Cultura


Mestra da arte da cerâmica figurativa, Aidil percorre o País com uma exposição que retrata os orixás do candomblé em argila
Texto: João Teixeira
Fotos: Vera Sarkös

A arte baixou no terreiro


O ceramista "Mestre Vitalino" se foi deste mundo há 42 anos, mas deixou uma legítima representante de sua arte em terras paulistas. Aidil, mestra da cerâmica figurativa revelada em Embu das Artes (a 30 quilômetros de São Paulo), é tida por muitos como o "Vitalino de Saias", devido a seu desprendimento em ensinar e encaminhar seus alunos.

Octagenária, mas inspirada e ativa, Aidil comemora seus 50 anos de artes com uma produção única e limitada de peças em argila. Elas representam os orixás, entre eles, Oxum, Exu, Oxóssi, Oxumaré, Omolu e Iemanjá. É uma fase tipicamente africana, cujo resultado pôde ser conferido, em agosto passado, numa mostra no balneário do Guarujá (SP) e agora em uma exposição itinerante por todo o Brasil.

O trabalho foi feito em parceria com a filha e sucessora, Maria Martha. Ambas criaram, desenharam e modelaram 20 orixás coloridos e 20 em terracota. "São peças feitas em argila, sustentadas nos próprios pés, sem suporte, que representam as divindades do candomblé", explica Aidil. Ela vive no Guarujá, onde desenvolve intensa atividade artística e cultural. "Moro à beira-mar e isso influiu na escolha do tema, que tem a ver com Iemanjá, a rainha do mar."

Encantada com a mitologia dos orixás, a ceramista exalta a influência da religião africana no País. "O candomblé no Brasil é original, diferente do de outros países da América Latina ou da santería do Caribe. O mais lindo é o sincretismo, a mistura entre os deuses da Mãe África e os santos do catolicismo." Aidil lembra que isso só aconteceu no Brasil porque a adoração de entidades africanas era sufocada pelos jesuítas. "O caldeamento contribuiu para o culto das divindades da religião negra, que sobreviveu à autoridade da Igreja Católica, terrível durante a escravidão", emenda.

Raiz da raça
Oxumaré, simbolizado pelo arco-íris, leva as águas do mar para os palácios de Xangô. É híbrido, macho e fêmea, e segura duas cobras nas mãos. Iansã é Santa Bárbara. Ibeji, Cosme e Damião. Oçãnhim, orixá das ervas, da saúde e da cura, tinha uma perna só, como o Saci-Pererê da cultura cabocla.

O Omolu de Aidil é coberto por fios de argila que vão quase até os pés, simulando palha, com requinte e perfeição. "A cultura africana está na ordem do dia no mundo. Precisamos salvar o continente africano", afirma a ceramista. Longe de qualquer misticismo, ela conclui, firme: "Os europeus sugaram a Mãe África e precisam salvá-la. E nós, brasileiros, devemos nos encher de amor e brio por esse povo que é a nossa raiz."

Profissão ceramista

Contemporânea de Sakai, Assis e Solano Trindade, nomes consagrados de Embu das Artes, reduto artístico e cultural dos anos 60 na Grande São Paulo, Aidil montou em 1970 seu primeiro ateliê na cidade. Seu amor pelo barro vem da infância. Esteve em inúmeros movimentos de arte e fez escola, ensinando o ofício da cerâmica a pessoas que até hoje sobrevivem do trabalho.

Radicada no Embu, participou de oficinas e cursos no Exterior, principalmente no México, onde aprimorou suas técnicas de cerâmica e papel machê. Criou palhaços, anjos, sereias e a linha santeira, fruto do aprendizado com os mestres santeiros de Taubaté. Seus presépios estão em museus do Japão, Itália e Estados Unidos, entre outros países.

A ceramista Aidil Athayde de Oliveira Marques nasceu em 1926, em Pindamonhansgaba, no Vale do Paraíba, Estado de São Paulo. Apaixonada pela cerâmica primitiva desde criança, estudou em colégio salesiano e no Instituto Caetano de Campos. Fascinada pelo desenho e modelagem, dedicou-se à cerâmica figurativa como autodidata.

Ela se mudou para o litoral paulista e continua criando, com a filha Maria Martha, que trabalha a seu lado desde os anos 80. Fazem presépios, santos, árvores-da-vida, anjos e figuras folclóricas. Aidil comemora meio século como ceramista da melhor forma: exerce a profissão com o rigor de sempre e uma alegria que se renova a cada peça que faz.

SERVIÇO
Tel. (13) 3392-6097
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