos do marido.

"Quando estão em dificuldades, as pessoas se apegam a esses santos", revela Gomes. Por mês, cerca de mil devotos visitam o túmulo do garoto, e 600, o de Maria Judith. Coelho constata que a história da cidade se perpetua por meio desses santos, como é o caso das "13 Almas do Joelma" - pessoas mortas num dos piores incêndios da cidade. Também na Consolação, a Marquesa de Santos atrai uma legião de fiéis. "Figura mítica, ela pediu em vida que fossem colocadas rosas vermelhas no seu túmulo. Todos os dias alguém faz essa substituição", acrescenta.

Na zona sul de São Paulo, o cemitério de Santo Amaro guarda o túmulo de Antônio Bento, o "Bento do Portão", conhecido como protetor dos aflitos e desesperados. Nascido em 1875 na Bahia, morreu aos 42 anos, com fama de curandeiro no bairro. Na Vila Formosa, a devoção é para a menina Débora, que morreu aos 4 anos de idade, assassinada pelo padrasto. No cemitério da Quarta Parada, na Água Rasa, a veneração é no túmulo de Felisbina Muller, onde foi encontrado até agradecimento pelo encerramento do mestrado na faculdade. Até Monteiro Lobato é reverenciado em 22 de agosto (Dia do Folclore), pelos passageiros de um ônibus procedente de Taubaté. Eles visitam seu túmulo vestidos como os personagens do escritor.
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